Durante 75 minutos, José Mourinho viu o Tottenham chegar a um ponto alto que na última época poucas vezes viu atingir. Com uma organização coletiva forte, com capacidade de esticar jogo sem perder equilíbrios no momento da transição, com uma defesa sólida como antes não se tinha assistido, com um Harry Kane ainda mais jogador do que era antes de chegar. Em pouco mais de um quarto de hora chegou aos 3-0 mas teve mais tarde uma bola no poste e o contexto ideal para lançar o regressado Gareth Bale. Depois, num final de terror, o West Ham chegou mesmo ao empate. Reduziu numa bola parada, aproximou-se com um autogolo, fez o 3-3 com um golo fantástico ao ângulo de fora da área daqueles que acontecem uma vez em cada 100 tentativas. Os spurs foram do melhor ao pior num ápice, deixando à vista aquele que é um dos problemas da equipa: os níveis de estabilidade emocional.

Incrível: Tottenham de Mourinho chegou ao 3-0 em 16 minutos, sofreu dois golos em quatro minutos e empatou no último lance do dérbi

Em condições normais, e recuperando aquilo que aconteceu noutras ocasiões semelhantes, o técnico português iria apontar o dedo à equipa pela incapacidade de gerir uma vantagem de três golos nos últimos dez minutos. Ao invés, Mourinho preferiu dar mérito à capacidade dos hammers, dizendo apenas que todos os erros próprios (e não foram poucos) seriam analisados no plano interno. Apesar da deceção, que custou a subida ao segundo lugar da Premier League, o Tottenham melhorou. Deu um passo em frente. E o técnico quis agarrar-se mais a esse ponto para, a partir daí, continuar a construir uma equipa que seja também consistente nos momentos adversos do jogo.

Somos uma equipa em evolução. Acredito que ninguém jogou melhor do que nós com a bola. O que é uma grande evolução em relação à temporada passada. Somos uma equipa muito entusiasmante para quem vê e esse é o ADN que queremos ter. Mas jogar bem não é suficiente, precisamos de jogar por um resultado e temos que aprender a fazê-lo”, resumiu o português esta quarta-feira.

“Podemos jogar mais 50 jogos e, estando a ganhar 3-0 aos 80 minutos, não voltamos a empatar. Não vale a pena agarrarmo-nos a essas histórias, a essas superstições… Temos de defender melhor do que fizemos com o West Ham. Mudanças na equipa? O único jogador que digo que vai ser titular está ao meu lado. É o [Davison] Sánchez. Só não lhe perguntem pelo autogolo fantástico que ele fez…”, comentou ainda a propósito do encontro de domingo, virando atenções para o arranque da Liga Europa, uma prova que o levou a puxar dos galões que mais nenhum tem. “Esta é a terceira vez em que participo nesta competição. Nas outras duas, com o FC Porto [2002/03] e com o Manchester United [2016/17], vencemos. Por isso diria que o recorde nesta Liga Europa é bom, tendo em conta que nunca fui eliminado”, acrescentou José Mourinho antes da partida frente ao “carrasco” do Sporting.

A entrada na prova dificilmente poderia ser melhor. Apesar de ter feito várias alterações na equipa que iniciou o encontro frente ao West Ham, com Lucas Moura e Gareth Bale no apoio ao estreante Carlos Vinícius na frente, o Tottenham chegou com relativa facilidade ao 2-0 em meia hora, com o brasileiro emprestado pelo Benfica a assistir Lucas Moura para o golo inaugural já depois de ter cabeceado perto do poste (18′) antes de ver Andrés Andrade marcar na própria baliza quando o mesmo Vinícius se aprestava a encostar na área após assistência de Gareth Bale (29′). E para carimbar um cenário igual ao do último domingo mas sem margem de reviravolta, seria de novo o brasileiro a fazer a assistência para Son carimbar o 3-0 final. Nos 86 minutos de estreia, o reforço dos spurs só tentou um único remate mas conseguiu criar cinco oportunidades e teve interferência direta no resultado.