Marcadas pelo luxo, as montras das lojas na Avenida da Liberdade, em Lisboa, voltaram esta segunda-feira a ganhar vida. Depois de dois meses encerrados, comércio e restauração reabrem com a devida segurança contra a Covid-19, apostando no consumidor nacional.

Apesar da falta de turistas, a Avenida da Liberdade regista esta segunda-feira um movimento quase normal, quer de automóveis, quer de pessoas a andar pelos passeios. É uma segunda-feira de regresso à normalidade, com a nova fase de desconfinamento devido à pandemia da Covid-19, marcada pela reabertura de lojas e restaurantes, em que todos estão obrigados a usar máscara.

“Garantimos um conforto de compra, apesar do desconforto da máscara, mas que seja feita com o melhor serviço possível e com toda a segurança”, afirma à Lusa Rita Silvério Marques, diretora-geral de moda do grupo Amorim Luxury, que integra a loja da Dolce & Gabbana.

A loja desta marca italiana na Avenida da Liberdade representa “uma grande vitória” em tempos de pandemia, uma vez que foi inaugurada no primeiro dia de desconfinamento em Portugal, em 4 de maio, após conclusão das obras durante o período de confinamento.

Esta segunda-feira, a Dolce & Gabbana junta-se a outras lojas, restaurantes, escritórios e hotéis para promover a “redescoberta segura” dos espaços que mantêm viva uma das principais artérias da capital portuguesa, a Avenida da Liberdade.

Com sentido de responsabilidade, os espaços asseguram todas as medidas de segurança contra a Covid-19, inclusive uso obrigatório de máscara, desinfeção das mãos, higienização dos espaços e medição da temperatura dos funcionários.

Na montra principal sobressai um vestido verde com um toque primaveril, à venda por 2.950 euros, produto de luxo inacessível à maioria dos portugueses, mas que pode ser adquirido pela “rede de clientes muito fiel”.

“Neste momento, temos pouco turismo, portanto vamos, claramente, focar a comunicação nos portugueses, nos estrangeiros residentes e a qualquer pessoa que prefere o máximo de qualidade, de design italiano”, refere a diretora-geral de moda do grupo.

Sem preocupação com a faturação, Rita Silvério Marques conta que “os primeiros resultados da loja já foram satisfatórios”, perspetivando uma melhoria com a abertura de todo o comércio e restauração na Avenida da Liberdade, bem como com a continuação das vendas online.

“Estamos confiantes, com a abertura dos restaurantes, com a Avenida mais dinâmica, vamos eventualmente trazer portugueses que, até agora, vinham menos à Avenida, porque sabiam que estava cheia de turistas”, avança a responsável da loja da Dolce & Gabbana, acreditando que o poder de compra dos habituais clientes se mantenha, porque “sobretudo muitos deles estavam habituados a viajar, agora viajam menos e terão mais tempo e, certamente, mais sensibilidade a apelar pelo consumo em Portugal”.

Encerrado desde 13 de março, o restaurante JNcQUOI Asia reabriu esta segunda-feira ao público, com o reforço das medidas de higiene e segurança.

“Todos os colaboradores e clientes têm de usar máscara nas áreas públicas. O cliente só está autorizado a tirar a máscara quando estiver a fazer a sua refeição”, indica Ricardo Felgueiras, diretor de operações do restaurante, destacando a existência de um tapete desinfetante à entrada e de dispensadores de álcool gel em todo o espaço.

Num ambiente asiático, com um terraço/jardim, o restaurante decidiu manter a decoração, mas cumprindo as limitações impostas, assinalando as mesas que estão indisponíveis, assegurando a distância de dois metros, desinfetando mesas e cadeiras antes de o cliente se sentar e disponibilizando bolsas que garantem a higienização dos talheres.

“Reduzimos a capacidade do espaço em 50%”, aponta Ricardo Felgueiras, explicando que existem à volta de 360 lugares e estão disponíveis cerca de 150.

Ainda a contabilizar os impactos dos meses em que estiveram de portas fechadas, que “são inúmeros”, aos quais acresce “um investimento muito grande” nas medidas de prevenção contra a Covid-19, o restaurante está pronto para “reabrir cheio de força”.

Recusando falar em despedimentos, o responsável adianta que houve a necessidade de fazer reajustes na equipa de colaboradores, porque se espera “menos volume” de trabalho.

Na incerteza sobre o futuro, Ricardo Felgueiras mantém a confiança de ter os clientes de volta.

Em termos de reservas, o restaurante regista, para esta segunda-feira, “cerca de 65 almoços e cerca de 100 jantares”.

A comandar as equipas de cozinha, o chef António Bóia, do restaurante JNcQUOI Asia, conta à Lusa que a maior dificuldade na adaptação do trabalho devido à Covid-19 é nas cozinhas de terminação, “porque é necessário provar, retificar temperos e, obviamente, a máscara vai dificultar um bocadinho”.

Apostando na utilização dos produtores nacional, o chef ressalva que há uma redução da carta, que tinha 120 pratos e agora tem 62, mas mantendo todos os pratos emblemáticos.

Ainda na Avenida da Liberdade, a Boutique dos Relógios foi outra das lojas que reabriu esta segunda-feira, após ter estado dois meses encerrada, período de confinamento em que apostou na venda online, mas que não impediu que houvesse “uma grande quebra na faturação”, principalmente na alta relojoaria e joalheira, em que “há um peso, também, importante do turismo”.

“A abertura está a correr bem a nível de tráfego, estamos entusiasmados, temos tido visitas, clientes a entrar e a querer saber se temos os modelos, quais são os preços, a perguntar. Estamos bastante positivos com estas primeiras horas, sentimos que há aqui um grande conforto em passear pela Avenida, as lojas como são amplas também deixam as pessoas à vontade para poderem circular sem se sentirem constrangidas ou em risco”, declara David Kolinski, administrador da Boutique dos Relógios.

Uso de máscara, disponibilização de álcool gel, acrílicos que garantem o distanciamento, desinfeção constante do espaço e das peças são algumas das medidas implementadas por esta loja, indica David Kolinski, considerando que os clientes precisam de ganhar confiança para comprar em segurança.

Em relação ao poder de compra, numa loja em que os relógios custam acima de 10 mil euros, David Kolinski prevê que haja “uma faixa de clientes que talvez vai ser mais cautelosa, porque não sabe como serão os seus rendimentos nos próximos meses e serão afetados pelos negócios que têm ou que estarão afetados pela crise”.

No entanto, a expectativa é de que “haverá sempre uma clientela que se mantém na compra dos relógios e das joias, principalmente quando são ofertas”, diz o administrador, advertindo que, ainda assim, a compra não vai ser com a mesma intensidade e a mesma frequência.