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Ora passa os dias num gabinete bem posicionado na sede do PS/Açores, no bairro da Vitória, a gerir à distância toda a logística da campanha eleitoral socialista, ora aparece a meio de uma ação de campanha de Vasco Cordeiro em São Miguel, para ver como estão a correr as coisas. Chega sozinho, de carro, fica sempre para trás. Quando é preciso dar alguma informação importante ao candidato vai para a linha da frente.

Francisco César, 41 anos, foi diretor de campanha de Vasco Cordeiro nesta corrida eleitoral que termina domingo com a ida às urnas; é líder parlamentar do PS nos Açores desde março do ano passado e pode ser o nome que se segue na liderança do PS/Açores, já que o atual presidente do Governo Regional se prepara para entrar no seu terceiro e último mandato à frente dos destinos açorianos. Problema: é filho de Carlos César, que foi Presidente do Governo Regional dos Açores durante 16 anos e que ainda não saiu de cena.

Ainda esta sexta-feira, em Rabo de Peixe, freguesia da Ribeira Grande, pai e filho apareceram juntos na mesma cena. Era o último dia de campanha eleitoral e Carlos César tinha ido juntar-se à comitiva socialista para percorrer as ruas agitadas de uma das freguesias mais pobres da ilha de São Miguel. “Já vi que ele anda aí”, atira o pai, referindo-se ao filho, quando questionado pelo Observador. Desvaloriza. Os dois não querem aparecer juntos na mesma fotografia. Um vai na frente, lado a lado com o candidato, o outro vai ficando para trás, como costume em toda a campanha.

César, pai, ironiza ao Observador que sobre sucessão só tratou de uma, a sua. Geneticamente falado. E nessa matéria, a César segue-se naturalmente César. Quanto ao resto, nem sim nem sopas. Não é tema. Não há nada para dizer. Vasco Cordeiro, por sua vez, arregala os olhos à pergunta do Observador, mas põe a cassete da resposta: “Vamos aguardar por domingo”. Como quem diz que, para falar no pós-Vasco Cordeiro, é preciso haver Vasco Cordeiro num terceiro e último mandato.

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Mesmo aguardando por domingo, até entre os corredores da oposição açoriana ninguém é surpreendido perante o nome de Francisco César, que já tinha sido criticado por chegar à liderança da bancada do PS no Parlamento açoriano, em março do ano passado, em substituição de André Bradford, entretanto falecido, que integrou a lista do PS ao Parlamento Europeu. O nome continua a ser alvo de críticas, por dar a ideia de que os Açores são, em parte, dominados pela família de César, mas é tido como natural.

Ninguém o admite, mas a verdade é que a ideia de o PS estar a começar a preparar terreno para a sucessão é dada como certa. João Ponte, atual secretário regional da Agricultura e Florestas, é outro nome falado, como referia o jornal Expresso na edição da semana passada, mas sem tanto eco no PS. Menos ainda no PS nacional.

Francisco César, por sua vez, é frequentador dos corredores socialistas do continente. É da ala mais à esquerda do PS, amigo de Pedro Nuno Santos e de Duarte Cordeiro, fazendo parte do grupo que ficou conhecido como “os jovens turcos”. Além disso, não bastando ser filho de César, que é muito próximo de Costa, foi, juntamente com o atual secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, diretor de campanha eleitoral de António Costa em 2015, quando o atual primeiro-ministro formou a inédita coligação de esquerda depois de o PS não ter sido a força política mais votada nas eleições. Antes disso, tinha sido um dos coordenadores da última campanha presidencial de Mário Soares e diretor de campanha de Manuel Alegre na eleição seguinte. Tem experiência de terreno, tem experiência parlamentar, mas não tem experiência executiva.

Ao Observador, o próprio rejeita falar sobre o assunto, à semelhança do pai. Não é tema. Mas um cargo num futuro executivo regional — que, segundo sugeria o jornal Expresso, deve ser condição para voos futuros — não seria uma tarefa a que o homem de terreno de Vasco Cordeiro devesse virar a cara. Vasco Cordeiro é o primeiro a dizer que a renovação nos governos socialistas dos Açores é uma constante, e que a composição do próximo governo não será igual à anterior.

Certo é que, embora ninguém fale de sucessão quando Vasco Cordeiro ainda nem sequer foi eleito para os seus últimos quatro anos, a sucessão é uma questão presente. Na memória dos socialistas está a forma como o PSD ficou quando Mota Amaral deixou o partido em 1995: fragmentado e sem se conseguir aguentar de pé. De lá para cá o PSD mudou oito vezes de líder e há 24 anos que está a tentar recuperar dessa saída sem sucessão interna acautelada. O PS, primeiro com César e depois com Cordeiro, está no poder nos Açores há mais tempo do que Mota Amaral esteve sozinho, mas é também com os outros que se aprende. Depois de domingo, faltam quatro anos para começar um novo ciclo.