A pandemia de Covid-19 veio agravar a já difícil situação no Médio Oriente, exacerbando tensões e tendências, e tornando muito provável um futuro ainda mais complicado, concordaram esta quinta-feira três especialistas nas questões da região.

Daniel Pinéu, Giulia Daniele e Nuno Lemos Pires participaram num debate online organizado pelo Centro de Estudos Internacionais (CEI) do Iscte e pelo Instituto de Defesa Nacional sobre o tema Médio Oriente em tempos de Covid-19.

“Em larga medida não consigo ver novas dinâmicas, (…) o que estou a ver é o exacerbar de dinâmicas já existentes, particularmente importantes com efeitos em populações diferenciadas, nomeadamente em países fortemente afetados por conflitos armados”, declarou Daniel Pinéu, professor na Universidade de Amesterdão, assinalando que “as populações vulneráveis estão ainda mais vulneráveis” ao vírus e ao contágio.

O especialista em segurança internacional apontou o caso dos campos de refugiados que, devido à guerra na Síria, existem no Líbano, na Jordânia no Egito.

“Têm milhões de refugiados a viverem em condições muito difíceis, que se vão tornar ainda piores no outono/inverno que aí vem”, disse.

O docente referiu ainda o caso do “milhão e pouco de deslocados internos” no Afeganistão, adiantando que “os efeitos da pandemia se estão a fazer sentir desproporcionalmente entre mulheres e crianças”.

Segundo Pinéu, “famílias (…) abaixo do limiar da pobreza que não conseguem tratar das suas crianças”, em muitos casos “estão a casar as suas crianças o mais cedo possível”.

“Não são dinâmicas novas, é o exacerbar de coisas que já existiam”, afirmou.

Giulia Daniele, investigadora do CEI, considerou, por seu turno, que a pandemia veio favorecer Israel na anexação de território palestiniano, que não é uma situação inédita.

“A luta contra a epidemia é a principal razão do nascimento do governo de aliança” entre Benjamin Netanyahu e Benny Gantz, disse.

O novo governo israelita, que tomou posse há pouco mais de uma semana, deve pronunciar-se a partir de 1 de julho sobre a aplicação do plano para resolver o conflito israelo-palestiniano, que o Presidente norte-americano, Donald Trump, apresentou em janeiro.

O plano da administração Trump, rejeitado pelos palestinianos por favorecer o Estado hebreu, prevê a anexação por Israel do vale do Jordão (terras agrícolas que representam 30% da Cisjordânia) e dos colonatos no território palestiniano.

Daniele vê o novo governo israelita não como “um governo de emergência para enfrentar a Covid”, mas como “um governo de anexação”.

A especialista em política do Médio Oriente considerou que “1 de julho pode ser uma das datas mais relevantes, mas também das mais perigosas da história não só da Palestina e Israel, mas também da região”.

Especialista em terrorismo transnacional, o brigadeiro-general Nuno Lemos Pires lamentou o “momento péssimo” do mundo, que “nunca esteve tão longe de soluções multilaterais como está hoje”.

E apontou o aumento da “fome, necessidade, desemprego” devido à epidemia e o facto de a grande organização do multilateralismo, as Nações Unidas, ter “cada vez menos dinheiro” e até capacidade de ação.

Lemos Pires considerou que a “ausência da comunidade internacional, física, económica e de imposição em relação aos atores regionais”, permite que estes assumam uma posição de maior destaque.

Para o especialista em terrorismo transnacional, existe uma “ocupação de espaços”, exemplificando com o “papel crescente do (movimento xiita libanês) Hezbollah” e com os apelos dos grupos terroristas Al-Qaida e Estado Islâmico “a aproveitar a crise”, aumentando os ataques e pressionando a saída das forças internacionais.