Em 1665, quando a Peste Negra regressou a Londres, provocando a morte de 100 mil pessoas no espaço de um ano, Isaac Newton era um estudante no Trinity College, em Cambridge. Nesse ano, a universidade encerrou como precaução, só reabrindo em 1667. Quando regressou a Cambridge, Newton decidiu dedicar-se ao estudo da doença, através de uma análise atenta do livro De Peste, de Jan Batist van Helmont. Os apontamentos que tirou vão agora a leilão e em duas páginas nunca antes publicadas é possível encontrar as sugestões algo insólitas do cientista para combater a doença, que incluem uma mistura de vomitado de sapo com sapo em pó.

De acordo com a Bonhams, a leiloeira responsável pela venda dos manuscritos, as notas de Newton sobre De Peste são as mais completas que se conhecem do matemático e físico inglês sobre a Peste Negra e têm uma “importância profunda para o corpo de trabalho de Newton”, uma das “grandes mentes científicas do mundo”, e são “profundamente significativas no contexto atual”, marcado pela pandemia do novo coronavírus.

A par dos comentários à obra de químico e físico holandês Jan Batist van Helmont, que vivia em Antuérpia quando a cidade foi invadida pela Peste em 1605, os apontamentos de Isaac Newton que vão agora a leilão incluem sugestões do cientista para curar a Peste. Segundo Newton, “o melhor” era usar “um sapo suspenso pelas patas numa chaminé durante três dias, que vomitou terra com vários insetos para um prato de cera amarela pouco antes de morrer”. O vomitado devia depois ser misturado com “sapo em pó com excreções e sérum transformados em pastilhas e usado na área afetada [onde surgiam os bubões] para afastar o contágio e fazer sair o veneno”.

Na altura, muitas das alegadas curas contra a Peste passavam por tentar atrair a doença para fora do corpo. O documento elaborado por um grupo de médicos para ajudar a combater  a “Peste Grande” de Lisboa de 1569 referia que, “para atrair o veneno”, podiam ser colocados de duas em duas horas sobre os bubões, os inchaços provocados pela doença, uma cebola assada “com a teríaca” (uma mistura de vários ingredientes que se julgava eficaz contra esta e outras doenças) e azeite de açucenas. Se o doente tivesse muitas dores, a cebola devia estar bem assada, “porque quanto mais se assar, mais mitiga a dor, e sempre tem virtude atrativa [para o veneno]”. Em alternativa à cebola, podia usar-se um galo depenado vivo e polvilhado com sal moído.

Água de rosas, cebolas assadas e galos depenados. Como os lisboetas tentaram curar a Peste Negra em 1569

As notas de Newton incluem ainda o relato do caso de um homem que tocou em “papéis pestilentos” e que “sentiu imediatamente uma dor semelhante à picada de uma agulha”. “Desenvolveu uma úlcera pestilenta no dedo indicador e morreu em dois dias.” Por essa razão, “lugares infetados com a peste deviam ser evitados”.

O leilão da Bonhams está a decorrer online até 10 de junho. Estima-se que os manuscritos , que pertencem a um colecionador privado, alcancem entre 71 a 107 mil euros.