Dezenas de cidadãos ligados ao movimento SOS Alcanena estão a entupir as caixas de correio eletrónico de jornais, partidos políticos e entidades governamentais com um “grito de socorro” para resolver o problema de maus cheiros na vila do distrito de Santarém.

Esta corrente de ’emails’ é um grito de socorro de quem está desesperado e chegou ao limite”, disse à Lusa Ricardo Rodrigues, do SOS Alcanena, destacando que “o problema tem muitos anos” e que o caso mais recente ocorreu na noite de quarta-feira para quinta-feira com um odor fétido proveniente de um “gás venenoso com um cheiro a ovos podres, muito intenso e tóxico”, e que se “entranha nas carros e nas habitações” da vila e nas aldeias das imediações.

As largas dezenas de mensagens que têm circulado são iguais em termos de conteúdo, mas assinadas por pessoas diferentes, numa iniciativa daquele movimento de cidadania motivada pelo mais recente episódio de maus cheiros que “obrigou as pessoas a estarem fechadas em casa, com tudo fechado no pico do verão”.

Segundo Ricardo Rodrigues, as mensagens são um ato de “desespero e sentimento de impotência” perante o problema.

Nas mensagens pode ler-se que “a poluição ambiental em Alcanena atingiu níveis insustentáveis para a população poder viver com o mínimo de qualidade” e que “não se consegue respirar ar puro com os níveis adequados por dois dias seguidos”.

Ao contrário do resto do país, Alcanena continua em confinamento, pois todos os dias a população tem de fechar portas e janelas de casa, os vidros do carro, tudo, para que o cheiro não empeste as nossas vidas”, referem.

Segundo um dos ’emails’ enviados à Lusa, mas também aos partidos políticos e a cerca de uma centena de entidades com responsabilidades ambientais e governativas, “o ar irrespirável deve-se à exposição do ar de Alcanena a sulfeto de hidrogénio, um gás venenoso, que tem graves implicações na saúde das pessoas, ou seja, trata-se de um problema de poluição ambiental que atinge a vertente social e de saúde pública”.

Esta situação “ultrapassou todos os limites do razoável há muito tempo”, com os cidadãos a “sentirem-se completamente presos de uma indústria que não cumpre e/ou de uma autarquia completamente incompetente na resolução do problema”.

Ricardo Rodrigues disse à Lusa que “o problema está identificado como sendo proveniente da indústria de curtumes e que a câmara diz que a situação está melhor e que vai fiscalizar”, mas “dia após dia, mês após mês, ano após ano, o problema mantém-se e intensifica-se sem qualquer avanço” por parte das entidades competentes.

Não sabemos mais o que fazer para vermos o fim a este calvário, a população está completamente desesperada (..) e precisa de todas as ajudas nesta altura”, declarou, considerando que o município “não faz a mínima ideia de como resolver o problema”.

A Lusa tentou esta sexta-feira contactar a presidente da Câmara de Alcanena, sem sucesso.

Em 24 de julho, a presidente do município, Fernanda Asseiceira (PS), disse à Lusa “lamentar que continuem a existir industriais que não cumprem com as regras, pondo em causa todo o sistema”.

Segundo a autarca, foi possível detetar que as descargas de hidrocarbonetos na rede, ocorridas no início deste mês, tiveram origem no emissário da Gouxaria (um dos três que conduz águas residuais até à Estação de tratamento de águas Residuais), tendo sido realizadas análises que confirmaram a presença daquele químico, sem, contudo, ser possível identificar a ou as indústrias em concreto.

Fernanda Asseiceira afirmou na ocasião ser “a primeira a reconhecer que a população só pode estar muito desagradada, inquieta e preocupada”.