A plataforma de videochamadas Zoom desativou as contas de vários utilizadores que utilizaram o software para fazer uma reunião para relembrar o massacre na Praça de Tiananmen. Como avança o Financial Times, as contas canceladas pela empresa criada e liderada pelo sino-americano Eric S. Yuan estavam ligadas a estudantes que participavam numa reunião criada por Wang Dan, um dos líderes dos estudante pró-democracia que estavam no local a 4 de junho de 1989.

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O Zoom afirma que cancelou estas contas por a reunião estar a violar “regras locais”, como relata o South China Morning Post. A conferência digital foi criada por Wang Dan, que está radicado nos EUA. Contudo, teve participantes de vários países, incluindo da China. De acordo com o declarações do Zoom ao mesmo jornal, “quando uma reunião é realizada em diferentes países, os participantes desses países são obrigados a cumprir suas respetivas leis locais”.

Wang tentou iniciar a reunião por duas vezes a 4 de junho, data em que se assinalam as manifestações e se relembra o massacre que ocorreu na Praça de Tiananmen. Mal a reunião começava, era sempre cancelada. Inicialmente, o ativista presumiu que isso pudesse estar a acontecer devido à interferência de hackers do Partido Comunista Chinês. Porém, rapidamente confirmou que duas pessoas da sua equipa que tinham contas pagas do Zoom tinham tido as contas canceladas logo no início da reunião.

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Entretanto, ao ser conhecida esta história, o Zoom afirma que reverteu o cancelamento das contas. Mesmo assim, a empresa continua a afirmar que os participantes têm de obedecer às leis locais de cada país. Este caso levou já críticas e acusações de o Zoom pactuar com o regime autoritário chinês. Como refere a Agência Lusa, a organização China Humanitária afirma em comunicado: “Neste caso, o Zoom é cúmplice da tentativa de apagar a memória do massacre de Tiananmen, em colaboração com um governo autoritário”.

A China continua a negar que existiram protestos de estudantes, com um consequente massacre de centenas de estudantes chineses, na Praça de Tiananmen, em Pequim, entre abril e junho de 1989. Contudo, apesar de não existirem leis que proíbam que se relembre essas manifestações contra o regime autoritário do país, o Partido Comunista Chinês já puniu no passado cidadãos que querem relembrar a data por “incentivarem a subversão do poder do Estado”.

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Wang escreveu em protesto no Facebook que “ao destruir a liberdade de expressão online, o Partido Comunista Chinês ameaça seriamente a liberdade de expressão e a democracia em todo o mundo”. Além disso, afirmou: “Há 31 anos, estávamos nas ruas a lutar contra a polícia do Partido Comunista Chinês, hoje, esses tipos de confrontos mudaram para o ciberespaço”.

O Zoom é um serviço gratuito de videoconferência que permite que até 100 pessoas façam parte de uma videochamada até 40 minutos de duração. Para permitir mais, há um serviço pago. A aplicação é utilizada por várias empresas. Em Portugal, é utilizada também por serviços governamentais, por exemplo.

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O serviço de videochamadas Zoom, concorrente do Skype e que ganhou bastante sucesso devido aos confinamentos durante a pandemia de Covid-19, tem sido criticado por problemas de privacidade. A SpaceX, empresa aeroespacial criada por Elon Musk, chegou mesmo a banir a app das ferramentas de trabalho da equipa, uma decisão que a NASA e o FBI também seguiram.

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