A companhia aérea TAP agravou os prejuízos nos primeiros nove meses do ano para 700,6 milhões de euros, depois do prejuízo de 110,8 milhões de euros no mesmo período de 2019, foi esta segunda-feira comunicado ao mercado. Estes números são conhecidos numa semana vital para a TAP quando os sindicatos vão reunir com o ministro das Infraestruturas para discutir as medidas de reestruturação previstas no plano que terá de ser entregue à Comissão Europeia até à próxima semana. Já há informação parcelar sobre os objetivos de redução de custos e de trabalhadores nas principais classes profissionais da empresa.

Cortes salariais de 25%, operação a meio gás e pelo menos 2.000 despedimentos. O que já se sabe do plano da TAP

Segundo a informação disponível no comunicado enviado esta segunda-feira à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), referente às contas da TAP S.A., parte integrante do Grupo TAP, o resultado líquido dos primeiros nove meses deste ano cifrou-se em -700,6 milhões de euros.

O resultado significa um agravamento dos prejuízos em 589,8 milhões de euros relativamente ao mesmo período do ano passado, para o qual contribuíram os 118,7 milhões de euros de resultados negativos no terceiro trimestre deste ano. Em termos de EBITDA (rendimentos antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), os prejuízos da TAP atingiram os 172,9 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, um agravamento face aos lucros de 388,7 milhões de euros registados em igual período de 2019.

Já os resultados operacionais da companhia registaram, nos primeiros três trimestres deste ano, um prejuízo de 610,2 milhões de euros, uma variação negativa de 653,8 milhões de euros face aos lucros de 43,6 milhões de euros registados em igual período de 2019.

O terceiro trimestre de 2020 iniciou-se como uma recuperação na procura, mas essa tendência foi revertida em meados de agosto, na sequência das novas restrições à mobilidade impostas nos vários países e destinos em que a TAP opera”, pode ler-se no comunicado enviado esta segunda-feira pela empresa liderada por Ramiro Sequeira.

Segundo a empresa, “as reservas de bilhetes e o load factor [relação entre uma carga específica e o peso total de aeronave] registados na primeira metade do terceiro trimestre, impulsionados pelo tráfego de lazer nas rotas europeias de médio curso e pelo segmento VFR (‘Visiting Friends & Relatives’) [visitas a amigos e família] no longo curso, foram encorajadores e contribuíram para manter os níveis de ocupação estáveis quando comparados com o segundo trimestre”.

No entanto, a recuperação “foi revertida pelas novas restrições às viagens e pela queda da procura associada ao aumento dos casos de Covid-19”. “Os indicadores do terceiro trimestre evidenciam que ajustamentos mais profundos terão de ser realizados para reduzir a diferença entre a queda das receitas operacionais e o corte de custos”, antecipa a empresa, que tem de apresentar um plano de reestruturação à Comissão Europeia até dia 10 de dezembro.

A TAP assinala “progressos importantes” no ajustamento de gestão que está a fazer, através de “medidas de proteção da sua posição de caixa, nomeadamente através do reforço de iniciativas para conversão de custos fixos em variáveis, renegociação de acordos comerciais e respetivos prazos de pagamento, suspensão de investimentos não essenciais e não renovação de contratos de trabalho a termo”.

“Os pagamentos associados ao leasing operacional de aeronaves caíram 43%, quando comparados com igual período do ano passado, refletindo as negociações com lessors para diferimento de pagamentos e reduções de rendas”, aponta a TAP, que espera uma poupança de 175 milhões de dólares (cerca de 146,4 milhões de euros) em 2020 relativa ao leasing operacional de aviões.

A companhia calcula ainda que “no acumulado dos primeiros nove meses de 2020, o número de passageiros caiu 70% [menos 9,1 milhões de passageiros], a oferta (ASK) 64% e o ‘load factor’ 12,5 pontos percentuais, ficando nos 68,5%”. Os custos operacionais reduziram-se em 41% no final de setembro face ao mesmo período do ano passado (queda de 2.446,4 milhões de euros para 1.451,4 milhões de euros), com o contributo da redução de 59% no terceiro trimestre, correspondente a uma descida de 912,6 milhões de euros em julho, agosto e setembro em 2019 para 377,8 milhões no mesmo período de 2020.

Menos 729 trabalhadores a termo e custos com pessoal caem 200 milhões de euros até setembro

Os custos com pessoal da TAP, S.A. diminuíram 39,1% até setembro face ao mesmo período de 2019, correspondendo a 200 milhões de euros, tendo 729 trabalhadores com contratos a termo saído da empresa, segundo os resultados hoje divulgados.

Segundo a demonstração de resultados da TAP, hoje comunicados à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), a companhia passou de custos de 511,7 milhões de euros nos três primeiros trimestres de 2019 para 311,7 milhões de euros até setembro deste ano, uma descida de 39,1%. Já nos números que apenas dizem respeito aos meses de julho, agosto e setembro, “os custos com pessoal foram reduzidos em 49% face a igual período de 2019″, pode ler-se no comunicado hoje enviado pela TAP ao mercado.

“Para esta redução contribui também a não renovação de contratos a termo. Até ao final de setembro de 2020, 729 trabalhadores viram os contratos atingir o seu termo e deixaram a TAP”, pode ler-se no comunicado.

Segundo os principais indicadores operacionais divulgados pela companhia, no quadro de pessoal ativo, que não inclui pessoal sem colocação e não ativo, a TAP contava com 8.510 trabalhadores em setembro deste ano, menos 429 que os 8.937 no mesmo período de 2019. “A TAP recorreu ao longo do terceiro trimestre ao Apoio Extraordinário à Retoma Progressiva”, com “um mecanismo de redução do horário de trabalho entre 70% e 5%”, refere. A empresa explica que “este novo regime foi um contributo muito importante, mas a natureza temporária deste enquadramento torna imperativa a adoção de soluções permanentes, a serem alcançadas através das negociações com os sindicatos representativos dos trabalhadores da TAP”.

A frota da TAP já teve reduções este ano, passando “de 108 aviões no segundo trimestre para 101 aviões no terceiro trimestre, de acordo com o documento agora revelado.

O ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, anunciou no parlamento, em 4 de novembro, que “a primeira fase” do plano de reestruturação da TAP estava concluída e que as negociações com os sindicatos iam arrancar.  “Temos uma companhia aérea que está sobredimensionada para a realidade atual e temos de conseguir um processo restruturação que garanta que a companhia aérea vai ser viável e sustentável”, defendeu Pedro Nuno Santos no parlamento.

Companhia prevê redução da operação entre 60% e 70% durante o inverno

A TAP prevê a redução de operação entre 60% a 70% no período de inverno 2020/2021 face ao ano passado, de acordo com o comunicado dos resultados da TAP S.A. hoje conhecidos.

“A TAP estima que a redução da sua capacidade operacional no período de inverno 2020/2021 seja entre 60 e 70%, em comparação com o inverno anterior”, pode ler-se no comunicado enviado hoje à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Prevê-se que, nos próximos meses, a indústria da aviação na Europa continue a enfrentar um período de incerteza sem precedentes no que diz respeito à evolução da procura, pelo que a TAP estará pronta para fazer ainda mais cortes de capacidade, se necessário”, garante ainda a empresa no comunicado hoje divulgado.

No entanto, a companhia considera “encorajadoras” as notícias do surgimento de vacinas eficientes para a Covid-19 e de um plano de vacinação, que “a par com a possibilidade de aceitação e realização de testes pré-voo, podem indicar um caminho de recuperação das viagens aéreas internacionais”.

No dia 23 de novembro, a TAP anunciou que prevê operar cerca de 30% da sua capacidade em novembro e dezembro e reforçou as rotas com maior procura no Natal e Ano Novo, salientando que a operação fica “muito aquém” da anterior à pandemia.

“Reforçámos as rotas com maior procura nesta época [Natal e Ano Novo], ficando a operação, ainda assim, muito aquém da que se registava antes da pandemia”, referiu o presidente executivo da companhia, Ramiro Sequeira, numa mensagem enviada aos trabalhadores, a que a Lusa teve acesso.

“É neste contexto que a TAP prevê operar, em novembro e dezembro deste ano, cerca de 30% da sua capacidade, face a igual período do ano passado”, acrescentou o responsável.

O presidente da transportadora adiantou, ainda, que a operação do período de Natal e Ano Novo “está preparada para corresponder às necessidades” dos clientes que queiram passar o seu Natal em casa, apesar das restrições impostas para conter a propagação do novo coronavírus.

TAP recebeu 582 milhões de euros do Estado até ao final de setembro

A TAP recebeu, até ao final de setembro, 582,4 milhões de euros provenientes do Estado português, no âmbito do acordo para o auxílio à empresa iniciado em junho.

De acordo com o quadro referente a financiamentos e obrigações da empresa TAP S.A., que faz parte do Grupo TAP, em 30 de setembro a companhia tinha recebido 582,4 milhões de euros do Estado, fazendo esta parte da rubrica da dívida financeira, que ascende aos 1.992,4 milhões de euros.

As outras componentes dívida financeira são os empréstimos bancários e obrigações, que diminuíram de 1.083,4 milhões de euros no final de 2019 para 947,4 milhões de euros, e os passivos de locação com opção de compra, que aumentaram de 274,2 milhões de euros no final de 2019 para 1.699,4 milhões de euros no final de setembro.

No final de setembro, a TAP tinha em caixa e equivalentes 293 milhões de euros, abaixo dos 426,2 milhões de euros com que contava no final de 2019.

Já os passivos de locação financeira sem opção de compra diminuíram de 2.278,7 milhões de euros em 2019 para 2.159,7 milhões de euros em setembro deste ano.

A dívida financeira líquida da TAP S.A. ascendia a 1.699,4 milhões de euros em setembro, um aumento face aos 932,1 milhões de euros registados no final do ano passado.

A Comissão Europeia aprovou em 10 de junho um “auxílio de emergência português” à companhia aérea TAP, um apoio estatal de até 1.200 milhões de euros para responder às “necessidades imediatas de liquidez” com condições predeterminadas para o seu reembolso.

Em 2 de julho, o Governo anunciou que tinha chegado a acordo com os acionistas privados da TAP, passando a deter 72,5% do capital da companhia aérea, por 55 milhões de euros.

O Conselho de Ministros aprovou em 17 de julho a concessão de um empréstimo de até 1.200 milhões de euros à TAP, em conformidade com a decisão da Comissão Europeia.

No início de agosto, os acionistas da companhia aérea brasileira Azul, liderada por David Neeleman, aprovaram, em assembleia-geral, o acordo de saída da TAP, incluindo a eliminação de direitos de converter em ações das obrigações relativas ao empréstimo da Azul à TAP, realizado em 2016, de 90 milhões de euros, e a alienação da posição da Global AzurAir Projects na TAP.

Além do empréstimo remunerado a favor do Grupo TAP de 946 milhões – ao qual podem acrescer 254 milhões, sem que o Estado esteja vinculado a essa disponibilização -, envolveu a aquisição, por parte do Estado português, de participações sociais, de direitos económicos e de uma parte das prestações acessórias da atual acionista da TAP SGPS, Atlantic Gateway, SGPS, Lda.

No Orçamento do Estado para 2021 (OE2021), o Governo reservou um valor de 500 milhões de euros em garantias para a TAP, para que a empresa se possa eventualmente financiar no mercado, a juntar aos 1.200 milhões de euros já aprovados em empréstimos.

O ministro de Estado e das Finanças, João Leão, já admitiu que a companhia aérea TAP poderá precisar de mais do que os 500 milhões de euros inscritos no OE2021, considerando-o “um valor ainda indicativo e referencial” que “não é o pior cenário”, mas sim “o cenário base”.