Júnior é, na verdade, Aluísio. Nascido com o mesmo nome do pai, adquiriu um Júnior depois do último apelido, Moraes, para o diferenciar. Aos quatro anos já estava no São Paulo, onde fazia parte da mesma equipa que Robinho, e começou logo aí a prolongar a tradição da família: o pai jogou no Flamengo e no Santos, o irmão Bruno esteve vários anos no FC Porto e representa agora o Trofense, a irmã só desistiu do futebol devido a uma lesão e a mãe foi campeã regional de ténis. Júnior, de forma natural, só podia ser jogador de futebol. E esta terça-feira, aos 33 anos, o avançado vivia um dos dias mais importantes da carreira.

Em Gelsenkirchen, Júnior Moraes era o grande destaque da equipa do Shakhtar Donetsk que enfrentava o Basileia com o objetivo de chegar às meias-finais da Liga Europa. O adversário, já conhecido, seria o Inter Milão — e o avançado brasileiro naturalizado ucraniano via esta terça-feira o culminar de um percurso que passou pelo CSKA, pelo Dínamo Kiev e pelo Tianjin Quanjian da China antes de aterrar em Donetsk. A representar a seleção ucraniana desde o ano passado e com cinco internacionalizações, depois de um decreto excecional do presidente Petro Poroshenko, foi até o protagonista de uma polémica que envolveu Portugal, quando jogou contra a Seleção Nacional numa partida da qualificação para o Euro 2020 numa altura em que, alegadamente, ainda não o poderia fazer. O caso foi arquivado pela UEFA, a razão foi dada à Ucrânia e Júnior Moraes é agora um dos elementos em destaque na equipa de Shevchenko.

Nos oitavos de final, na eliminatória contra o Wolfsburgo, marcou três golos e eliminou praticamente sozinho os alemães, carimbando a passagem à final eight. Esta terça-feira, contra um Basileia que afastou o Eintracht Frankfurt de Gonçalo Paciência e André Silva, procurava repetir a façanha — e podia contar a mesma vontade do lado do treinador, o português Luís Castro. “Será 50/50. O jogo vai ser como uma final para nós, não estamos a pensar para além deste jogo, por respeito ao Basileia e à competição. Não podemos errar. Sabemos perfeitamente que o jogo de amanhã [terça-feira] é único e resolverá tudo. Estamos habituados às duas mãos, psicologicamente vamos ter de sofrer muito”, explicou o técnico, que também vivia em Gelsenkirchen uma das noites mais cruciais da carreira.

Vindos de quatro vitórias nos últimos cinco jogos, os ucranianos assentavam principalmente no historial positivo contra o Basileia: nas cinco partidas mais recentes entre as duas equipas, o Shakhtar ganhou quatro. Do outro lado, os suíços que contam com o ex-Sporting Ricky Van Wolfswinkel permitiam-se sonhar e tinham como objetivo repetir a melhor prestação de sempre na Europa, em 2012/13, quando só caíram nas meias-finais da Liga Europa com o Chelsea.

Luís Castro, de forma natural, apostava em Marlos, Alan Patrick, Taison e Júnior Moraes, deixando Solomon, que entrou muito bem na segunda mão contra o Wolfsburgo, no banco de suplentes. Do lado dos suíços, Van Wolfswinkel também começava no banco, com a frente de ataque a ficar entregue a Arthur Cabral, apoiado por Frei e Samuele Campo. E em Gelsenkirchen, onde há 16 anos o FC Porto conquistou a Liga dos Campeões, um português voltou a sorrir apenas dois minutos depois do apito inicial: canto batido na direita por Marlos e Júnior Moraes, antecipando-se à saída pouco cautelosa de Nikolic, cabeceou para abrir o marcador (2′). O avançado marcou o quarto golo em três jogos e sublinhou a ideia de que está num bom momento de forma.

Numa primeira parte em que o Basileia confirmou ter menos argumentos do que o Shakhtar, os ucranianos não precisaram de insistir muito para aumentar a vantagem. Ultrapassados os 20 minutos iniciais e no culminar de um contra-ataque letal, Marlos voltou a servir um colega de equipa de bandeja e descobriu Taison à entrada da grande área, que rematou e ainda beneficiou de um desvio para voltar a bater Nikolic (22′). Até ao intervalo, o Shakhtar ainda poderia ter engrossado os números no marcador, já que Moraes voltou a ficar perto de marcar (31′) e Marcos Antônio acertou na trave com um remate em jeito (39′), e subsistia a ideia de que a eliminatória estava praticamente resolvida mesmo quando ainda faltava disputar 45 minutos.

Na segunda parte, o Basileia melhorou e aproveitou uma certa lógica de gestão do Shakhtar. Ainda assim, os suíços acabaram por sofrer mais um revés com a lesão e consequente saída de Xhaka, o jogador que estava em maior evidência e que ia funcionando como autêntico motor da equipa. Os ucranianos foram permitindo mais espaço e Arthur Cabral teve uma boa oportunidade para reduzir a desvantagem, depois de uma saída pouco calculada de Pyatov (66′), mas acabou por atirar ao lado.

Até ao fim e com várias substituições pelo meio, Alan Patrick ainda converteu uma grande penalidade (75′), Dodô também marcou (88′) e Wolfswinkel reduziu (90+2′), com o Shakhtar a acabar a golear, assegurando a passagem às meias-finais, onde vai encontrar o Inter Milão. A equipa de Luís Castro foi melhor, superior e destacou-se: e embora tenha como motor um Júnior que na verdade é Aluísio, corre a velocidade de sénior e vai atrás de uma surpresa contra Antonio Conte e companhia.