A entrada do Tottenham na nova temporada com apenas dois reforços capazes de entrar na equipa (Matt Doherty e Höjberg) não foi propriamente a mais auspiciosa, quer a nível de exibições, quer nos resultados. É certo que pelo meio houve uma goleada fora com o Southampton mas a equipa perdeu cinco pontos nos dois primeiros encontros em casa na Premier League (derrota com o Everton, empate com o Newcastle) e não foi também convincente nos triunfos frente a Loko Plovdiv e KF Shkendija 79 que valeram a chegada ao playoff de apuramento para a fase de grupos da Liga Europa. Depois, num jogo que pareceu estar perdido, os londrinos derrotaram em casa o Chelsea nos penáltis e chegaram aos quartos da Taça da Liga. E foi essa a partida do clique para José Mourinho.

1-6, quatro golos na primeira parte, números inéditos em 30 anos: Mourinho atropela Manchester United em Old Trafford

Esse triunfo arrancado a ferros que teve ainda pelo meio o bate-boca do português com Frank Lampard e a ida à casa de banho para ir buscar Eric Dier funcionou como ponto de viragem na carreira dos spurs, que entretanto começavam a enquadrar Reguilón e Gareth Bale (que chegou lesionado) na equipa. A goleada ao Maccabi Haifa na Liga Europa apenas 48 horas depois do encontro da Taça da Liga começou a mostrar isso mesmo, a goleada em Old Trafford diante do Manchester United reforçou essa ideia. A paragem para compromissos das seleções pode nem ter chegado na melhor altura mas o Tottenham surgia em crescendo, melhor e com um jogo mais sólido. A maior evolução registou-se no plano coletivo; a melhor evolução foi individual e com um nome: Harry Kane.

O avançado motivou algumas trocas de palavras entre Mourinho e Gareth Southgate, o selecionador inglês. Antes da última concentração, o português pediu para que o seu capitão não jogasse todos os encontros que a equipa tinha previsto, contra País de Gales, Bélgica e Dinamarca, por forma a não haver qualquer quebra física num início de época que se seguia a uma larga ausência por uma lesão muscular que afastou o número 10 por largas semanas. “A época como um todo é um enorme desafio para clubes e seleções, por isso temos de trabalhar em conjunto. E tudo o que o José [Mourinho] precisa é de assegurar que em abril e maio… Ele tem de tomar conta do Harry Kane por nós porque vai haver 55 milhões de pessoas a contar com isso, por isso é óbvio que funciona para os dois lados”, respondeu o antigo central britânico, entre algum humor para “quebrar o gelo”. “Posso prometer que, da minha parte, não vai jogar um único minuto que seja num particular”, respondeu o português.

Na conferência de imprensa de antevisão à receção ao West Ham, Mourinho já não foi pela questão Kane mas não deixou também de enviar “farpas” para outros treinadores. “Tirando um treinador ultraprivilegiado que pode ter tudo o que quer, principalmente nessas equipas que não cumprem o fair play financeiro, o mercado para nós é sempre quase… Mas foi fantástico”, destacou, a propósito de uma janela de transferências que mesmo no final ainda fez chegar o defesa Joe Rodon, do Swansea. “Não entro na biografia de Wenger? Isso é porque ele nunca me ganhou. Não vais fazer um capítulo sobre 14 jogos que não ganhaste, por isso, por que motivo haveria de falar sobre mim no livro? Um livro é suposto fazer-te sentir orgulhoso”, atirou sobre o ex-técnico do Arsenal.

Aos poucos nota-se um José Mourinho mais confiante, mais presente e mais confortável na Premier League do que aquele José Mourinho que chegou a Londres há quase um ano. E nota-se, ainda mais, um José Mourinho a sentir que as coisas lhe começam a correr de feição em termos de resultados e de consistência, como se viu mais uma vez no início do jogo com o West Ham. A consolidação do meio-campo com Höjberg e Sissoko na frente da defesa e Ndombelé a fazer a ligação ao ataque funcionou bem, havendo outro tipo de envolvimento dos laterais no jogo ofensivo pelos movimentos mais interiores dos alas (hoje Bergwijn e Son). Depois, apareceu o do costume.

Bastaram 16 minutos para o internacional inglês decidir a partida com dois golos e uma assistência. Logo a abrir, dentro do primeiro minutos, Kane saiu da zona dos centrais, recebeu bem de Ndombelé no espaço entre linhas, lançou longo em Son e o sul-coreano puxou para dentro fazendo um remate em arco; pouco depois, num grande trabalho individual, o avançado tirou um adversário da frente à entrada da área colocando-lhe a bola entre as pernas e rematou sem hipóteses para Fabianski (9′); por fim, numa boa jogada coletiva pela esquerda, Reguilón cruzou ao segundo poste e o capitão encostou de cabeça (16′). A partida podia ser gerida de outra forma e foi isso que aconteceu, entre algumas ameaças dos hammers e a estreia de Gareth Bale, entrando a marcar logo um livre direto que saiu à figura do guarda-redes contrário (72′). E ainda houve uma bola ao poste de Kane.

No entanto, e como acontecera com o Newcastle, o Tottenham colocou-se a jeito ao não matar o jogo e mostrou aquele que é o seu principal calcanhar de Aquiles (além da defesa): o controlo emocional ou a falta dele. E bastou o West Ham reduzir para 3-1 por Balbuena aos 82′, de cabeça, na sequência de um livre lateral, para tudo mudar de forma drástica, impedindo que os spurs conseguissem ascender ao segundo lugar da Premier League: Davison Sánchez fez um autogolo após cruzamento da direita entre muitas facilidades concedidas pelos visitados e Lanzini apontou mesmo o empate no último lance da partida, num fantástico remate de fora da área (90+4′). Mourinho, de pé, nem queria acreditar no que via. E continua sem vencer em casa para o Campeonato.

“Prefiro dar crédito à crença deles porque estar a perder por 3-0 e continuar a acreditar… Merecem todo o crédito. Para nós foi uma derrota de 3-0 na segunda parte, o que significa que não fomos tão bons quanto no primeiro tempo e fomos castigados por isso mesmo. Tivemos o 4-0 quando o Harry Kane atirou ao poste, tivemos também o 4-2 por Bale. Todos pensámos que o jogo estava controlado mas não estava. Um lance de bola parada trouxe-os de volta ao jogo e o terceiro golo é fantástico mas completamente fora do contexto. Quero analisar o jogo internamente mas para já prefiro dar crédito ao adversário”, comentou José Mourinho após o encontro.