Apesar de ter sido lançado em plena época de confinamento, as vendas do iPhone SE em Portugal “estão a correr muito bem”. O dado é avançado ao Observador por Francisco Jerónimo, vice-presidente na empresa de estudos de mercado do setor dos smartphones, a IDC. A razão principal deste sucesso deve-se aos consumidores da marca, que têm “mais confiança em comprar online”. Contudo, de acordo com o analista, o setor dos smartphones, incluindo a Apple, vai continuar a cair “fortemente”.

No final de 2019, a mesma empresa estimava que, neste período, a queda global nas vendas de smartphones ia ser de 10%. Porém, em fevereiro deste ano, a IDC teve de rever o número para 20% já prevendo o impacto da pandemia. “Nunca tínhamos feito uma alteração de previsão [forecast] tão forte”, diz o analista.

Agora, revela que houve uma queda de 20%. Para o segundo trimestre deste ano, Francisco Jerónimo e a IDC esperam quedas ainda mais acentuadas. “A Covid-19 já retirou ao mercado português vendas de 76.700 unidades de smartphones, isto significa uma perda de 192,7 milhões de euros [faturação total de vendas sem IVA]”, diz o analista.

Apple lançou mesmo um iPhone “low-cost”. O novo SE chega às lojas a 24 de abril

No entanto, num cenário de pandemia que mostra tempos incertos, a IDC também registou mudanças menos negativas no setor. A empresa previa, inicialmente, que a Apple ia ter uma queda de 28% nas vendas em Portugal. “Na prática, não vai acontecer”, assume Francisco Jerónimo. Razão? O iPhone SE, que foi lançado a 15 de abril. “A Apple conseguiu com este novo produto atrair clientes que querem atualizar o iPhone” e também os que querem atualizar o atual smartphone. Isto mesmo com um preço em Portugal de cerca de 500 euros.

A Apple conseguiu atacar muito bem o segmento médio alto com este produto [o novo iPhone SE] (…). Em Portugal conseguiu adquirir mais clientes”, diz Francisco Jerónimo.

Agora, a IDC prevê que a Apple consiga alcançar uma quota de mercado de 15%, vendendo “cerca de 60 mil unidades” de equipamentos em Portugal nestes meses. De todas as marcas, a Apple “tem beneficiado porque quando um cliente precisa de atualizar o telefone atualiza”, explica o vice-presidente. “É uma marca que tem conseguido mudar mais das vendas offline para online porque as pessoas confiam”, e isso dá poder à empresa. Ou seja, outras marcas estão mais dependentes da presença física em retalhistas por a maioria dos consumidores portugueses irem às lojas comprar um telemóvel novo, explica. Consequentemente, ficam mais influenciados a outras sugestões dos lojistas.

Em relação ao segundo trimestre de 2019, apesar de o novo iPhone SE poder reduzir o impacto da descida, nem a Apple vai estar imune a quedas nas vendas. Atualmente, a IDC espera que a Apple possa ter uma queda de 22% (e não os já referidos 28%). Não obstante, há muitos fatores que ainda não se podem prever.

Huawei forte em Portugal, mas Samsung continua a ser” inquestionável líder”

Numa comparação rápida entre os dados mais recentes revelados pela IDC, vemos que em Portugal nem tudo é igual ao que acontece lá fora. No mundo, a quotas de mercado são: Samsung como a número um, com 21,2%; a Huawei em segundo, com 17,8% (mesmo com as polémicas com os EUA, “é normal por que têm forte presença na China”, diz Francisco Jerónimo), a Apple em terceiro, com 13,4%; em quarto a Xiaomi com 10,7%; e a Vivo com 9%.

Quotas de mercado em Portugal no primeiro trimestre de 2020 vs último trimestre de 2019

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Samsung: 32.4% (2020); 31,7% (2019)

Huawei (com Honor): 25.8% (2020); 23,7% (2019)

Apple: 13.7% (2020); 16,8% (2019)

TCL (com Alcatel): 10.5% (2020); 8,3% (2019)

Xiaomi: 7.3% (2020); 5,8% (2019)

Outros: 10.3% (2020); 13,7% (2019)

Fonte: IDC

Agora, se olharmos atualmente para o mercado europeu, o cenário é diferente: Samsung com 31,1%; Apple com 26,7%; Huawei com 17,6%; a Xiaomi com 8,5%; e, em quinto, a Oppo 1,6%”. Em Portugal, “a Samsung continua a inquestionável líder [32,4%]” e, além disso, “não se perspetiva que vá mudar”, diz Francisco Jerónimo. Porém, fica a questão: como é que a Huawei conseguiu manter-se como número dois em Portugal, com 25,8%, mesmo com as polémicas em que está envolvida?

A Samsung continua a ganhar com a queda da Huawei [em Portugal]. A Oppo é que tem vindo a ganhar na Europa porque é a escolha natural para quem não quer Samsung. [A Oppo] tem uma marca forte, preços atrativos e forte presença fora da China”, refere Francisco Jerónimo.

A empresa chinesa tem tido problemas de reputação devido às última decisões dos EUA. O governo norte-americano diz que a Huawei está a mando do regime comunista chinês e criou, em maio de 2019, um embargo à empresa que a impede de lançar novos smartphones com a versão completa do sistema operativo mais utilizado, o Android, da Google. Contudo, “pode ser neste trimestre da pandemia [o segundo de 2020] que a Huawei vai sentir uma queda mais acentuada na vendas em Portugal“, diz a IDC.

A maior parte dos retalhista e operadores continuaram a suportar a Huawei, porque a Huawei investe nesses pontos de vendas, e isso é algo que a Apple não faz”, diz Francisco Jerónimo.

Como explica Francisco Jerónimo, “a Huawei continua a vender os modelos do ano passado a um preço atrativo”. Estes são modelos que não foram afetados pelas decisões dos EUA. Contudo, vai continuar a sobreviver à conta disso? Segundo o responsável da IDC, não. Apesar de serem modelos ainda bastante cativantes em comparação com o que tem sido lançado no mercado, outros modelos, como o novo iPhone SE, mostram que os consumidores podem começar a olhar para produtos mais recentes.

E o futuro? Tudo depende de como vamos comprar bens não essenciais

Sem rodeios, Francisco Jerónimo prevê um futuro menos animador para o mercado dos smartphones em Portugal. “Não é como no setor dos computadores, em que subiram as vendas [por causa do teletrabalho], os smartphones as pessoas já têm”, refere. “Muitas empresas vão fechar e muitas pessoas vão ficar desempregadas, aí é que se vai perceber o real impacto da vendas de produtos não essenciais”, explica.

Há muitas empresas que vai abrir as portas agora e vão perceber que vão fazer vendas inferiores ao esperado”

O analista menciona que muitas economias, como a portuguesa, “estão a ser mantidas por ventiladores”. Regimes de apoio às empresas, como o layoff, vão acabar e, aí, vão surgir os despedimentos. A compra de smartphones “é daquelas áreas em que se vai continuar a cortar”, lembra Francisco Jerónimo.

Agora, mesmo para a empresa de análise de mercado, há muitos fatores que não se conseguem prever e podem mudar as regras do jogo. O facto de muita gente ter começado a fazer compras online é um algo que ainda não se consegue analisar, afirma o responsável da IDC. Além disso, ainda não se sabe exatamente como vão as pessoas reagir aos desconfinamentos que começam a ser possíveis. Por isso, para já, a empresa prevê quedas de vendas em todos os trimestres.

“Recuperando a economia e o sentimento de consumo, a economia vai recuperar mais rápido”, diz, em contraponto Francisco Jerónimo. Ou seja, tudo depende de como é que o consumo vai voltar. “As próximas semanas vão ser muito indicativas do que vai acontecer [a longo prazo]”, disse o analista.