As autoridades judiciais e policiais de França e dos Países Baixos anunciaram esta quinta-feira o desmantelamento de uma rede global de comunicações encriptadas, intitulada EncroChat, usada quase exclusivamente pelo crime organizado.

Essa operação conjunta, considerada como “um terramoto” para o crime organizado, levou a “múltiplas prisões” em vários países europeus e impediu a perpetração de numerosos atos criminosos, explicaram as autoridades numa conferência de imprensa em Haia, na sede da Eurojust, o órgão de cooperação judiciária entre os países europeus.

A procuradora de Lille (França), Carole Etienne, o vice-diretor da judiciária da polícia militarizada (Gendarmerie) nacional francesa, Jean-Philippe Lecouffe, e o procurador-geral holandês, John Lucas, participaram nesta conferência.

Tráfico de drogas, assassínios, branqueamento de capitais, extorsão, sequestros são alguns dos crimes que eram cometidos nesta rede de comunicações encriptadas.

A investigação conjunta franco-holandesa, sob a égide da Eurojust, iniciada em 2019 pela França e com o apoio da Europol, tornou possível nos últimos meses intercetar e decifrar em tempo real, sem o conhecimento dos autores, “mais de 100 milhões de mensagens” trocadas via EncroChat entre criminosos de todo o mundo.

A intercetação dessas mensagens terminou em 13 de junho, quando a rede de comunicações percebeu que estava a ser investigada.

De acordo com uma mensagem de “aviso” endereçada aos seus clientes, foi explicado que a rede havia sido “ilegalmente infiltrada” por “entidades governamentais”, aconselhando-os a desfazerem-se “imediatamente” dos seus telefones.

Segundo as autoridades, quase todos os clientes do EncroChat (“90% a 100%”) estão ligados ao crime organizado. Cerca de 50.000 desses telefones estavam em circulação em 2020.

A partir de 2017, o uso desses telefones encriptados por criminosos foi detetado em França durante operações contra o crime organizado. A investigação foi conduzida, a partir de 2018, pela procuradoria de Lille devido à localização de servidores que garantiam a operação do EncroChat em França.

Só nos Países Baixos, a investigação levou à prisão de “mais de 100 suspeitos”, à apreensão de “mais de 8.000 quilos de cocaína e 1,2 toneladas de cristal de metanfetamina”, ao desmantelamento de “19 laboratórios de drogas sintéticas”, apreensão de “dezenas de armas de fogo automáticas”, relógios de luxo, 25 carros, alguns incluindo compartimentos secretos, e quase 25 milhões de euros.

As autoridades de França não quiseram, por enquanto, informar os detalhes das operações em andamento.