Quem visita a Nazaré em busca das suas ondas gigantes, é surpreendido por costumes que parecem ter resistido ao passar dos anos, um clima ameno, gastronomia irrepreensível de sabores marítimos e, claro, uma enorme beleza natural.

Os heróis das ondas gigantes

Em 2011, a Nazaré entrou oficialmente para a lista dos destinos mais procurados do mundo por amantes de surf. O responsável por esta fama mundial instantânea foi o surfista havaiano Garrett McNamara, que ali quebrou o recorde de maior onda surfada em fundo de areia do mundo (23,8 metros), adicionando o seu nome, e o da Nazaré, ao Livro do Guiness.

Ilustração: Teresa Dias Costa

Desde então, vários têm sido os surfistas que têm colocado à prova as suas capacidades físicas e mentais, ao descerem as ondas gigantes que todos os invernos quebram na costa da Nazaré. Em 2017, o surfista brasileiro Rodrigo Koxa quebrou o anterior recorde do Guiness de Garrett McNamara ao surfar a maior onda de sempre com 24,38 metros; em 2018, foi a vez de Nuno “Stru” Figueiredo entrar para o livro de recordes com a maior onda alguma vez surfada de kitesurf, com 19 metros; e, mais recentemente, em fevereiro de 2020, a surfista brasileira Maya Gabeira conseguiu ultrapassar o seu anterior recorde do Guiness de maior onda surfada por uma mulher (22,4 metros).

Quando e onde ver as ondas gigantes

O fenómeno das ondas gigantes ocorre todo os anos na Praia do Norte, no período entre outubro e março, altura em que se realiza o campeonato Nazaré Big Wave Tow Surfing Challenge. É originado pelas tempestades que ocorrem em pleno Oceano Atlântico todos os invernos, e por um dos maiores canhões (desfiladeiros) submarinos da Europa, com uma extensão de 170 km e uma profundidade que chega a atingir os 5 km, localizado junto à costa nazarena. As ondas, que podem atingir os 30 metros e que, desde sempre, foram olhadas pela população local com temor e respeito, são hoje um local de culto para quem ali vê uma fonte inesgotável de adrenalina.

O melhor local para admirar a sua magnitude e a coragem dos que se atrevem a descê-las numa prancha de surf, é junto ao Farol da Nazaré, no Forte de São Miguel Arcanjo, a partir do qual se obtém uma vista de cima privilegiada sobre a Praia do Norte. E é também no Forte de S. Miguel Arcanjo, especificamente no surfer hall, que está patente uma exposição com as pranchas e as memórias das lendas do surf nacional e mundial. Vale a pena a visita.

À descoberta da essência nazarena

As ondas grandes são apenas uma das características que fazem da Nazaré um destino turístico único. Emoldurada por uma baía em forma de meia-lua, esta pequena vila piscatória encanta todos aqueles que percorrem as suas pitorescas ruas estreitas em direção ao mar.

Ilustração: Teresa Dias Costa

Na vila, as nazarenas, conhecidas pelas suas sete saias, mantêm viva uma tradição antiga, vendendo peixe ou divulgando as casas que têm para alugar, agora que a Nazaré se tornou destino turístico de excelência. Diz-se que as sete saias coloridas, elemento típico e indispensável da sua indumentária, a que se junta um “cachené” colorido na cabeça – usadas pelas mulheres que aguardavam os seus maridos pescadores na praia, para se protegerem do frio e da humidade do mar – e anda as socas de madeira, foram sendo adicionadas, uma em cima das outras, pelas mulheres que aguardavam os seus maridos pescadores na praia, à medida que o frio ia aumentando. O número de saias estaria relacionado com os sete dias da semana, as sete cores do arco-íris, as sete ondas de um set e a vários outros elementos de origem mística ou bíblica à volta do número sete.

Junto à baía, o peixe é ainda hoje colocado a secar ao sol, os pescadores remendam as suas redes de pesca e barcos, como sempre o fizeram, e a população local e visitantes passeiam-se pela Avenida Marginal, muitos em busca do melhor peixe, seja grelhado, seja numa famosa Caldeirada à Nazarena.

Vistas históricas

A uma altitude de 110 metros em relação à baía, no topo de uma falésia rochosa, ergue-se o Sítio. Apesar de acessível de carro, muitos escolhem fazer a subida no funicular que percorre a íngreme falésia até ao topo. É daqui que se obtêm as melhores vistas sobre a Nazaré e o Oceano Atlântico, que se estende até onde os olhos alcançam. Encoste-se ao muro branco que emoldura o Miradouro do Suberco ou sente-se nos seus bancos de pedra, cobertos por uma pérgula de madeira: a sensação de relaxamento imediata que aquela paisagem oferece é incomparável. Pode também descer a Ladeira do Sítio até à praia, para usufruir e admirar a paisagem e a vida da vila de uma forma diferente.

Para além da vista, é aqui, no Sítio, que se encontra o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré e a Ermida da Memória, esta última tornada famosa pela lenda a que está associada. Diz-se que, em 1182, o nobre local Dom Fuas Roupinho viu-se entre a vida e a morte enquanto perseguia um veado numa caçada a cavalo. Assim que percebeu que ia cair da falésia, rezou a Nossa Senhora da Nazaré, que surgiu e parou o seu cavalo no último momento. Em honra desse dito milagre, Dom Fuas Roupinho mandou erguer uma pequena capela, decorada com azulejos, cujos desenhos contam a história que durante anos atraíram vários peregrinos.

Se as tradições nazarenas o fascinam, não perca a oportunidade de visitar ainda o Museu Dr. Joaquim Manso  para descobrir mais detalhes sobre a relação da Nazaré com o mar, e se as vistas do Miradouro do Suberco não forem suficientes, siga em direção à Pederneira, através do Parque da Pedralva, onde encontra um miradouro natural com outra das melhores vistas sobre a Nazaré e o pinhal de Leiria.

De ondas gigantes que dão origem a recordes mundiais, a uma cultura e tradições que se mantêm ao longo dos anos e uma gastronomia com sabor a mar, a Nazaré tem tudo para o fazer voltar a casa com a certeza de um regresso.

Saiba mais sobre este projeto
em https://observador.pt/seccao/centro-de-portugal/