A “sorte” apareceu na primeira saída da pista de manhã, o “azar” que se seguiu não veio só. Se as sessões iniciais de treinos livres tinham sido confusas pela chuva que não permitiu muitas voltas com a pista seca na sexta-feira, este sábado as coisas não foram muito diferentes para Miguel Oliveira que, após uma volta canhão na terceira sessão de treinos que lhe valeu a qualificação direta para o Q2, teve primeiro um problema técnico que deixou a sua moto a largar óleo na pista e, de seguida, sofreu uma queda (sem consequências) quando tinha ainda os pneus frios. No meio de tantas incidências, o português não foi além do 12.º lugar na qualificação.

Fez uma volta canhão, a moto perdeu óleo, caiu e ainda teve um “choque” com Bagnaia: Oliveira termina qualificação no 12.º lugar

“Não foi a qualificação desejada. Depois do problema com o motor que tive no quarto treino livre, tive de parar e recomeçar com um pneu novo à frente. Na primeira volta, o pneu ainda estava frio e caí. Consegui recuperar a mota e trazê-la às boxes, porque era a única mota que tinha disponível para fazer a qualificação. Saio outra vez da quarta linha da grelha. Vai ser uma corrida dura, um pouco de sobrevivência. As coisas vão ser duras para todo mas penso que posso fazer um bom resultado. A estratégia passa por manter a salvo nas primeiras voltas. Julgo que é um bom ritmo de corrida e tenho de manter um pensamento positivo”, comentou Miguel Oliveira à sua assessoria. Mais uma vez, o piloto de Almada preparava-se para uma prova de trás para a frente.

O piloto da Tech3 partia para o próximo ciclo de provas consecutivas entre Le Mans e Aragão ciente de que, dentro da competitividade reinante numa temporada onde a ausência de Marc Márquez deixou tudo em aberto, era nestas três corridas que se começavam a marcar posições para o que restará da temporada (mais três provas, a terminar com o Grande Prémio de Portugal, em Portimão, e tendo antes duas em Valência). Por isso, apontava aos cinco primeiros lugares, não só para não perder de vista os três primeiros do Mundial (Quartararo, Joan Mir e Viñales) mas sobretudo para não descolar de perseguidores como Dovizioso, Morbidelli, Miller ou Nakagami.

Queremos dar a volta ao resultado de Barcelona [desistência por queda] e marcar pontos, que é o mais importante. O objetivo é terminar todas as provas e se possível dentro dos cinco primeiros lugares. Em França, por ser a corrida caseira para a Tech3, sinto-me ainda mais motivado para conseguir um bom resultado. Estou satisfeito por poder voltar a trabalhar”, disse no lançamento deste fim de semana.

Era neste contexto que chegávamos à corrida do Grande Prémio de França, uma hora mais cedo em Portugal do que as 13h habituais. No 12.º lugar, o posto mais baixo da quarta linha tendo à sua frente Johann Zarco (nono), a saída seria determinante para o português evitar qualquer problema que condicionasse o resto da prova mas, em paralelo, não perder mais posições numa corrida que seria sempre feita de trás para a frente. Depois, a chave estaria no ritmo de corrida atingido, sendo que, olhando para outros anos não só em MotoGP mas também em Moto2 e Moto3, o português nunca tinha ido além de um sexto lugar em França (em 2018, em Moto2, quando discutia o título com Pecco Bagnaia, com quem teve um pequeno “choque” este sábado na qualificação).

E para adensar as dificuldades, cerca de cinco minutos antes da partida a chuva nas curvas 6 e 8 obrigou a retardar o início em dez minutos, mudando por completo estratégias, perspetivas e, provavelmente, aquilo que podia ter sido a corrida sem chuva. No entanto, se as Ducati confirmaram que estariam em melhor condição com a pista molhada, a queda de Valentino Rossi na primeira curva condicionou o arranque de Miguel Oliveira (que já não tinha sido “famoso”), que caiu para a 18.ª posição enquanto Jack Miller, Dovizioso e Petrucci lideravam a corrida após um excelente arranque de Cal Crutchlow que não conseguiu depois fixar-se entre as primeiras posições. A prova está “acabada” para o português? Não, a prova estava apenas a começar para o português.

Em apenas duas voltas Miguel Oliveira subiu sete lugares, ultrapassando Binder, Iker Lecuona, Pecco Bagnaia, Zarco, Stefan Bradl, Aleix Espargaró ou Viñales. O Falcão tinha acabado de abrir as asas, subiu ao décimo posto após ganhar posição a Nakagami e escalou mais uma posição a Fabio Quartararo (a andar para trás desde início naquele que era o seu Grande Prémio…), fixando-se no nono lugar atrás de Álex Márquez com cinco voltas feitas e tendo os melhores tempos em pelo menos duas dessas voltas com muita tranquilidade em pista, como se viu na forma como subiu a oitavo: podendo arriscar a ultrapassagem a Márquez, esperou que o espanhol passasse Bradley Smith, ultrapassou também o britânico e recolocou-se na roda do piloto da Honda. Lá na frente, as três Ducati conseguiam uma vantagem de dois segundos, com a Suzuki de Álex Rins a dar boa réplica.

A corrida estava partida em dois grandes blocos: no primeiro, Petrucci, Dovizioso e Jack Millers tentavam defender o domínio das Ducati frente a um Álex Rins em constantes ataques bem defendidos pelo australiano; no segundo, Pol Espargaró tentava diminuir o fosso para a frente mas ganhou um novo “problema” atrás, quando Álex Márquez ultrapassou Cal Crutchlow e começou a fazer os melhores tempos na corrida para preparar o ataque ao piloto da KTM. O britânico não aguentaria a pressão do português e acabou por sofrer uma queda, colocando Miguel Oliveira na sétima posição, a rodar com pista livre à frente a 1.3 segundos do grupo que entretanto se tinha juntado perante curvas mais apertadas de risco máximo entre os quatro da frente. Ou seja, tudo em aberto.

Apenas numa volta, tudo mudou e para benefício do português: Jack Miller teve de abandonar a corrida devido a problemas técnicos (e a chegada às boxes foi tudo menos sossegada, com o australiano em fúria), Álex Rins sofreu também ele uma queda, Álex Márquez superou Pol Espargaró e Miguel Oliveira estava na quinta posição mais uma vez a competir pelo companheiro de equipa da KTM pelo quarto posto quando se encontrava naquele que igualava o segundo melhor resultado em MotoGP (Emilia Romagna), apenas superado pela vitória na Estíria. Petrucci tinha consolidado a primeira posição, Márquez saltou para a segunda posição, Espargaró conseguiu superar Dovizioso e era o italiano o “alvo” a abater, com a ultrapassagem a ser prontamente reconvertida pelo transalpino antes de uma surpresa que veio de trás, com Zarco a superar o português na última curva e a ganhar o sexto lugar.

Petrucci confirmou mesmo a vitória, tornando-se o sétimo vencedor diferente em dez provas (só Quartararo já ganhou mais do que uma vez), e Álex Márquez acabou na segunda posição, naquele que foi o seu primeiro pódio no MotoGP – e o 15.º piloto diferente a entrar pelo menos uma vez nos três primeiros lugares. Já Miguel Oliveira, com o sexto posto, igualou o terceiro melhor registo na categoria rainha do motociclismo (Rep. Checa), só superados pela vitória na Estíria e pelo quinto lugar em Emilia Romagna, curiosamente naquela que foi a sua primeira prova no MotoGP com pista molhada. Assim, o português manteve o nono lugar da classificação com 69 pontos, sendo ultrapassado por Pol Espargaró mas passando Álex Rins. Na frente continua Fabio Quartararo.

“O sexto lugar é um bom resultado para nós, pois, ao mesmo tempo, foi a minha primeira corrida à chuva em MotoGP. Foi uma boa corrida. Tive de fazer uma boa gestão dos pneus. Nas últimas voltas tentei preparar uma ultrapassagem ao Dovi [Dovizioso]. Preparei demasiado e o Zarco, que estava a dois segundos, acabou por aproveitar. Mesmo assim foi uma boa corrida e isso é o mais importante, sermos competitivos. Faltam ainda cinco corridas e há muitos pontos em disputa, temos muitas oportunidades para terminar à frente”, comentou no final da prova Miguel Oliveira, em declarações à sua assessoria de imprensa.