A aula de português do 3.º ano faz-se ouvir com intensidade numa sala com 16 metros quadrados. A mãe está de computador aberto em cima da mesa de jantar da família. Com a mão esquerda levanta o telemóvel e verifica o Whatsapp. Com a direita clica no rato para abrir mais um email. O pai está na cozinha, em reunião por videoconferência, e o filho mais velho está no quarto, trancado, a estudar. O pai tem a missão de verificar, de quando em vez, se está a trabalhar ou a jogar. A tábua de engomar armada, o ferro e a pilha de roupa acumulada no açafate — mas de plástico — esperam no corredor por melhor hora, talvez no sábado de manhã quando o marido for ao supermercado.

Este podia ser o retrato de uma família portuguesa, trancada num apartamento em tempos de pandemia, mas é apenas um cenário fictício com que facilmente nos identificamos e que serve de ilustração a um estudo que mediu a forma como pais e filhos enfrentaram dois meses de isolamento.

A investigação do BabyLab da Universidade de Coimbra é reveladora: 80% dos pais consideram ter tido “menos tempo para si” no período de confinamento e as mães são ainda mais sacrificadas. No inquérito coordenado pelo psicólogo Eduardo Sá, as respostas dizem que, em mais de 60% dos casos, a distribuição de tarefas não é homogénea. Este desequilíbrio “acentuou-se mais e sobretudo quando a escola pediu que fossem professores auxiliares”.

As mães saíram daqui ainda mais sobrecarregadas e com a consciência de que são multifunções”, destaca o investigador.

Os pais dividiram-se entre os trabalhos domésticos, tarefas escolares, exigências profissionais, e isso refletiu-se nos horários. Para 46,4% dos inquiridos, as tarefas arrancaram às 8h e não às 7h, como era habitual, mas também só terminaram entre uma a duas horas mais tarde, quando o relógio assinalava as 22h/23h em 67,7% dos casos.

Para este estudo foram contabilizados 4.153 inquéritos, dos quais 97,2% foram respondidos por mulheres, entre os dias 22 de abril e 3 de maio, véspera do arranque da primeira fase de desconfinamento. Esta investigação é o tema central de um episódio do Explicador Especial Coronavírus, que pode ouvir aqui.

Quanto sofrem os pais em confinamento?

O ecrã, esse grande amigo

Antes da pandemia, pais, professores e psicólogos, entre outros, estavam envolvidos numa quase cruzada contra o abuso de ecrãs por parte das crianças e adolescentes. As horas passadas à frente de televisões, telemóveis, tablets ou computadores eram suficientes para assustar até o mais distraído dos pais, mas, em tempos de pandemia, o ecrã revelou-se um amigo para ajudar a entreter. 77% dos inquiridos no estudo reconhecem que condescenderam na utilização de dispositivos eletrónicos, que muitas vezes serviram para amenizar conflitos familiares durante o período de confinamento. O coordenador do estudo, também ele um defensor de menos ecrãs e mais corridas, diz que “é perfeitamente compreensível”.

No entanto, salienta Eduardo Sá, “agora é importante que os pais tenham a noção de que vai precisar de acontecer uma espécie de desconfinamento destes vícios de forma”. Aquilo que espera os pais, acrescenta é “serem persuasivos o suficiente para inverterem aquilo que, por razões óbvias, foi uma tábua de salvação para muitos”. E fica o aviso: as crianças muitas vezes funcionam como uma “central sindical em relação a direitos adquiridos”.

Eduardo Sá, coordenador do estudo do BabyLab da Universidade de Coimbra

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

Pais multifunções e uma escola que “despeja” trabalhos

Ser mãe, ser pai, ser professor, educar, fazer de animador sociocultural, limpezas domésticas, a lista de funções concentradas nos pais durante estes dias podia continuar, mas vamos ficar por aqui para evitar acumular mais cansaço.

Com o encerramento dos estabelecimentos de ensino e o arranque do telestudo, as escolas enviaram dezenas de trabalhos para casa, demasiados para 22,8% dos pais ouvidos neste estudo do BabyLab, que consideram que a escola exagerou. No entanto, a maioria (55,4%) classifica a quantidade de trabalhos escolares como “moderados ou adequados”.

Seria de esperar um valor de “protesto” mais elevado, tendo em conta que a tarefa que mais dificuldade trouxe aos pais foi a de “acompanhar os filhos na telescola e nos trabalhos escolares”, com 48, 7% das respostas. Só muito depois surgem as questões de “saber como ocupar  tempo dos filhos” e “gerir conflitos familiares”.

22,8% dos pais consideram que a escola exagerou nos trabalhos

João Pedro Morais/Observador

Cruzando a experiência clínica com os resultados deste estudo, Eduardo Sá afirma que “as escolas estão a acentuar cada vez mais os pedidos de trabalhos de casa e a fazer coisas que os pais consideram que passam do razoável”. O psicólogo explica que são “páginas e páginas de trabalhos de casa, em tempo recorde, o que faz com muitas vezes os filhos não tenham tempo para coisa nenhuma, nem sequer para serem crianças”.

Como se, no fundo, aquilo que a escola não pode assumir tivesse de ser assumido pelos pais, com todos os custos que isso implica”, conclui.

Durante o isolamento, num dia de semana, 77,9% dos pais passaram uma ou mais horas por dia a ajudar os filhos nos trabalhos de casa, 46,4% passaram mais de duas horas por dia a brincar com os filhos. E 40, 1% reconhecem que estiveram mais de duas horas por dia a ver televisão.

A panela de pressão está ao lume

Muitas pessoas trancadas em pouco espaço é pasto para confusão, discussões e conflitos, que, em alguns casos, podem acabar em separação ou divórcio, mas essas contas ainda não foram feitas.

O que se sabe é que os pais dizem ter-se sentido particularmente sós durante este período, sem terem a ajuda dos avós, dos tios ou dos amigos. 54,6% dos inquiridos neste estudo revelam que tiveram menos ou nenhum apoio. Ainda assim, o desempenho foi exemplar numa grande maioria das casas portuguesas.

Mas… e agora?

O psicólogo Eduardo Sá explica que a pressão aumentou e não vai ficar dentro da panela para sempre:

A partir do momento em que comecem a desconfinar a paciência e a poder respirar fundo, [os pais] vão precisar de ter oscilações de humor, ser mais impulsivos, mais birrentos, e vão precisar de ter ali todos os solavancos típicos das pessoas que depois respiram fundo e finalmente põem cá para fora aquilo que conseguiram engolir até não poder mais.”

Eduardo Sá prevê um “aumento da tensão" por causa do confinamento

Sónia Simões

O coordenador deste estudo explica que este período de confinamento trouxe um aumento de tensão inevitável: “Os pais tiveram de responder às solicitações familiares e profissionais, sem direito a folgas, férias ou fins de semana. Os pais tentaram, sobretudo, adequar-se aos filhos e responder às solicitações das empresas”, acrescenta o psicólogo.

Agora, o sol já brilha, o calor aperta, já podemos ir de máscara passear e ver o mar, mas Eduardo Sá alerta que “um desconfinamento social não implica que os pais deixem de estar numa espécie de alarme parental e tudo isto faz com que eles sejam mais exigentes, estejam mais em cima dos filhos”.

Naturalmente, os filhos começam a dar mostras de entrar uma certa greve de zelo em relação às exigências dos pais. Tanta tensão vai desencadear ali circunstâncias de algum fogo de artifício”.

Segundo o estudo, as tarefas que os pais identificam como as que lhes dão mais prazer, antes e depois do isolamento, são brincar e ensinar os filhos. O que menos gostam de fazer: tratar da roupa dos miúdos, com o tudo o que isso implica.