O que existe de comum entre PSG e Bayern? À exceção de estarem ambos na final da Liga dos Campeões, pouco ou nada. Representam paradigmas diferentes na abordagem ao futebol, têm modelos de governance quase opostos, jogam com princípios e táticas diferentes. Ah, aqui havia um ponto de contacto, o facto de terem técnicos alemães. Apesar da coincidência, ambos fugiram a um duelo Tuchel-Flick para se concentrarem no PSG-Bayern. E porquê? Porque um pouco à semelhança do que aconteceu no encontro decisivo da Liga Europa entre Sevilha e Inter, não era pelo que sabem fazer que sairia um vencedor mas sim pela capacidade de fazer mais e diferente. Esse era o grande desafio entre o coletivo mais forte da atualidade, o Bayern, e a individualidade que quer agora recuperar o tempo perdido para agarrar na sucessão da coroa de melhor do mundo, Neymar. O estilo sóbrio dos germânicos em contraste com o estilo explosivo dos franceses. Uma nova versão de Futebol Total 2.0 contra o futebol de rua.

O melhor reforço de Thomas Tuchel foi recuperar Neymar. Um Neymar sem pensar num possível regresso à cidade de Barcelona, um Neymar a fugir às lesões que lhe retiraram vários jogos, um Neymar a assumir a responsabilidade que a equipa precisava – mesmo sendo um Neymar folião, de bem com a vida, de sorriso rasgado. Esse é o melhor Neymar, isso dá o melhor de Neymar. Mas houve outra alteração que fez toda a diferença num PSG que mostrou o pior (Atalanta) e o melhor (RB Leipzig) nesta Final Eight da Liga dos Campeões: os processos e mecanismos do meio-campo, que consolidaram a defesa e potenciaram o ataque. Kehrer e Bernat provaram que nem sempre é preciso gastar muito para encontrar laterais competentes, Thiago Silva não deixa de ser um patrão pela idade, o trio Di María-Mbappé-Neymar dispensa grandes comentários. O segredo do alemão foi perceber, ao contrário de Laurent Blanc e Unai Emery, a importância de ganhar o corredor central, fixando para isso com sucesso o defesa Marquinhos à frente da linha defensiva e rodando Ander Herrera, Gueye, Paredes ou Verratti como box to box.

“O Bayern tem uma ligeira vantagem por estar habituado a estes jogos, aceito isso, mas temos sempre a ambição de melhorar e, por isso, não pensamos muito nesse aspeto. Se estamos cá é porque merecemos e estamos prontos para enfrentar o Bayern. Respeitamos sempre os nossos adversários, penso que é importante termos toda a informação, detalhes e soluções para atacar e defender, e é o que vamos fazer. Claro que vai ser difícil, o Bayern venceu os últimos 21 jogos, alguns por muitos golos, mas há sempre alguma forma de os bater. Quero que os jogadores se sintam bem, se sintam livres. Quando chegas à final é preciso encontrar o equilíbrio entre jogar livremente, com confiança, como temos feito, e ter concentração para as situações decisivas. Eles estão a conseguir uma série incrível, com um misto de juventude e experiência, e não vejo comparação com equipas anteriores porque este é o mais alto nível do futebol europeu”, descreveu Thomas Tuchel na antecâmara do encontro decisivo.

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Do lado do Bayern, Hansi Flick passou do bom ao muito bom e do muito bom ao ótimo mas ainda hoje continuava em busca de uma perfeição que sabe não existir mas que pode estar mais próxima. Depois de um primeiro mês para estabilizar a equipa, alterar alguns princípios na ideia de jogo e recuperar jogadores tristes, desmotivados e que se perdiam em enigmas labirínticos no plano posicional por deixarem transparecer em campo essa parte mais emocional, o Bayern mudou, cresceu e tornou-se quase imbatível – somando uma série de 21 encontros seguidos sempre a ganhar (agora 22) e 30 com um nulo frente ao RB Leipzig pelo meio. A chave, essa, foi tudo o que não estava ligado com bola: posicionamentos mais altos com defesa subida e unidades ofensivas a pressionar à saída da área, melhor ocupação dos espaços e movimentos verticais com acompanhamento dos médios para ter três a cinco jogadores em zona de finalização e a liderança de Neuer, Müller, Boateng ou Lewandowski para possibilitar o crescimento sustentado dos mais novos como Alphonso Davies, Kimmich, Pavard ou Coman.

“Vamos testar-nos, como nos testámos frente ao Barcelona e ao Lyon. Vamos tentar dar o nosso melhor neste jogo especial em que podemos sagrar-nos campeões europeus. Não queremos dar espaço ao adversário e, para isso, é importante pressionar. Talvez me atreva a dizer que têm um estilo semelhante ao Barcelona, com muita qualidade, um nível de topo e ótimos jogadores. Nos últimos dez meses tentámos incutir um estilo de jogo com uma defesa alta, mesmo diante do Lyon, que tem um estilo mais direto, e não acho que vamos mudar isso. Temos um plano para o jogo e esperamos conseguir concretizá-lo para sermos bem sucedidos. Não é todos os anos que chegamos à final, por isso vamos tentar praticar o nosso melhor futebol para o conseguir. Estamos contentes por jogar contra uma das melhores equipas do mundo, com um treinador com uma filosofia ganhadora e vai ser ótimo rever o Thomas Tuchel em Lisboa, numa final. Mas vai ser um jogo entre Bayern e PSG, nada mais do que isso”, referiu no lançamento da partida Hansi Flick. E essa acabaria por ser uma das chaves do jogo.

O encontro arrancou com esse início pedido na teoria e aplicado na prática: os bávaros conseguiram criar uma zona de pressão sufocante no meio-campo adversário, foram tentando explorar a maior vertigem do jogo pela esquerda de Coman, a surpresa no onze no lugar de Perisic, mas nunca sem a capacidade para criar ocasiões e por exemplo tocar na bola dentro da área do PSG (algo que só aconteceria com 20 minutos jogados). Thiago Alcântara, com um remate de fora da área ao lado, deixou o primeiro sinal junto da baliza do recuperado Keylor Navas mas o arranque com muita bola e a condicionar o jogo adversário foi mais fogo de vista do que outra coisa. Aliás, em dez minutos os franceses passaram de dominados a dominadores, pelo menos nas chances de golo: já depois de uma ameaça onde Kimmich travou o remate de Mbappé, o francês disparou numa transição, assistiu Neymar na diagonal e Neuer foi gigante por duas ocasiões a defender com os pés e com o corpos as tentativas do brasileiro (18′).

Quase na resposta, Lewandowski recebeu uma bola na área, rodou e rematou ao poste da baliza de Navas (22′). E até à meia hora ainda houve um tiro de ressaca de Ander Herrera a desviar em Thiago Silva que passou muito perto da baliza de Neuer (28′) e uma grande defesa de Navas após desvio na pequena área de Lewandowski (30′). A final entrava num momento atípico de jogo partido, com bola-cá-bola-lá, onde faltava só o golo – sendo que pelo meio Boateng forçou em demasia e teve mesmo de ser substituído por Süle. Depois acalmou, chegando ao intervalo com mais uma ocasião soberana para os franceses com Mbappé a pegar mal na bola e a chutar fraco após uma perda dos bávaros na saída. O encontro merecia golos mas terminava nos 45 minutos iniciais com muito mérito para a forma como o PSG roubou espaços entre linhas e para o assumir o jogo sem receio pelo Bayern.

O futebol demorou a sair dos balneários, com Gnabry, Paredes e Süle a verem amarelos num período de ânimos mais quentes na Luz, mas as ideias continuavam presentes de maneira mais temperada, pela forma como o Bayern e o PSG iam alternando em zonas de pressão mais altas e defesas mais baixas. Estava tudo a colocar-se a jeito para haver uma decisão no erro e bastou apenas um erro para a final ficar mesmo decidida com um único golo.

Numa das raríssimas ocasiões em que as linhas do PSG não estiveram juntas e o Bayern explorou o espaço, foi o lateral Kimmich que se colocou mais por dentro, recebeu sem oposição, teve tempo para perceber como faria a 15.ª assistência da temporada e cruzou largo ao segundo poste para o cabeceamento sem hipóteses de Coman, que passou o encontro todo a passar para trás e para a frente sem que Kehrer conseguisse fazer nada para contrariar essa tendência e que mais uma vez ganhou vantagem para fazer o 1-0 (59′). A única referência nos bávaros daquilo que temos mais parecido ao futebol de rua decidia uma final contra a equipa que ficou refém do futebol de rua de Neymar que não saiu. Foi uma lição para o PSG, que deixou fugir uma pérola para a Juventus em 2014 depois de ser ter tornado o jogador mais novo de sempre a estrear-se pelos franceses. Foi uma lição para o futebol.

“Não vou fazer mais nenhuma operação, estou farto disso. Se o meu pé não foi feito para esta vida, então mais vale procurar uma outra vida e outro trabalho, anónimo. Está a ser um ano muito difícil. Caiu-me tudo quando me lesionei a primeira vez, para mim foi o fim do mundo, e só espero não voltar a passar por isso. Espero não ter de reviver tudo aquilo que passei, já chega isso. Se acontecer uma terceira vez… É sinal que não sou feito para este nível”, atirou Kingsley Coman no final de 2018, desesperado com mais uma lesão que colocavam em dúvida o investimento de 28 milhões de euros feito pelo Bayern um ano antes. E foi honesto com o clube: se tivesse de voltar a ser operado ao tornozelo, preferia fazer qualquer outra coisa. Em 2020, foi o herói da Champions.

Marquinhos, após assistência de Di María, teve a grande oportunidade para o empate na área mas Neuer, já vendo o movimento do médio, antecipou-se e fez mais uma “mancha” a evitar o golo. O jogo estava partido mas, mesmo sem conseguir a gestão do resultado que pretendia, o Bayern aguentou o 1-0 e sagrou-se campeão europeu pela sexta vez na história, no final de uma temporada onde mudou o paradigma de como será o futebol no futuro e mostrou o porquê de ser o melhor clube do mundo dentro e fora de campo. A experiência nas decisões e a maturidade para gerir estados emocionais fez diferença mas o PSG deu um passo em frente para ficar mais perto.