A coordenadora da Unidade Cerebrovascular do Hospital São José, em Lisboa, afirmou esta quarta-feira que sobreviventes de AVC com “enorme potencial de recuperação” ficaram com sequelas “muito maiores” devido à paragem dos tratamentos de reabilitação devido à pandemia de Covid-19.

Não serve para nada mantermos a terapêutica de fase aguda toda a funcionar, e funcionou bem durante a pandemia e continua a funcionar, para depois não darmos o resto que o doente precisa que é a reabilitação”, advertiu Ana Paiva Nunes na conferência online “Saúde Interrompida: o impacto da pandemia nos doentes não Covid-19”.

Segundo Ana Paiva Nunes, “a reabilitação parou por completo” durante o estado de emergência, o que fez com que doentes que ficaram “com incapacidades e que tinham um enorme potencial de recuperação” do AVC tenham ficado com “sequelas muito maiores”.

“Isso vai ser um problema gravíssimo e se voltarmos a ter que fazer restrições no SNS, do ponto de vista da acessibilidade à reabilitação, não pode voltar a acontecer nós deixarmos os doentes perder o potencial de reabilitação que tinham“, advertiu.

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Segundo um inquérito divulgado pela Portugal AVC, 91% dos doentes com indicação para cuidados de reabilitação, entre 20 e 27 de abril, afirmaram ter sido obrigados a interromper os tratamentos ou não ter tido possibilidade de os iniciar.

Outro inquérito da Sociedade Portuguesa do AVC mostrou que de 32 hospitais portugueses metade viu o número de doentes com AVC reduzir entre 25% e 50%.

Ainda não se sabe qual foi o motivo, mas é curioso os casos terem diminuído durante a pandemia quando se sabe que “o vírus SARS-CoV 2 tem um potencial trombogénico importante e, portanto, até poderíamos ter mais AVC”, observou a médica.

Não sabemos se era porque as pessoas estavam em casa e tomavam os seus medicamentos de forma correta, se tinham menos stress do trabalho, o que sabemos efetivamente é que recorreram muito menos ao hospital e isso foi uma coisa um bocadinho assustadora para todos nós porque tratámos muito menos doentes”, contou.

No seu entender, a pandemia foi “exacerbada de uma maneira tão assustadora” na comunicação social que “as pessoas ficaram com medo de ir ao hospital” e por isso houve menos ativações na via verde AVC. “Qual é a consequência disto a longo prazo? Não sabemos qual vai ser, mas seguramente não vai ser boa”, lamentou.

Rui Teles, cardiologista de intervenção do Hospital de Santa Cruz, em Lisboa, também criticou como tem sido noticiada a pandemia. Os doentes com hipertensão foram, em termos estatísticos, os que mais se distanciaram dos hospitais, porque criou-se “uma postura de medo” devido à informação que circulou, o que impactou a mortalidade destes doentes face ao seu tratamento tardio, disse, defendendo que “é importante” partilhar mensagens corretas e incentivar o regresso dos doentes aos hospitais porque existem “vias seguras”

Segundo Rui Teles, houve “um acréscimo da mortalidade com menos doentes a serem tratados em patologias mais graves, doentes que têm descompensações insidiosas ou rápidas” e que se não tiverem resposta em dois meses morrem.

Subtraindo as 1.727 mortes por Covid-19 ao total de mortes por causas naturais registadas desde 16 de março, verifica-se um valor de quase mais 2.600 óbitos relativamente ao mesmo período de 2019.

Um cenário que, embora não tenha uma justificação fechada, pode estar relacionado com a redução de consultas presenciais não urgentes, aliada ao medo de contrair Covid-19, que manteve certos doentes afastados do hospital, bem como à fragilidade de muitos deles”, salientou.

A pandemia já provocou mais de um milhão de mortos no mundo, incluindo 1.971 em Portugal.