O ciclismo tem uma parte “falsa” na sua análise onde muitas vezes o que é não parece e o que parece não é. Por exemplo, o australiano Rohan Dennis, que entrava na última etapa em contrarrelógio em Milão na 36.ª posição a mais de duas horas da liderança, foi dos corredores mais importantes no desfecho da Volta a Itália e só apareceu em dois dias cirúrgicos, na passagem pelo Stelvio e nas subidas em Sestriere. Sem ele, tudo seria diferente.

Almeida tem mais uma etapa fabulosa e passa último teste: Portugal (e o pelotão) ganhou um corredor para três semanas

A Ineos chegaria à 21.ª tirada apenas com a esperança de Filippo Ganna confirmar o seu favoritismo e pouco mais; com ele, Tao Geoghegan Hart lutava pela rosa e aquilo que parecia ser um Giro completamente falhado depois da desistência de Geraint Thomas podia tornar-se numa prova de sonho. Na Team Sunweb, onde Wilco Kelderman parecia o número 1 para tentar a vitória, Jai Hindler deixou o companheiro, foi à procura da liderança e chegava ao contrarrelógio com esse peso extra de não poder falhar – caso isso acontecesse, seria um falhanço crasso; se ganhasse, a tática tinha sido genial. Depois, no meio dos “tubarões”, aparecia João Almeida. Um nome que entrou como um foguete no quotidiano no Giro mas que não vai desaparecer depois desta última etapa em Milão.

Há uma nova estrela no desporto nacional: João Almeida em segundo na primeira etapa do Giro (apenas superado pelo campeão mundial)

Formatado apenas para ser mais um numa equipa que seria mais uma, o português começou por destacar-se logo no contrarrelógio inicial em Palermo, ficando apenas atrás do campeão mundial Filippo Ganna. Dois dias depois, no Etna, acendeu-se o vulcão: o ataque do colombiano Jonathan Caicedo trocou todas as contas, os principais candidatos ficaram partidos e João Almeida resgatou sem apoio da equipa na parte final um 11.º lugar que lhe valeu a subida à liderança com uma vantagem de menos de um segundo. A partir daí foram 15 dias com a camisola rosa, a fintar por completo a pressão, a dar demonstrações de classe para ganhar mais segundos nas bonificações como aconteceu em Camigliatello Silano e Tortoreto, a conseguir mais tempo num contrarrelógio mais longo do que todos os que tinha feito como o de Valdobbiadene. Até na subida a Piancavallo, com Jai Hindley a puxar por Kelderman e Geoghegan Hart a lutar pela vitória, foi à luta, ficou em quarto e aguentou-se. A passagem pelo Stelvio acabou com o fim do sonho numa vitória impossível mas foi uma janela de oportunidade para o futuro.

Histórico: João Almeida torna-se o segundo português de sempre a ter a camisola rosa no Giro

Este sábado, com movimentações na subida da Deceuninck Quick-Step que fizeram a diferença que noutras etapas não existiram, João Almeida deixou Wilco Kelderman e Pello Bilbao para trás, foi sozinho na parte final da terceira subida a Sestriere e reentrou na luta por algo mais do que o quinto lugar na classificação geral. Isto, mais uma vez, na etapa em que todos apontavam ao perigo de Nibali e Fuglsang lutarem para entrar no top 5 da geral. Mais uma demonstração épica de que esta Volta a Itália constitui tudo menos uma obra do acaso. “Sofremos um pouco, sabendo que estava a tentar escapar na frente. É emocionante e faz-nos vibrar com ele. É um grande orgulho e tudo isto que ele está a viver é mérito do trabalho dele. Ele conquistou muita gente e trouxe alegria à vida das pessoas num momento muito difícil”, comentou a mãe, Ana Patrícia, à reportagem do Record em Sestriere.

Dia de sonho para o ciclismo nacional: Rúben Guerreiro ganha etapa e João Almeida defende liderança no Giro

João não plantou apenas a semente para o futuro e trabalhou para fazer crescer a árvore dos feitos no ciclismo internacional no presente. Com as devidas diferenças, e comparações à parte entre adversários, percursos, meios de comunicação e a técnica de subida nas montanhas, ao longo de três semanas o corredor de A-dos-Francos teve um impacto grande como Joaquim Agostinho conseguiu ter na década de 70 no País que adotou um jovem de 22 anos com uma história de encantar que ninguém conseguiria prever. O currículo de Tino, um dos maiores desportistas nacionais de sempre que, entre outros feitos, acabou duas vezes no pódio do Tour e uma no segundo lugar da Vuelta entre sete vitórias em grandes Voltas, está muito longe de ser atingido. O impacto em termos internacionais também. Mas Portugal parece ter ganho um corredor de três semanas, uma das poucas lacunas numa modalidade a crescer que teve uma medalha olímpica (Sérgio Paulinho) e um campeão mundial (Rui Costa) nos últimos 20 anos. E já são muitas as expetativas para o que se segue na vida extra Giro.

“Não sei se Ronaldo nos conhece mas espero que esteja orgulhoso”: a festa de Rúben e João num dia histórico para o ciclismo

Partindo com a quinta posição consolidada, tendo Fuglsang, Nibali, Konrad ou Pozzovivo a pelo menos mais de três minutos, e já a 1.32 minutos do terceiro classificado, Wilco Kelderman, Almeida partia com dois objetivos para os últimos 15,7 quilómetros do Giro: repetir o top 3 do contrarrelógio de Palermo, o que seria outro resultado excecional tendo em conta o contexto da última etapa, e ganhar o quarto lugar na geral a Pello Bilbao que estava a 23 segundos de distância. Falhou a primeira meta, que mais não era do que um simples número, ganhou no que mais interessava: deixando o espanhol a grande distância, o português tornou-se o melhor de sempre no Giro chegando ao quarto lugar, melhor do que o quinto de José Azevedo em 2011, e conseguiu outro feito notável de ter terminado no top 10 em mais de metade das 21 etapas (11). Verdadeiramente notável, em dia de festa para Tao Geoghegan Hart e para a Ineos (que ganhou com Ganna) e de grande desilusão para a Team Sunweb, que acabou com Jai Hindley e Wilco Kelderman em segundo e terceiro, respetivamente.

Histórico: João Almeida em quarto no Giro (melhor que José Azevedo), Rúben Guerreiro conquista camisola azul

Mas a história deste Giro de 2020 não se resume apenas à epopeia de João Almeida. Aliás, vai ser recordada anos a fio por outro ponto que muitas vezes pareceu ser secundário mas que se tornou um feito histórico para o ciclismo nacional: Rúben Guerreiro, que na alta montanha de Roccaraso ganhou uma etapa 31 anos depois do sucesso de Acácio da Silva no vulcão Etna, tornou-se o primeiro português de sempre a ganhar uma camisola numa grande Volta, numa grande disputa com Visconti (que acabou por abandonar mais cedo por problemas físicos) onde teve várias demonstrações de força concluídas com um positivo 13.º lugar em Sestriere, onde chegou com nomes como Nibali ou Pozzovivo. Numa boa prova da EF Pro Cycling, o corredor de Pegões destacou-se.

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