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Quando era pequeno, em Salónica, Albert Bourla só queria saber de cantar, tocar guitarra e tratar dos animais da família, dona de um negócio de venda de licores por que nunca se interessou profissionalmente. Assim que cresceu, tratou de estudar para isso e, na Faculdade de Veterinária da Universidade Aristóteles, naquela cidade grega, tirou o curso e especializou-se em medicina reprodutiva logo a seguir.

Tinha 31 anos quando foi contratado para o departamento de Saúde Animal da gigante farmacêutica Pfizer. A partir daí a sua carreira descolou — para cima e para o lado: a saúde animal deu lugar à humana e, ao longo dos últimos 27 anos, o grego tornou-se numa espécie de autoridade mundial na área das vacinas e da imunologia.

Agora, que é CEO da multinacional, a par da AstraZeneca, que está a desenvolver a chamada vacina de Oxford, uma das mais bem colocadas para ganhar a corrida à vacina para a Covid-19, Albert Bourla pode entrar para a história.

“Ser CEO de uma empresa farmacêutica que pode fazer a diferença numa crise como estas é um peso muito grande”, reconheceu em maio em entrevista à revista Forbes, que escolheu pô-lo na capa. “Até a minha filha e o meu filho me perguntam: ‘Tens alguma coisa ou não?’ Toda a gente que me conhece faz o mesmo. Sentes que, se acertares, podes salvar o mundo. E se não acertares, não podes.”

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Como há seis meses, o grego continua a garantir que ainda é possível chegar à meta mesmo a tempo do Natal. Através do Twitter explicou no fim de outubro que a terceira fase de testes da vacina, que está a ser desenvolvida pela farmacêutica americana e pela empresa de biotecnologia alemã BioNTech, deverá ter resultados ao longo da terceira semana de novembro. Ao todo, mais de 42 mil voluntários em 150 localizações diferentes fazem parte dos estudos — cerca de uma centena deles são crianças de 12 anos, vacinadas também no final de outubro num hospital pediátrico em Cincinnati, nos Estados Unidos, denunciou à data a CNN.

CEO desde 2018, Bourla chegou ao topo da Pfizer depois de 25 anos de uma escalada em que passou pelos cargos de chefe mundial da empresa para a área das vacinas, presidente do departamento de Innovative Health e de COO (diretor de operações). O seu currículo foi recentemente citado pelo El Mundo, que também recuperou parte do texto que a Reuters publicou aquando da sua nomeação para o mais alto cargo dentro da empresa: “Bourla é o candidato ideal para CEO. Quando era responsável pela Innovative Health, que trata dos medicamentos mais recentes e protegidos por patentes, a unidade registou um aumento de 8% nas receitas, atingindo os 31 mil milhões de dólares”.

Ele próprio milionário, Albert Bourla, agora com 58 anos, é conhecido pela discrição e reserva: sabe-se que é casado e que tem dois filhos, pouco mais. No trabalho, será compreensivo mas também muito exigente. Quando, a meio de março, fez uma videoconferência com os responsáveis pelas equipas de investigação e desenvolvimento de vacinas da Pfizer — que por acaso até tinham passado a noite toda em claro a trabalhar, contou à Forbes — e os ouviu dizer que podiam ter a vacina para a Covid-19 pronta em 2021, Albert Bourla respondeu-lhes que não podia ser. “Not good enough“, “não chega”.

“Pensem de forma diferente”, disse-lhes. “Pensem que o livro de cheques está aberto, e que não precisam de se preocupar com coisas dessas. Pensem que vamos fazer as coisas em paralelo, e não sequencialmente. Pensem que vão ter de tratar do desenvolvimento e produção de uma vacina antes de saber o que está a funcionar. Se não funcionar, deixem que eu me preocupe com isso, vamos parar e deitar tudo fora.”

Daqui a cerca de 15 dias o mundo deverá saber se o método resultou.