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Pecados e castigos divinos. Em 1569, a Peste Negra esvaziou as ruas de Lisboa /premium

Há 450 anos, a “Peste Grande” de Lisboa matou 50 mil pessoas. Em muitas casas, como na de António Rodrigues, da freguesia de Santiago, morreu toda a família. Foi a pior epidemia desde o século XIV.

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Para quem vivia na cidade de Lisboa no início de 1570, o novo ano não parecia prometer nada de bom. Há vários meses que uma epidemia devastava a cidade, obrigando à fuga de muitos e provocando a morte da maioria. As ruas estavam praticamente vazias e a população tinha sido reduzida quase para metade. O que poderia 1570 trazer que 1569 já não tivesse oferecido?

Os primeiros casos começaram a surgir em abril de 1569. Em tudo se assemelhavam à epidemia que tinha assolado a Europa em 1348. Nesse ano, a doença que ficou conhecida por Peste Negra reduziu a população para metade. Na cidade de Florença, o número de habitantes desceu de 100 mil, em 1338, para 50 mil, em 1351, e em Veneza de aproximadamente 110 mil para 70 mil — uma situação que se repetiu um pouco por toda o continente. A peste terá chegado a Portugal numa altura em que já estaria a perder forças, no final de setembro de 1348 (o historiador A. H. de Oliveira Martins, citando o Livro da Noa de Santa Cruz de Coimbra, fala no dia 29), mas isso não a impediu de fazer um número elevado de vítimas, sobretudo na região de Lisboa. Em 1569, quando regressou, não foi muito diferente.

Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram durante a “Peste Grande” de Lisboa de 1569. O número de mortes era tão elevado que, a dada altura, os párocos das diferentes freguesias deixaram de as conseguir registar. O que existe é uma estimativa que tem por base registos contemporâneos e informações posteriores — entre 40 a 50 mil lisboetas terão morrido entre abril de 1569 e julho de 1570, quando o rei regressou aos arredores de Lisboa e as portas da cidade foram reabertas. A maioria eram mulheres adultas. Foi a maior epidemia de peste das três que assolaram Portugal na segunda metade do século XVI (1569-1570, 1579-1580 e 1598-1603), com as suas consequências a fazerem-se sentir nos anos seguintes.

Foi contudo do outro lado da fronteira que a peste começou por aparecer. Entre 1563 e 1568, a doença apareceu em Saragoça, Logronho e Navarra, Bilbau e Burgos, espalhando-se depois por outras zonas a norte da Meseta e para ocidente. Seguiu-se Sevilha, Galiza e, finalmente, Lisboa, onde “os efeitos da sua passagem, após uma ausência já longa, foram catastróficos pelo número de mortes”, apontou Teresa Rodrigues no estudo sobre as crises de mortalidade na cidade, nos séculos XVI e XVII. Segundo frei Luís de Sousa, autor que escreveu no século XVII mas que viveu durante o tempo da peste, dizia-se que a doença tinha sido trazida por um navio de mercadorias oriundo de Veneza. Já Eduardo Freire de Oliveira, citando “os mestres físicos de então”, escreveu no final do século XIX que tinha vindo do Egito. Nunca se conseguiu esclarecer a verdadeira origem da epidemia de 1569.

Quanto à Peste Negra propriamente dita, sabe-se hoje com alguma certeza que teve origem no oriente, na Ásia central, algures entre a Mongólia e o Quirguistão. O local exato é ainda alvo de debate. Estudos mais recentes apontam como ponto de partida para a epidemia mais devastadora na Europa (estima-se que perto de metade da população europeia tenha morrido durante o surto do século XIV) a cidade de Laishevo, na atual Rússia. Foi a esta conclusão que chegaram os investigadores do Max Planck Institute for the Science of Human History em Jena, na Alemanha, que analisaram os restos mortais de 34 vítimas de peste dez países diferentes para reconstituírem a “árvore genética” da doença. Esta proposta não é, contudo, totalmente segura, uma vez que está “necessariamente limitada pela amostra de restos mortais” que é possível analisar, apontou a investigadora Maria Spyrou à Science Alert.

Os principais culpados pela chegada da doença à Europa foram os mongóis. Responsáveis pela “unificação de grande parte da Eurásia no século XIII”, facilitaram “o crescimento de três atividades que continuaram a desempenhar um papel importante na disseminação da doença: o comércio, as viagens e formas de comunicação maiores e mais eficientes”, defendeu John Kelly, autor de The Great Mortality. Da Ásia Central, a Yersina pestis — a bactéria responsável pela Peste Negra, transmitida através da picada da pulga e não pelos ratos como muitas vezes se pensa — espalhou-se pela China e pela Rússia. Em 1346, surgiu no porto de Caffa (atual Feodosia, na Crimeia), onde os mongóis liderados por Jani Beg tentavam conquistar a região dominada pelos genoveses. Foram estes, fugindo da peste nos seus navios, que levaram a doença para a zona mediterrânica e daí para outros portos europeus e para o norte de África.

Uma iluminura da Bíblia de Toggenburg (século XIV). Apesar de há muito associada à peste, a localização dos inchaços parece ser mais consistente com a varicela

Corbis via Getty Images

A destruição que causou foi tanta que lhe chamaram a “Peste Grande”

Há muito que não havia memória na cidade de uma grande epidemia mortal quando, a 28 de dezembro de 1568, o pároco do Lumiar pegou no livro de óbitos para registar a primeira morte por Peste Negra na sua freguesia. Seria a primeira de muitas — de acordo com os dados recolhidos por Teresa Rodrigues, autora de um estudo sobre crises de mortalidade em Lisboa nos séculos XVI e XVII, em 1569, morreram no Lumiar perto de 40 pessoas. O número de registos é, muito provavelmente, inferior ao real.

Apesar de constar dos registos consultados por Delmina Maria Miguéns Rijo, citados no artigo “A Envolvente da Morte no contexto das Crises de Mortalidade em Lisboa (2.ª Metade do Séc. XVI — inícios do Século XVIII)”, publicado em 2017 na História — Revista da FLUP, a data de 28 de dezembro de 1568 é muito anterior à geralmente apontada como início da epidemia de 1569. Está também a grande distância da avançada pela prioresa do Mosteiro do Salvador da Cidade de Lisboa, que Mário da Costa Roque, autor de A “Peste Grande” de 1569 em Lisboa, defende ser a mais provável — no Livro da Fundação do Mosteiro do Salvador da Cidade de Lisboa e de alguns casos dignos que nele aconteceram, Madre Soror Maria Baptista afirma que a doença se começou a espalhar “em abril de 1569” e que “acabou em outubro de 1570”, arrasando de tal forma “esta terra” que não havia “canto na cidade onde se pudesse escapar”. Segundo a prioresa do mosteiro de Alfama, a destruição que causou em “poucos meses” foi tal que “lhe chamaram a ‘Peste Grande’”.

Ainda que as primeiras vítimas da peste tenham sido identificadas em abril, como apontou Madre Soror Maria Batista, ou até antes, terá sido no mês seguinte que se terá começado a suspeitar da sua presença na cidade. Não foi feito nenhum comunicado oficial à população — isso só aconteceu muito depois, em julho –, mas sabe-se que o rei, o jovem D. Sebastião, deixou o Palácio de Xabregas e se instalou no Paço da Alcáçova, no Castelo de S. Jorge, a 27 de maio, provavelmente alertado para o que se passava. O número de vítimas mortais ia aumentando de dia para dia (no final de junho, morriam cerca de 50 pessoas diariamente, de acordo com os dados recolhidos por Teresa Rodrigues), o que levou ao rumor de que andava a peste na cidade.

Madre Soror Maria Baptista afirma que a doença se começou a espalhar “em abril de 1569” e que “acabou em outubro de 1570”, arrasando de tal forma “esta terra” que não havia “canto na cidade onde se pudesse escapar”. Segundo a prioresa do mosteiro de Alfama, a destruição que causou em “poucos meses” foi tal que “lhe chamaram a ‘Peste Grande’”.

A mortes começaram por ser atribuídas ao frio que, naquele ano, se tinha prolongado até mais tarde. Uma junta médica convocada por D. Sebastião, então com 15 anos, provavelmente em meados de junho, não conseguiu chegar a uma conclusão, apontando igualmente o “inverno muito grande” e as “suas humidades” como causa destes “apostemas nos corpos”, ou seja, dos inchaços (ou bubões) que surgiam nas vítimas. Esta opinião não era partilhada pelos médicos mais velhos, “que tinham experiência de outras [epidemias] que viram”. Segundo o padre José Pereira Baião, autor posterior, do século XVIII, estes “afirmavam que era peste e da mais refinada”. Não podiam estar mais certos.

A 21 de junho, o rei partiu para Sintra e instalou-se na Penha Longa com os membros do seu conselho e alguns criados. A rainha D. Catarina de Áustria, viúva de D. João III e sua avó, e a infanta D. Maria, sua tia-avó, que tinham ficado em Xabregas, dirigiram-se primeiro para Vila Franca e, poucos dias depois, para Alenquer. Em Lisboa, o número de vítimas continuava a aumentar. Procurando responder à situação, a 7 de julho, D. Sebastião tomou a primeira de várias medidas de combate à tragédia que se avizinhava: numa carta enviada de Sintra aos “vereadores e procuradores da cidade de Lisboa e procuradores dos mestreres dela”, o rei pediu que se construísse o mais rapidamente possível, às custas da coroa e da cidade, um “templo” para albergar a relíquia de S. Sebastião, protetor contra a peste, para que o santo se visse obrigado “a interceder mais por nós”.

“Há tantos anos que Nosso Senhor fez tamanhas mercês a essa cidade e a estes Reinos por intermédio do bem-aventurado S. Sebastião (…); agora parece que por nossos pecados, e por (…) este pouco conhecimento e agradecimento, Nosso Senhor permite que tenhamos tanta necessidade de nos socorrer a ele, procurando por todas as vidas aplacar sua ira, e atalhar e remediar os pecados”, escreveu o monarca. Durante 40 anos, a peste tinha-se mantido afastada das ruas de Lisboa, e a população acreditava que isso se devia à intervenção de S. Sebastião, cuja relíquia (um osso de um braço) tinha chegado à cidade em 1531. Esta era tão importante que surgiu o boato, lançado no século XVII por frei Nicolau de Santa Maria, de que tinha sido oferecida por Carlos V, rei de Espanha, a D. João III, avó de D. Sebastião, o que, sabe-se hoje, não era verdade.

D. Sebastião em 1562, sete anos antes do início da epidemia de peste em Lisboa. O rei tinha 15 anos quando a doença apareceu na cidade, refugiando-se nos arredores

A 8 de julho, um dia depois do rei ter escrito aos vereadores de Lisboa, a população foi finalmente alertada para a existência de uma epidemia de peste na cidade. O pânico instalou-se e deu origem a estranhos boatos. A epidemia enviada por Deus era apenas o princípio do que ainda estava por vir, acreditavam os lisboetas.

Um castigo divino: a peste e o terramoto que nunca aconteceu

Numa altura em que poucas explicações havia a oferecer, a peste foi atribuída, como já tinha acontecido no século XIV, a causas sobrenaturais. De uma maneira geral, acreditava-se que a “Peste Grande” era um castigo de Deus pelos pecados dos homens (Madre Soror Maria Batista começa por dizer isso mesmo no seu livro). Segundo Pero Roiz Soares autor de Memorial, principal fonte dos acontecimentos trágicos de 1569, dizia-se que o castigo divino se devia ao facto de se ter pregado Santo Agostinho no dia de Nossa Senhora de Agosto, aos “impostos lançados sobre o povo, de que os grandes ficavam isentos”, a “faltas graves de justiça” ou a “sensualidades que se praticavam (…) desaforadamente”. Os ares corruptos, os maus cheiros ou o movimento dos planetas (os cometas eram um mau presságio) eram igualmente causas prováveis, tal como já tinham sido no século XIV, quando a Peste Negra dizimou cerca de metade da população europeia. Na altura, a lista de culpados incluiu desconhecidos que apareciam nas aldeias, judeus (perseguidos em massa e queimados vivos nalgumas regiões), poços envenenados por inimigos e sapatos bicudos, então muito na moda.

A epidemia seria apenas um dos castigos que Deus tinha preparado para os lisboetas. Nas primeiras semanas de julho, começou a circular o rumor de que, no dia 13 desse mês, uma quarta-feira, haveria um tremor de terra tão forte que o Monte do Castelo se juntaria ao do Bairro Alto e este ao de Almada, do outro lado do rio. O Tejo transbordaria das margens e engoliria de uma só vez toda a cidade. Apavorados com a previsão, os habitantes de Lisboa abandonaram as suas casas à pressa. Ocuparam as terras em redor da cidade, acampando nos campos ao pé das oliveiras. Lisboa ficou deserta, e nem na Rua Nova dos Ferros (outro nome dado à Rua Nova dos Mercadores), o centro comercial da cidade, era possível encontrar alguém — as lojas estavam praticamente todas fechadas e até as mulas e os cavalos tinham desaparecido. Na véspera do suposto terramoto, A confusão era tal que “não havia mais na cidade que gritos, desmaios e andar a gente sem sizo”, descreveu o jesuíta Diogo de Carvalho numa carta enviada a 12 de julho ao Colégio de Coimbra. “Não sei encarecer a Vossa Reverência o que [se] passa”, declarou.

Poucos dias depois, não se verificando o tremor de terra que tinha sido anunciado, os que sobreviveram (como não tinham levado provisões suficientes, muitos morreram de fome e de sede) regressaram à cidade, onde a peste se abateu ainda com mais força. De acordo com Pero Roiz Soares, em julho e agosto, “não houve dia de menos de 500, 600 e 700 mortos”. Apenas os mais abastados tinham possibilidades de se manterem afastados.

Desesperado com a fome, um condenado que cumpria pena na prisão do Limoeiro decidiu fazer-se de morto depois de ver passar na rua uma carroça transportando um caixão com o cadáver de uma mulher. Foi logo amortalhado e transportado para o cemitério improvisado de Nossa Senhora da Graça.

D. Sebastião voltou a escrever aos vereadores e procuradores de Lisboa a 12 de julho. Nessa data, o monarca, que se encontrava ainda em Sintra, nomeou uma espécie de junta composta por três governadores e membros do seu conselho — Diogo Lopes de Sousa, governador da Casa do Civel, João Mascarenhas, “capitão-mor da gente” mandado “armar pela defesa da dita cidade”, e Martinho Pereira, vereador da fazenda do rei — que deviam governar a cidade em seu nome, tratar da doença e do “provimento de mantimentos”. Para tal, concedeu-lhes poderes ilimitados. No dia seguinte, partiu para Torres Vedras, instalando-se depois em Óbidos, onde o ar era mais puro.

A situação em Lisboa era grave. Os alimentos começavam a escassear e nem por preços altos se encontravam nas ruas da cidade. Desesperado com a fome, um condenado que cumpria pena na prisão do Limoeiro decidiu fazer-se de morto depois de ver passar na rua uma carroça transportando um caixão com o cadáver de uma mulher. Foi logo amortalhado e transportado juntamente com a mulher para o cemitério improvisado de Nossa Senhora da Graça. Quando ali chegou, e antes que fosse atirado para uma vala, pediu que o soltassem, para espanto e horror dos os homens que o tinham levado.

Sabendo do que se passava, ainda antes de sair de Sintra, D. Sebastião dirigiu uma carta aos vereadores do Porto pedindo-lhes que alguns dos navios ali ancorados seguissem para Lisboa “carregados de trigo, cevada, centeio e carne” para alimentarem a cidade. O rei pediu também o envio de “muitas galinhas e muitos frangos e muitos ovos”. Uma outra missiva foi enviada para Sevilha, pedindo o auxílio dos médicos Tomás Álvares e Garcia de Salzedo Coronel, que se tinham destacado no combate à epidemia que tinha assolado a localidade nos últimos dois anos. Paralelamente, os governadores de Lisboa escreveram a D. Catarina de Áustria pedindo-lhe algum dinheiro que ajudasse a remediar a situação. A rainha viúva, que serviu de regente até D. Sebastião ser maior de idade, acedeu ao pedido numa carta datada de 20 de julho de 1569 e enviada de Vila Franca. Ofereceu, a título de empréstimo, mil cruzados, “dos quais faço graça e mercê a essa cidade, e folgara que a minha fazenda estivera em termos que pudera acudir com mais”, admitiu D. Catarina. Em ocasiões de peste, a cidade via-se obrigada a recorrer ao crédito ou a impostos para comprar o que era necessário.

D. Catarina de Áustria, avó de D. Sebastião, emprestou dinheiro à cidade de Lisboa durante o tempo da peste. "Folgara que a minha fazenda estivera em termos que pudera acudir com mais", disse a rainha

Nas ruas vazias de Lisboa, a erva crescia alta

Os dois médicos sevilhanos chegaram a Lisboa a 2 de agosto e encontraram a cidade praticamente deserta. Na Rua Nova dos Ferros, a falta de movimento tinha feito crescer a erva a grande altura. No Memorial, Pero Roiz Soares conta que, no verão de 1569, a principal artéria comercial da localidade era usada apenas por algumas crianças, que costumavam andar por ali a jogar à bola. As crianças foram as menos afetadas pela peste, que vitimou sobretudo adultos e principalmente mulheres, como mostram os registos das diferentes paróquias lisboetas. Estes nem sempre estão completos — os mortos eram tantos que os párocos deixaram de conseguir acompanhá-los. Na paróquia de Santo Estêvão, António Mendez, que substitui o cura António de Souza, que morreu de peste, tentou mais tarde registar “por lembrança os defuntos” que “começaram a falecer aos 11 dias do mês julho” de 1569. Nunca chegou a terminar a tarefa, apontando apenas 15 óbitos até aos primeiros dias de agosto.

Por esta altura, o número de doentes chegava aos dois mil e apenas com grande dificuldade se conseguia encontrar uma pessoa saudável na cidade. Destes, segundo Teresa Rodrigues, apenas três a quatro mil eram assistidos na Casa da Saúde para doentes com peste, estabelecida numa quinta fora da cidade, ou nas várias enfermarias montadas nos bairros. Para estes, as probabilidades de sobrevivência eram de cerca de 50%. Os restantes eram deixados à sua sorte. Quase todos morriam. António Rodrigues, da antiga freguesia de Santiago, hoje de Santa Maria Maior, perdeu, no espaço de duas semanas, a mulher e as duas filhas. Sozinho na casa que com elas partilhava, acabou também por ele morrer, no final do mês de agosto. Com João Lourenço, que vivia no Castelo, não foi muito diferente. O homem perdeu toda a família — a mãe, a mulher, um filho, um escravo e ele próprio morreram em apenas quatro dias deixando uma casa vazia. Duarte Cardoso, da freguesia de Santiago, perdeu os três filhos a 28 de agosto.

Histórias como estas eram frequentes. No seu estudo sobre crises de mortalidade em Lisboa nos séculos XVI e XVII, publicado em 1990 pela Livros Horizonte, Teresa Rodrigues concluiu que havia cerca de 75% de hipóteses de se morrer de peste num prazo de nove dias após o primeiro caso registado numa casa. Em 43,8% das habitações atingidas pela epidemia, morriam duas a quatro doentes. A probabilidade de morrer uma segunda pessoa no mesmo dia era de 20%. Muitas vezes a morte da mãe era imediatamente procedida pela dos filhos menores. Estas estatísticas permitem concluir, como apontou a professora de Universidade Nova de Lisboa, que era relativamente comum a peste ceifar famílias inteiras.

António Rodrigues, da antiga freguesia de Santiago, hoje de Santa Maria Maior, perdeu, no espaço de duas semanas, a mulher e as duas filhas. Sozinho na casa que com elas partilhava, acabou também por ele morrer, no final do mês de agosto. Com João Lourenço, que vivia no Castelo, não foi muito diferente.

Muitas vezes só se sabia da existência dos cadáveres quando o cheiro começava a atravessar as paredes. Quando eram descobertos, já os ratos e doninhas se tinham alimentado deles. Os cães e os gatos também costumavam encontrar uma forma de entrar nas habitações para comerem os emplastros de pombos e frangos que aplicados nos bubões. As pulgas que apanhavam eram depois transmitidas a indivíduos saudáveis, num círculo vicioso de transmissão a que poucos conseguiam escapar. Considerados um perigo para a saúde pública, os animais vadios foram executados por ordem dos médicos da cidade, que ofereciam um determinado valor aos matadores em troca das suas cabeças.

No final de agosto de 1569, morriam em Lisboa entre 500 a 600 pessoas por dia. Em julho, eram entre 300 a 400. Os assaltos violentos eram frequentes, assim como os arrombamentos de casas vazias. À medida que a situação se ia complicando, a par dos espaços para receber doentes, começaram a escassear os locais de enterramento. Esgotados as igrejas e respetivos adros, as vítimas começaram a ser enterradas em valas coletivas de 50 a 60 indivíduos abertas nas praças (o Campo da Forca, mais tarde de Santa Bárbara, foi utilizado para esse fim), ruas, lojas e, por fim, nas praias. Foi isto que aconteceu na paróquia de Santo Estêvão, em Alfama, onde as vítimas começaram por ser sepultadas no interior da igreja e depois em valas abertas no adro e na capela de Nossa Senhora do Paraíso, que ficava fora das muralhas.

No Lumiar, que então ficava nos limites da cidade, aproveitaram-se todos os cantos disponíveis na Igreja de Nossa Senhora da Luz, desde o púlpito à pia batismal, passando pela pia de água benta e pelas portas e grades. As capelas de Santa Brígida, S. Valentim e o adro da Igreja Paroquial de S. João Batista também serviram para sepultar os pestosos. No adro da Igreja de Santiago, foram enterrados 20 indivíduos. As restantes vítimas daquela freguesia foram sepultadas nas igrejas vizinhas de S. Bartolomeu e S. Brás, em quintais e no cemitério da Graça. No pico da epidemia, qualquer lugar servia: Simão, escravo de Fernando Vale, foi enterrado a 19 de agosto num quintal da freguesia de Santiago.

O cenário catastrófico é muito semelhante ao descrito pelos cronistas séculos antes, quando a Peste Negra devastou a Europa, entre 1346 e 1353. Um texto escrito no pico da epidemia do século XIV por um florentino, parece uma descrição exata do que se passou em Lisboa em 1569: “Todos os cidadãos pouco fizeram além de carregar corpos para enterrar (…). Cavaram valas fundas debaixo das pias de água benta em todas as igrejas, e aqueles que eram pobres e que morriam durante a noite eram amortalhados muito depressa e atirados lá para dentro. De manhã, quando um grande número de corpos eram encontrados na vala, pegavam nalguma terra e atiravam-na para cima deles; depois, outros eram colocados por cima com outra camada de terra, tal como se faz lasanha com camadas de massa e queijo”. Em Florença, 60% da população desapareceu em apenas alguns meses.

Esgotados as igrejas e respetivos adros, as vítimas começaram a ser enterradas em valas coletivas de 50 a 60 indivíduos abertas nas praças (o Campo da Forca, mais tarde de Santa Bárbara, foi utilizado para esse fim), ruas, lojas e, por fim, nas praias.

Enterrar os mortos tornou-se, em Lisboa, um trabalho a tempo inteiro e faltavam homens para o fazerem. Era costume os cadáveres, envoltos em lençóis, acumularem-se durante vários dias em certos pontos da cidade. Pero Roiz Soares comparou-os às trouxas de roupa branca que as lavadeiras costumavam carregar até à ribeira da Alcântara em tempos melhores do que aqueles. A escassez de trabalhadores, muitos dos quais tinham também sucumbido à peste, obrigou o governo da cidade a recorrer, num ato desesperado, aos condenados que cumpriam as penas mais pesadas — se ajudassem nos enterramentos, recebiam em troca a vida ou a liberdade, dependendo das sentenças. Outros colaboravam na separação das pessoas saudáveis das que estavam doentes, queimando tudo o que pertencia aos pestosos para evitar o contágio.

Um assento municipal datado de abril de 1572, dois anos depois de a peste ter sido dada como extinta em Lisboa, descreve a cidade da seguinte forma: “Esta cidade, a mais insigne que havia no mundo, de que todo bem e saúde deste Reino pendia, se viu assolada e cheia de mortos, que caiu em bandos, soou desamparada de todos; tudo nela era fogo e mortandade, choros e gemidos”. A situação era tão grave que “os antigos da dita cidade e físicos, assim naturais como estrangeiros, homens de muita autoridade, a houveram por perdida e estragada”.

Combater a “enfermidade”: fogueiras nas ruas e água de rosas dentro de casa. Queijo? Só o do Alentejo

Assim que chegaram a Lisboa, Tomás Álvares e Garcia de Salzedo Coronel encontraram-se com o governador, D. Martinho Pereira, e com o provedor-mor da Saúde, Dr. António Dias, para decidir que medidas tomar face à epidemia que, dia após dia, ceifava as vidas dos habitantes da cidade. Ficou desde logo acordado o programa sanitário que seria levado a cabo nos meses seguintes, assim como as medidas terapêuticas a serem tomadas. Tudo devia ser reunido num só documento, dirigido aos profissionais da saúde e aos lisboetas de uma forma geral. Para que toda a gente o entendesse, seria traduzido da língua nativa dos médicos, o castelhano, para o português. Dez dias depois, foi concluído e lido para os especialistas portugueses com maior experiência — Pedro de Palácios, Próspero Dias, Francisco Botelho e Rodrigo Ribeiro — para que dessem o seu parecer e fizessem sugestões. Feitas as correções e acrescentada a dedicatória ao rei, o manuscrito foi enviado para as oficinas de Francisco Correia, “impressor de Sua Alteza”. Ficou pronto a 6 de setembro. Intitulava-se Recompilação das cousas que convém guardar-se no modo de preservar a cidade de Lisboa e os sãos, e curar os que estiverem enfermos da peste — um grande título para um grande problema.

Peste medieval: a segunda maior catástrofe na história da humanidade

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Como em todas as grandes catástrofes medievais, não se sabe ao certo quantos europeus morreram durante a epidemia de Peste Negra do século XIV. A percentagem global apontada é geralmente de 33%, embora alguns historiadores tenham sugerido valores mais elevados (um investigador chegou a falar em 60%).

Isto significa que, entre 1347, quando a doença chegou à Sicília, e 1352, quando surgiu em Moscovo, morreram 25 milhões pessoas, de um total de cerca de 75 milhões de habitantes. Em certas regiões, nomeadamente nalgumas cidades da península itálica, metade da população morreu vítima da epidemia.

O número de vítimas é tão elevado que o geógrafo canadiano Harold D. Foster declarou que a epidemia de 1346 a 1353 a segunda maior catástrofe na história registada da humanidade. Na opinião de Foster, apenas a Segunda Guerra Mundial foi capaz de provocar mais mortes, destruição física e sofrimento.

Na sua essência, o documento reunia um conjunto de normas e sugestões que deviam ser seguidas à risca para evitar a propagação da doença. Uma questão importante prendia-se com a qualidade do ar. Esta era apontada como uma das causas da Peste Negra desde o século XIV: “O ar corrupto é a causa dele [deste mal], a sua retificação será o remédio”, apontaram os sevilhanos Tomás Álvares e Garcia Salzedo na Recompilação, sugerindo que, para combater a humidade, a “causa potentíssima desta enfermidade”, se fizessem fogueiras nas ruas de manhã e de noite. Nestas deviam ser usadas madeiras perfumadas, como as de cedro, cipreste, zimbro ou alecrim.

O interior das casas devia ser igualmente perfumado, através de fogueiras (que podiam ser feitas no inverno a qualquer hora do dia e no verão de manhã e à noite) ou do uso de rosas, benjoim (resina balsâmica do benjoeiro) ou outras substâncias aromáticas, laranjas e limões. Para evitar os maus odores durante o dia, podia também recorrer-se a saquinhos aromáticos, para serem cheirados ou pendurados ao pescoço. As divisões deviam ser lavadas com água ou água de rosas e vinagre, em partes iguais. As portas e as janelas só deviam ser abertas de dia, porque o sol era considerado benéfico.

A higiene, pessoal e não só, raramente fazia parte da rotina de quem morava em Lisboa em 1569, mas os médicos sevilhanos consideravam-na fundamental no combate à peste. A limpeza das ruas e pessoal era vista como importante, e os especialistas recomendavam que se tivesse especial cuidado com as roupas, que deviam ser alegres e cheirosas. As pregas estavam fora de questão, e o uso de pedras preciosas, como esmeraldas e jacintos, junto ao corpo era aconselhado mas apenas acessível aos mais abastados.

Em cima: a Igreja de Santo Estêvão, em Alfama, foi um dos templos que serviu de local de enterramento. Em baixo: a Capela de Nossa Senhora da Saúde e o interior da Igreja de S. Domingos

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

A alimentação devia ser feita à base de alimentos secos, evitando-se gordura, laticínios (à exceção de queijo velho, “do muito bom do Alentejo”) e doces. O vinho branco era preferível ao tinto e a água dos poços era desaconselhada, devendo optar-se por uma fonte conhecida ou por um rio. Caso não fosse possível, devia ferver-se a água com uma substância purificadora, como a canela, a erva doce ou o cravinho, no inverno, e as azedas, as suas sementes ou o vinagre, no verão. Os “médicos do Sereníssimo Rei de Portugal, Dom Sebastião Primeiro”, sugeriam também que, “na retificação da água ou vinho”, se usasse “uma lâmina ou barra de ouro ardendo” — mais uma opção apenas disponível para quem tinha dinheiro.

A Recompilação declarava que o contacto entre habitantes devia ser evitado a todo o custo. Não se deviam visitar os doentes, as casas onde tinha sido identificados três ou mais casos de peste deviam ser esvaziadas e os bailes e danças foram proibidos. O exercício físico devia ser feito apenas moderadamente porque, além de aquecer “os humores” — que, segundo a medicina antiga, eram a causa de muitos problemas de saúde — , fazia com que as pessoas cheirassem mal e isso só contribuía para a disseminação da doença. A ordem não impediu, no entanto, a realização de oito procissões entre 14 de agosto e 8 de novembro. Uma das maiores — a Procissão da Cidade — aconteceu a 18 de setembro e, entre as muitas relíquias que saíram à rua, contava-se o braço de S. Sebastião.

Se apesar de toda estas precauções a doença se instalasse, Tomás Álvares e Garcia Salzedo indicavam que se começasse desde logo a realizar sangrias (que, em moderação, também podiam evitar o contágio) nos lugares dos inchaços para ajudar a “tirar o veneno”, “grosseiro e sanguíneo”. Mas só enquanto o doente tivesse forças porque, caso contrário, a morte seria mais rápida. Os purgantes, de rosas, violetas em conserva ou polpa de tamarindos, também era recomendados contra a Peste Negra, assim como o uso de sanguessugas. Em qualquer dos tratamentos, o objetivo era essencialmente extrair o mal que existia no corpo dos doentes. Sobre os bubões, podiam ser colocados, de duas em duas horas, “para atrair o veneno”, uma cebola assada “com a teríaca”, uma mistura de vários ingredientes que se julgava eficaz contra esta e outras doenças, e azeite de açucenas. Se o doente sentisse muitas dores, a cebola devia estar bem assada, “porque quanto mais se assar, mais mitiga a dor, e sempre tem virtude atrativa [para o veneno]”. Em alternativa à cebola, podia usar-se um galo depenado vivo e polvilhado com sal moído.

Sobre os bubões, podiam ser colocados, de duas em duas horas, “para atrair o veneno”, uma cebola assada “com a teríaca”, uma mistura de vários ingredientes que se julgava eficaz contra esta e outras doenças, e azeite de açucenas. Em alternativa à cebola, podia usar-se um galo depenado vivo e polvilhado com sal moído.

Para tratar dos doentes de forma mais eficaz, os médicos sevilhanos propuseram, segundo as informações recolhidas por Mário da Costa Roque, a construção de “dois grandes hospitais, um em cada extremo da cidade”. Um foi estabelecido numa quinta e outro numa praia. Este último tinha espaço para receber cerca de 600 pessoas. Costa Roque refere que foi ainda erguido um terceiro edifício para receber os órfãos, muitos deles com idades compreendidas entre um e seis anos. O corpo médico da cidade era na altura composto por 60 médicos e 60 cirurgiões, que eram ajudados pelas ordens religiosas. Frades e freiras prestavam auxílio espiritual aos moribundos, mas também desempenhavam muitas vezes tarefas médicas numa altura em que todas as mãos eram poucas.

A descrição da doença que pode ser encontrada na Recompilação corresponde à peste bubónica, a mais comum das três variantes conhecidas da Peste Negra (nome que não tem tanto a ver com a doença propriamente dita, mas sim com o que se pensa ter sido um erro histórico). Nesta, a bactéria instala-se nos gânglios linfáticos mais próximos do local da picada feita pela pulga, provocando o seu inchaço e a formação de bubões (daí o nome pelo qual é conhecida), “porque as bactérias começam a reproduzir-se no interior”, explicou ao Observador Jaime Nina, médico no Hospital Egas Moniz e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, por altura da publicação de um artigo, em novembro de 2019, que explica o que é e como se desenvolve a doença. O período de incubação da peste bubónica é de seis a 12 dias, e os sintomas são diminuição ou perda de força física, dores, náuseas, vómitos e vertigens. Sem tratamento eficiente, os pestosos morriam ao fim de cinco a dez dias. A taxa de mortalidade é de cerca de 60%.

Quando as bactérias deixam de ter espaço, passam “da corrente linfática para a corrente sanguínea” e começam “a circular pelo organismo inteiro”. A esta variante da doença chama-se septicémica e, embora não seja referida na Recompilação, é dado a entender no Memorial de Pero Roiz Soares que também afetava os moradores de Lisboa, juntamente com a peste pneumónica, a mais preocupante de todas (sem tratamento adequado, a taxa de mortalidade é de 95% a 100%). Ao contrário das duas anteriores, esta é contagiosa. “Quando alguém tem peste pneumónica já pode passar a bactéria para outras pessoas através dos espirros e da tosse, que é uma forma de transmissão muito fácil e rápida”, justificou Jaime Nina. O período de incubação é de um a dois dias e os doentes costumavam morrer passado o mesmo período de tempo. Em 1569, praticamente ninguém sobrevivia.

Porque é que a Peste Negra se chama Peste Negra?

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Tem sido sugerido que o termo Peste Negra teve origem nas desfigurações provocadas pela peste septicémica, que pode tornar as extremidades do corpo negras e duras como o carvão. Porém, e tendo em conta que esta variante de peste não é tão comum, o mais provável é que o nome pela qual a Yersina pestis ficou conhecia se deveu a um erro histórico.

Em 1631, um historiador holandês chamado Johannes Isaacus Pontanus afirmou que Atra mors, expressão latina usada por Séneca para descrever uma epidemia em Roma e que pode ser traduzida como “morte negra” ou “morte terrível”, era popular no século XIV, o que não é verdade. A peste que dizimou a Europa naquele século era geralmente apelidada, nos diferentes países e regiões, de “Grande Morte” ou “Grande Morte”, como é fácil de concluir consultando a documentação da altura.

Isso não impediu, no entanto, que o termo se tornasse popular — os suecos começaram a usá-la por volta de 1555 e os dinamarqueses adotaram-na 15 anos depois; no século XVIII, tinha-se espalhado como a própria doença pelo resto da Europa. John Kelly, autor de The Great Mortality. An intimate history of Black Death, acredita que pode ter sido uma má interpretação histórica como a de Pontanus que levou à popularização do termo, hoje recorrentemente usado para referir a epidemia.

Com o fim da epidemia, Nossa Senhora da Saúde saiu à rua. A procissão é a mais antiga de Lisboa

A Peste Negra começou a declinar em setembro. Em outubro e novembro, o número de mortes registadas foi já muito inferior. Pelo Natal, Lisboa estava praticamente livre da epidemia, mas só meses depois é que foi dada como extinta — as portas da cidade permaneceram fechadas durante os meses seguintes. Só eram abertas quando estritamente necessário e sob a apertada vigilância dos guardas que deviam impedir a entrada de novos doentes.

Quem tinha conseguido abandonar a cidade começou a regressar em março de 1570. Primeiro os pobres, depois os ricos. Em abril, o número de habitantes era já muito superior ao de finais de 1569 e marcou-se por isso, para o dia 20, a primeira quinta-feira depois da Páscoa, uma procissão em honra de Nossa Senhora da Saúde. Esta saiu da Sé de manhã. Atravessando as ruas decoradas com velas e candeias acesas que os lisboetas tinham colocado nas janelas, chegou à Igreja de S. Domingos, no Rossio, pelas 14h. Esta tradição, inaugurada em 1570 por iniciativa dos artilheiros da cidade com a promessa de se repetir anualmente, permanece até hoje. Todos os anos, a imagem de Nossa Senhora da Saúde sai da capela com o mesmo nome, localizada no Largo do Martim Moniz (antigamente estava guardada no Colégio dos Meninos Órfãos, a sede da Irmandade de Nossa Senhora da Saúde, fundada em 1570), e percorre as ruas da cidade tal como em 1570. É a mais antiga procissão religiosa de Lisboa.

A igreja de S. Sebastião não teve a mesma longevidade. Apesar da urgência mostrada pelo rei português na carta de 7 de julho de 1569, a primeira pedra só foi colocada em abril de 1571, quase um anos depois do apelo de D. Sebastião aos vereadores de Lisboa. O projeto inicial ditava que o templo fosse construído na Mouraria, onde existia uma ermida dedicada ao santo, mas optou-se depois pelo Terreiro do Paço. Ninguém sabe porquê, da mesma forma que ninguém sabe porque é que a construção acabou por ser abandonada e os seus materiais reaproveitados para outra obra, anos mais tarde.

Segundo as informações reunidas por Walter Rossa em Fomos condenados à cidade: uma década de estudos sobre património urbanístico, a alteração do local de construção aconteceu cerca de um ano depois da carta enviada por D. Sebastião aos “vereadores e procuradores da cidade de Lisboa”. A primeira pedra da obra, que seria projetada pelo arquiteto Afonso Álvares, foi colocada a 19 de abril de 1571 na frente ribeirinha, e “os caboucos e o embasamento foram erguidos rapidamente, mas o resto do processo foi penoso”. Estes ainda lá estavam em 1575, data em que Simon de Miranda executou uma vista de Lisboa. E assim ficaram até que, em 1582, Filipe II de Espanha mandou que se usassem os materiais da capela na construção do atual Mosteiro de São Vicente de Fora. De acordo com as crónicas, durante a visita que realizou a Lisboa no verão de 1581, depois de ter sido coroado rei, Filipe II foi alertado pelos cónegos de São Vicente, onde se encontrava a relíquia de S. Sebastião, para o estado de degradação do mosteiro. Foi então iniciada uma profunda reforma, que transformou o espaço naquilo que é hoje.

O esquecimento em que caiu a igreja em honra de S. Sebastião parece, no entanto, ser anterior a 1582 — em 1569, Pero Roiz Soares apontou o incumprimento da promessa ao santo como uma das causas prováveis para a devastação provocada pela peste. Segundo Soares, ter-se-ia juntado “muito dinheiro com o fim de honrar [S. Sebastião] com templo próprio”, gastando-se o montante “com outros fins esse dinheiro”. Irado com a situação, S. Sebastião teria lançado um “castigo” sobre as gentes de Lisboa.

Um manuscrito do século XVI que mostra as vítimas da peste na cidade de Perúgia, na península itálica

De Agostini via Getty Images

Quantas pessoas morreram em Lisboa durante a “Peste Grande”?

A 22 de maio de 1570, o rei anunciou aos governadores de Lisboa que ia sair de Salvaterra de Magos rumo à cidade. Chegou de noite e instalou-se no Mosteiro dos Jerónimos. No final dessa semana, voltou a partir, rumo a Sintra. D. Catarina e a infanta D. Maria regressaram a 16 de junho — a primeira instalou-se em Xabregas e a segunda num edifício junto de Santa Apolónia. A 28 de julho, sem a presença de D. Sebastião, as portas da cidade foram reabertas, oficializando-se o fim da “Peste Grande” de Lisboa. A doença regressaria dez anos depois.

É difícil dizer ao certo quantas pessoas morreram durante a “Peste Grande” de Lisboa. O número mais consensual, ainda que especulativo, é de cerca de 50 mil vítimas. Este tem por base relatos da época, nomeadamente as pregações feitas na Igreja de S. Domingos. Nestas, citaram-se homens que afirmaram terem enterrado mais de 44 mil pessoas, sem contar com as 1.400 que, segundo os dados recolhidos por Teresa Rodrigues, terão morrido na Casa da Saúde. Houve, no entanto, outros autores a apontarem valores superiores, considerados exorbitantes por Eduardo Freire de Oliveira e arbitrários por Mário da Costa Roque. Frei Cláudio da Conceição, autor do século XIX, diz no seu Gabinete Histórico que morreram mais 80 mil lisboetas só em junho de 1569, “experimentando-se a maior força do contágio nos meses de julho, agosto e setembro; e neles houve dias que caíam em Lisboa mortas 500 a 600 pessoas, não sendo ainda a povoação tão populosa como hoje”.

Em Elementos para a História do Município de Lisboa, Freire de Oliveira explica, citando o cónego da Sé de Évora, “que no ano de 1560 a população de Lisboa era computada em 30 mil vizinhos, posto que a não julgasse superior a 17 mil, o que regula aproximadamente por 85 mil almas”. Assim, na opinião do arquivista da Câmara Municipal de Lisboa, não era “crível que em tão curto prazo de tempo a população tivesse aumentado consideravelmente”, admitindo, porém, que “tudo pode ser”, “até mesmo que” frei Cláudio e o cónego Gaspar Barreiros “se enganassem”. “Todavia, não resta duvida que foi a peste mais devastadora e assombrosa que invadiu Portugal nos sete últimos séculos da era de Cristo”, afirmou o autor de Elementos para a História do Município de Lisboa. Segundo Teresa Rodrigues, “a subida dos níveis de mortalidade em relação à média observada nos anos enquadrantes ronda os 1.600 a 2.000%”.

Relativamente às principais vítimas da peste, a mesma autora afirma, concordando com “as alusões feitas pelos próprios contemporâneos”, que “as principais vítimas da peste teriam sido os adultos, embora mais mulheres que homens, seguidos dos jovens (cerca de 34% do total), sendo aí o sexo mais atingido o masculino (devido ao número de aprendizes, criados e escravos). É possível que a representação de cada grupo etário nos vários espaços paroquiais dependa da composição social dos mesmos, bem como de critérios de registo. No entanto, vários testemunhos parecem indicar o carácter relativamente benévolo da peste em relação às camadas mais jovens. De facto, os óbitos infantis que chegaram até nós apenas comprovam o caráter extremamente contagioso do surto, sendo certo que quase todos ocorrem no próprio dia da morte da mãe ou de irmãos mais velhos”.

Imagem de capa: uma das xilografias de Hans Lützelburger, artista alemão do século XVI, dedicadas ao tema da “Danse Macabre”. (Fonte: Heritage Arts/Heritage Images via Getty Images)

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