Primeiro, o mistério. Uma mulher adoece com Covid-19 sem se saber como foi contaminada. Depois, o pesadelo. Os casos começam a multiplicar-se e em 12 dias chegam aos 45 infetados na região. Por último, a repetição. Mais de 100 milhões de pessoas em Jilin, província no nordeste da China, são obrigadas a limitar os seus movimentos. Shulan, a cidade de 700 mil pessoas onde a primeira pessoa adoeceu, transforma-se na nova Wuhan, o epicentro da pandemia mundial. Ninguém entra, ninguém sai.

A decisão de repor a quarentena rígida foi tomada na segunda-feira, 18 de maio. As parecenças com Hubei, província onde se situa Wuhan, terminam por aqui. Em Jilin, o acumulado de casos está nos 127 infetados. Em Hubei, já passou os 67 mil. Desta vez, ninguém pode acusar as autoridades de reagirem tarde, como em Wuhan, onde tudo começou em dezembro de 2019 — mas a rapidez da resposta mostra, acima de tudo, o medo que a China tem de que uma nova vaga de infeções surja no país.

Estas terça-feira, 24 horas depois da imposição de regras duras, chega o aviso das autoridades: quem violar a quarentena será alvo de sanções administrativas ou criminais. O mesmo se aplica a quem esconder problemas respiratórios que indiciem a presença da doença e a quem espalhar rumores, lê-se no comunicado da polícia de Shulan.

Naquela cidade, há um regresso ao passado recente que contrasta com o desconfinamento que vai aumentando por toda a China. Apenas uma pessoa por agregado familiar pode sair de casa de dois em dois dias, durante duas horas, e para fazer compras essenciais. Os transportes públicos estão parados e as aulas presenciais voltaram a ser suspensas. Milhares de alunos voltaram à escola virtual.

Como é que se regressa a este cenário? Tudo (re)começa a 7 de maio. É nesse dia que uma mulher, cuja identidade e idade é desconhecida, adoece. Trata-se de Covid-19. O problema é que a funcionária da lavandaria da polícia local não esteve em contacto com ninguém infetado. Há 73 dias que não são registados casos oficiais de novas infeções na cidade.

Para além disso, a doente garante que não saiu da cidade nem esteve com ninguém que tenha viajado. A explicação para o seu estado de saúde continua por encontrar, e as autoridades médicas dizem que a investigação continua. A partir daí, os novos casos começaram a surgir, com um padrão bem definido: todos os novos infetados tiveram contacto com aquela primeira doente.

Dias depois, as novas infeções chegam a uma cidade vizinha. Temendo-se o pior, é decretada quarentena na província de 108 milhões de habitantes. Pelo caminho, e para que a pandemia não avance, tomam-se medidas drásticas: das farmácias desapareceram todos os medicamentos antipiréticos, que diminuem a temperatura do corpo. Não foi açambarcamento. Foi uma decisão das autoridades para que ninguém consiga disfarçar a febre, um dos principais sintomas de quem está infetado.