Na semana em que regressa o futebol, ainda que sem público, o presidente do Sport Lisboa e Benfica vem avisar que não consegue fazer previsões acima de um mês. “É o dia a dia, sem certezas absolutas”, disse Luís Filipe Vieira numa entrevista à televisão do clube numa reação às consequências da pandemia para o negócio do futebol, nomeadamente para o Benfica. Vieira garante que não está em equação nem o recurso ao layoff nem à redução de salários no clube, mas também avisa que “se não houver competições europeias” o clube terá “um problema gravíssimo”.

Neste momento o Benfica “está preparado para os próximos 5 ou 6 meses”.  “Os planos de hoje… não sabemos se daqui a dez dias paramos o campeonato ou se vamos ter competições europeias”, justifica-se, esclarecendo que a rubrica mais importante para as finanças do clube diz respeito às vendas dos jogadores, sendo logo seguida pela Liga dos Campeões e esta pelos direitos televisivos, os patrocinadores e a bilhética.

“Se porventura tivermos quebras de receitas, temos que ‘ir à dívida’ para continuar”, diz o presidente do clube colocando esta como uma situação limite. “A solução ideal é não haver mais paragens de campeonato. Hoje não podemos planear nada a um mês de distância”, responde, quando questionado sobre a hipótese de recurso a um empréstimo obrigacionista.

Já em termos desportivos, se o campeonato vier a ser interrompido, com a atual época sem ficar concluída, Vieira avisa que “não há campeão” e que quem pode ir à Europa ficará nas mãos do presidente da Federação Portuguesa de Futebol. “E será com os critérios dele”, diz.

Com a pandemia, o clube já perdeu cerca de 25 milhões de euros, revelou Luís Filipe Vieira na mesma entrevista, garantindo, no entanto, que “não está nos planos” baixar salários, nem “vender jogadores ao desbarato. Aliás, sobre o plantel da equipa principal, o presidente do clube campeão nacional assume: “Não estou a ver um jogador ser vendido por preço baixo apenas porque temos de encontrar fonte de receita. A única forma era ‘fazer’ dívida”, repetiu sobre a hipótese em situação limite que não quer colocar para já, até porque ainda nada falhou, apesar de haver projetos congelados no clube.

Já na entrevista à televisão da casa falhou, entretanto, o microfone… do presidente e o direto teve de desviar até ao intervalo para resolver o problema.

“Benfica não precisa de vender jogadores” e Bruno Lage não sai. Até ver

“Há data de hoje, o Benfica não precisa de vender jogadores”, afirmou admitindo ao mesmo tempo que “se houver crise muito profunda por causa da pandemia, se tiverem de ir os anéis vão os anéis, mas os dedos do Benfica vão ficar”. E revela que sem a pandemia, o Benfica tinha acordo fechado para “vender dois jogadores por 100 milhões de euros cada um”. E também diz que “sem este caso, os benfiquistas teriam grande surpresa, chegariam ao dia das eleições com tudo pago”.

Mas não há garantias seguras, porque se na entrevista fecha a porta a saída de jogadores e a vendas ao desbarato, também diz que “as pérolas” que estão no clube “estão preparadas para ganhar mais um campeonato. Daqui a dois ou três meses não sabemos”. E foi com esta mesma técnica de afirmar e logo a seguir travar a afirmação taxativa que Vieira disse que não está com intenções de fazer grandes contratações esta época para a equipa principal.

“O Benfica tem uma equipa formada, não precisa de comprar caixotes. É um jogador para aqui, outro para ali”, disse. E o mesmo para os jogadores da formação, que afirma querer manter e que “o Benfica não está disponível para vender” jogadores como Florentino ou Jota. E que se for para emprestar só “com uma clausula de opção bastante elevada. Mas não sabemos o que vem aí”, remata à cautela.

Mas a intenção, assegura, é que estes jogadores da formação possam ter espaço, sem se “começar logo a pensar que é para emprestar”. E diz mesmo que esses cerca de 15 jogadores “se pudessem juntar numa equipa da primeira divisão, se calhar lutavam pelo título”.

A estratégia é a mesma para Bruno Lage, treinador da equipa principal de futebol, sobre o qual ficou a garantia do presidente de não ter intenção de o substituir no final da época. “Vai continuar, independentemente de ser campeão” e logo acrescentou: “A não ser que tenhamos um caso”, referindo-se a imponderáveis do clube.

E mais uma ponta solta para o futuro, ainda que a breve prazo a remate. Jorge Jesus é um amigo com quem fala com regularidade “é um grande treinado” e embora Bruno Lage sem “neste momento o melho treinador para o Benfica”, Jesus é “um grande profissional” de quem Vieira não diz que “desta água não beberei”: “E se eu estiver cá mais uns anos não sei se voltará ou não”. Mas uma porta mal fechada pelo presidente do clube.

E outra? David Luiz, com quem Vieira diz ter uma “relação de pai para filho”. Garantiu que falou ontem com o jogador que vai renovar dois anos com o Arsenal, sublinhando que “é impensável” o Benfica pagar os 7 milhões por ano que o brasileiro recebe em Inglaterra. “Mas se chegar o dia em que ele se chatear…”. E mais uma, mas desta vez sem nome: há um antigo jogador do Benfica que acaba o contrato com o clube onde está atualmente com 27 anos. “E esse vai voltar”, garante o presidente benfiquista que recusou dizer o nome a Hélder Conduto, que conduziu a entrevista.

“Benfica não depende de Mendes” e “ainda bem” que PJ fez buscas

Na entrevista, criticou por diversas vezes “o populista” pelo que diz do Benfica, sem querer nomear ninguém, mas lá acabou por nomear o destinatário das suas críticas, embora nunca diretamente. Só o nomeou quando foi questionado sobre as eleições do clube previstas para o final de outubro. “Não quero pensar nisso”, começou por dizer para acabar a dizer que um dos eventuais candidatos, Rui Gomes da Silva, “está sempre a dizer mal do Benfica, está a fazer um serviço aos nossos rivais, qualquer dia está no Porto Canal”, provocou.

Foi também confrontado com as comissões pagas pelo clube em cada transferência — 34,2  milhões de euros até abril deste ano — e a hegemonia de Jorge Mendes nos negócios com o clube, Vieira garante que não está dependente do empresário “que tem ganho dinheiro com o Benfica, mas o Benfica também ganhou rios de dinheiro com ele“. Garante que o clube da Luz nunca lhe pagou comissões nos valores pagos por outros clubes e perante suspeitas sobre as movimentações de dinheiro, afirma que “o dinheiro tem um rasto”. Aliás, diz mesmo sobre as buscas feitas pela PJ às instalações do clube: “Fizeram estas buscas, ainda bem que vieram, ao menos assim podem seguir tudo o que quiserem. O Benfica tem um modelo de negócio”, afirma.

Também diz estar de “consciência tranquila” sobre todos os processos judiciais que envolvem o clube. “Acredito muito na justiça e que o Benfica não vai ser chamado por algo que não fez. Já me viraram a vida ao contrário. Sou alguém que incomoda e para alguns era bom não estar à frente do Benfica. Estou de consciência tranquila sobre todos esses processos”. E atira culpa ao Futebol Clube do Porto sobre algumas das denúncias feitas, nomeadamente a do Mala Ciao, que partiu de uma denúncia anónima. De quem? “Os do costume. Do norte”. O Porto? “Claro”. A entrevista foi longa, com Vieira a aproveitar também o tempo de antena do canal do clube, em horário nobre, para desfilar números de contas e títulos — mais ou menos certos, já que a dada altura teve de ser corrigido por baixo o número de taças de Portugal conquistadas pelo clube na sua era — e até teve tempo para provocar o entrevistador com o tempo em que já ia a conversa: “Não pago horas extraordinárias”.