Bérgamo, a cidade a norte de Milão da região italiana da Lombardia, tornou-se uma das localidades mais mencionadas durante a fase mais grave da pandemia. Em Itália, o país europeu que foi o primeiro a ver a situação epidemiológica agravar-se de forma séria e que deu o alerta para o resto do continente, o epicentro do problema foi precisamente em Bérgamo: a cidade que durante o último ano já se tinha tornado um dos locais mais entusiasmantes para o futebol europeu.

Depois da histórica qualificação para a Liga dos Campeões, a Atalanta, clube de Bérgamo, apurou-se para os oitavos de final e é uma das quatro equipas que conseguiu ainda carimbar o passaporte para os quartos de final antes do agravamento da pandemia, ao eliminar o Valencia. Os quatro golos marcados aos espanhóis em cada uma das mãos da eliminatória, num total de oito, deixaram a Atalanta, em conjunto com o treinador Gian Piero Gasperini, nas bocas do mundo. Até que a receção ao Valencia, ainda em fevereiro, se tornou um dos pontos de partida para as explicações preliminares do porquê da gravidade da situação na região.

Presidente de Bérgamo diz que Atalanta-Valencia foi “bomba biológica”: “Se o vírus já circulava, 40 mil ficaram infetados”

Esse encontro, entre a Atalanta e o Valencia — realizado em San Siro, em Milão, e não no Gewiss Stadium, por este não ter condições para receber um jogo europeu–, foi encarado como uma “bomba biológica” pelos especialistas e tido como um dos eventos que despoletou a situação crítica que acabou por se verificar na região. “Viajaram 40 mil pessoas de Bérgamo para Milão nesse dia, para ver o jogo da sua equipa. O estádio estava cheio e depois a festa continuou nos bares. Se o vírus já circulava, essas pessoas ficaram infetadas. Foi uma bomba biológica. Ninguém sabia que o vírus estava entre nós. Muitos vieram ao jogo em grupos organizados e ficaram infetados nessa noite, depois o vírus foi passando de uns para os outros”, disse Giorgio Gori, presidente da região de Bérgamo, ainda no final de março, numa opinião que acabou por ser partilhada por vários médicos.

Este domingo, mais de quatro meses depois do jogo de Milão, o futebol voltava a Bérgamo, a Atalanta voltava aos relvados e o sorriso dos adeptos, ainda que longe do estádio, estava também de volta. Algo que Gasperini, treinador que acabou por confessar ter tido sintomas compatíveis com a Covid-19 na altura em que viajou para Espanha para defrontar o Valencia, garantiu ser o mais importante. “Aquilo que aconteceu em Bérgamo não pode ser remediado com um clube de futebol. Mas tentaremos restaurar um sorriso nesta cidade e nesta região. O vírus mudou completamente a nossa vida. Talvez dentro de algum tempo entendamos o motivo para que o epicentro da epidemia fosse aqui. Jogar sem os adeptos não vai ser fácil, mas sabemos que eles vão estar a ver-nos pela televisão. Estarão próximos de qualquer maneira”, atirou o técnico na antevisão da receção ao Sassuolo, numa opinião que já tinha reiterado em várias entrevistas.

Michael Jordan, Sun Tzu e lobos. Os segredos da Atalanta de Gasperini — que nunca perde, “ou ganha ou aprende”

Sem adeptos e no meio de uma cidade em que todos conhecem alguém, amigo ou familiar, que tenha estado infetado, o Atalanta recebia este domingo o Sassuolo, naquele que era apenas o terceiro jogo da retoma da Serie A mas já depois da final da Taça de Itália perdida pela Juventus para o Nápoles. Em quarto lugar, uma vitória colocava a equipa de Gasperini a três pontos do Inter Milão, pressionando uns nerazzurri que este domingo ainda iriam defrontar a Sampdoria. Depois de uns 15 minutos iniciais em que o Sassuolo foi melhor e obrigou a Atalanta a recuar e a encurtar a distância entre setores, o conjunto de Bérgamo mostrou que nem quatro meses mudaram a forma como operava: bastou chegar uma vez à baliza adversária para abrir o marcador e, daí para a frente, o precedente já tinha sido aberto para desbravar caminho até aos próximos golos.

Djimsiti foi o primeiro a marcar, ao encostar depois de um primeiro desvio ao segundo poste na sequência de um canto (16′), Papu Goméz colocou a bola novamente dentro da baliza mas o golo foi anulado por mão de Gosens (19′) e Zapata aumentou a vantagem logo de seguida (31′). Antes do intervalo, Bourabia ainda fez autogolo (37′) e a Atalanta chegou ao final da primeira parte com a garantia de que já tinha carimbado o 12.º jogo na Serie A esta época em que marcava três golos ou mais, ultrapassando também a fasquia dos 70 golos marcados esta temporada.

Na segunda parte, a qualidade da partida caiu a pique e a intensidade estabilizou, com a Atalanta a manter um ascendente que lhe permitia controlar todos os acontecimentos. Zapata ainda foi a tempo de bisar, com um cabeceamento na sequência de um livre marcado na esquerda (66′), Gian Piero Gasperini acabou por ser expulso por protestos numa partida que estava totalmente a seu favor e Bourabia reduziu de livre direto já nos descontos (90+2′). No final de maio, em entrevista ao The Guardian, Gasperini garantia que ia colocar o “aspeto emocional à frente e no centro de tudo” na retoma da competição.

“Estes jogadores têm uma grande ligação a Bérgamo, à cidade e aos adeptos. Vou falar de forma emotiva e o meu sentimento vai ser este: Bérgamo sofreu muito, este é o nosso momento de os fazermos sorrir outra vez”, sublinhou o técnico. Este domingo, quatro meses depois da “bomba biológica” que poderá ter colocado a cidade do norte italiano no olho do furacão da pandemia, a Atalanta voltou aos relvados, manteve a lógica goleadora e deixou Bérgamo a sorrir. Com a promessa de que a intenção é ainda fazer a melhor temporada da história de um clube que tem nome de personagem grega e que continua a acumular feitos dignos de mitologia.