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E o vencedor é da Tarde Política de sexta-feira, 04/09, com a Judite França, o Alexandre Borges e também o António Costa. Vamos começar por um dos assuntos que hoje foi tema do Conselho de Ministros, António Costa: a questão da venda da TAP esteve hoje em discussão com o governo a decidir negociar com as duas empresas que apresentaram propostas.
Sim, conseguimos falar de outra coisa. Extraordinário.
Eu até tive que ler aqui duas vezes os temas pra ver se estava certo ou se era uma coisa de há três meses ou quatro.
Exato. Acho que é uma notícia muito importante, porque o que está aqui em causa é que estamos a 15 dias de saber quem vai ser o acionista de referência da TAP e eu arrisco dizer, num quadro de normalidade, o novo dono da TAP a prazo, 100%, 80%, a mandar efetivamente na TAP. Isso não é uma coisa somenos. O desfecho propriamente dito era esperado. O ministro da Presidência, neste briefing, deu uma informação que não é irrelevante: é que as propostas estão muito próximas. Portanto, presume-se muito próximas no preço, sendo que são diferentes na sua natureza, o que também é interessante. Isto é, os dois viram as contas, estou a falar da Lufthansa e da Air France KLM, valorizaram a empresa ou os 45% que estão agora à venda mais ou menos no mesmo. Não se sabe qual é o valor, mérito do Governo, que conseguiu segurar esta informação, mas já temos uma ideia, porque o primeiro-ministro e o ministro das Infraestruturas, mas o primeiro-ministro de uma forma muito clara recordava-nos que a avaliação da TAP há uns dois anos, antes deste governo entrar em funções, andava entre os 600 e os 800, e os mil milhões de euros. Para tudo, para os 100%. E sinalizou-nos, o que nos sinalizou o primeiroministro? Que estes 45% estão dentro deste intervalo. Isto é o que já sabemos. Acho que cometeu um erro. Enfim, é aquela coisa voluntarista em que Luis Montenegro cai, que é trazer à discussãp que um dia destes vamos receber os 3,2 bilhões que lá pusemos. É um erro palmatório de um primo-ministro, de um político tão experiente. Por quê? Porque se for vendida a TAP, estes 45%, por 500, 600, 700 milhões de euros, é um número extraordinário. Estamos no meio de uma guerra. Ainda há meses, confesso, eu próprio admitia que o adensar da Guerra do Médio Oriente podia levar à suspensão, e foi avaliada politicamente pelos próprios consórcios na altura concorrentes, durante unos meses, do processo de venda, porque é evidente que o tema do jet fuel, do combustível dos aviões, pesa tanto no negócio que não sabia pra onde isso ia. Chegarmos a esta fase é um número, de fato, muito impressionante, o que não quer dizer que estejamos para recuperar os 3,2 bilhões de euros. O primoiro-ministro esqueceu-se, nós temos uma TAP boa e uma TAP má. Há uma TAP má que ficou lá para trás com mil milhões de euros, que nós vamos todos pagar à "long". Ainda temos um tema, temos nós todos portugueses, que é um tema sobre o empréstimo que a Azul, David Neeleman fez à TAP, que já vai potencialmente em 160 milhões de euros, que a TAP se recusa a pagar, mas aquilo tá em tribunal e se tivermos que pagar, obviamente, não vai ser o comprador que vai comprar a TAP a pagar, vai ser o Estado a pagar no âmbito dessa, vou lhe chamar assim, TAP má. Ora, é uma grande notícia, porque o contexto não está fácil. Para terminar, todos nos lembramos, foi há dois ou três dias, a TAP apresentou nos primeiros seis meses do ano quase 100 milhões de euros de prejuízo. Só pra quem acha que isto é um negócio fantástico, tem picos, é preciso muito capital. Mesmo as empresas, e nós fizemos no Eco um trabalho que eu acho que é interessante, que é comparar os resultados dos primeiros seis meses dos dois compradores e da TAP. Os dois compradores, a Lufthansa, os alemães e os franceses, também tiveram quedas muito significativas nos seus resultados, na ordem dos 50%, mas ainda assim estavam com lucros de 800 e passaram para 450, 500, creio, se a memória não me falha, da Lufthansa, e outro de 600 e tal milhões pra 300 milhões, mais coisa menos coisa. A TAP, pela estrutura que tem, por não ter a escala que esses outros têm, sofreu um abalo que levou a prejuízos de 100 milhões de euros e que eu acho que já torna impossível ter resultados positivos este ano, porque há muitos bilhetes, o verão é um pico, obviamente, mas os bilhetes são comprados muito tempo antes. Muita gente compra e vem muito tempo antes. Ora, comprou em tempo com preço que a TAP não tinha condições pra fazer refletir o aumento dos combustíveis que entretanto se verificaram. E, portanto, vendeu bilhetes que literalmente vão dar prejuízo, porque entretanto aumentaram os preços. Isso tem um efeito esse ano muito negativo. De fato, eu diria que mesmo nesse contexto, a condução política do Hugo Espírito Santo, também do Ministro Pinto Luz, mas do Governo, é surpreendente, porque acaba por haver aqui um desfeixo que eu próprio admitia como impossível ainda há meia dúzia de meses e, portanto, espero que daqui por duas semanas, 15 dias, três semanas, tenhamos a notícia. Eu faço aqui uma aposta: acho que vai ganhar a Lufthansa.
Por alguma razão, por que achas?
Porque a Lufthansa tem um projeto industrial muito forte em Portugal, lá no norte, a Teknik. Porque para mercados onde a França já está, onde a KLM já está, a Lufthansa não está, nomeadamente África e Brasil. Eu diria que do ponto de vista industrial, há uma coisa que será necessária. Eu espero que seja vendida a quem oferece mais. Essas coisas é muito simples, porque são dois grandes grupos. Não há equívoco sobre a legitimidade-
Qualquer um deles
...a idoneidade-
E a viabilidade
...a fiabilidade destes grupos. A Lufthansa é mais forte financeiramente que a Air France KLM. Há boa maneira de diferenciar se têm lá muito governo metido e muita intervenção do Governo.
Esse exemplo nós já tivemos cá. Precisamos de importar.
Por essas razões, mas esperando obviamente que a Lufthansa ponha mais €1, porque isso é importante, não é? Dizem menos.
Desta vez não vai ser só isso, mas na prática.
Tinha que haver uma razão muito forte para o Governo decidir vender a quem oferece menos. E eu não estou a ver condições tais, digamos assim, de projeto industrial, que pudessem justificar essa diferença. Veremos.
E sobre aquelas expectativas que Luís Montenegro colocou, salvo erro, na festa do Pontal, de que era recuperável esse dinheiro. Parece um pouco uma imprudência.
É uma imprudencia, primeiro porque retira o foco da boa notícia, que é esta: o que vai sair é 700 milhões, mas ainda falta muito para os 3.2 bilhões. É mesmo um disparate político absolutamente desnecessário, quando nós não temos, e por isto não disse, quais as contas que está a fazer implícitas. Vamos admitir que tenha as contas que suportem isso, ninguém tem e ele tem, e pelos vistos não quer dar, mais vale não dizer nada. Está a supor que vai vender por não sei quanto na segunda fase, que os dividendos vão ser extraordinários durante os próximos 30 ou 40 anos pro Estado recuperar o dinheiro. São tantas variáveis que está a matar uma boa notícia do próprio governo. Eu arrisco dizer que a censura moderna desta vez foi mesma feita por Luís Montenegro.
Não sei se alguém quer acrescentar algo sobre a venda da TAP. Querem que se venda,não é? E pronto. António, uma nota pra este processo, pra já.
Pra já dei um 14 ao governo, à Secretaria de Estado, Hugo Espírito Santo, e ao ministro. Creio que o Espírito Santo, secretário de Estado das Infraestruturas, tem conduzido muito este processo. Obviamente, politicamente, o ministro tem essa responsabilidade. Também não quero desvalorizar, apesar dos resultados desses 100 milhões, Apesar de tudo, esta gestão da TAP, neste contexto, é difícil gerir uma empresa que está à venda. É fácil de imaginar. Portanto, também uma nota positiva pra gestão da TAP.
Alexandre, queres nos falar sobre a falta de silêncio, sobretudo à noite?
Queria continuar nos aviões, mas numa coisa mais comozinha, adimito.
Não é nada comozinho.
Muito incomodante.
Também tenho coisas a dizer.
Ótimo! Não sei onde é que vocês vivem.
Só pra me queixar también.
Não sei onde é que vocês vivem. Não precisamos de o revelar, mas eu pessoalmente vivo muito perto daqui do sítio onde estamos e que é muito perto, de fato, do aeroporto. E a verdade é que eu tinha regressado de férias no dia 17 de agosto e não estava a acreditar no que estava a acontecer, verdadeiramente. E pensei: Isto sou eu? Porque é muito difícil como é vivido, até porque depende das condições atmosféricas, o nível do ruído que os aviões fazem. Mas eu achava: "Sou eu que estive 15 dias fora?" E perdi a noção. Estive nos Açores, na ilha que tem a Base das Lajes, portanto, apesar do que se possa imaginar sobre os aviões americanos de guerra.
Aquilo era baixo sossegado.
Era bastante baixo sossegado. E eu não estava a acreditar. Eis a confirmação que, de facto, algo de extraordinário se passava durante essa semana. Era hoje notícia do Público, a partir dum relatório da Zero, elaborado pela Associação Zero.
Mas é com base na Flight-
Na Fight Radar
Na Flight Radar, exatamente.
Não são números oficiais, mas enfim, vamos aceitá-los como vores.
Vamos aceitá-los, exato.
Até porque tu estás a vivê-los.
Eu estou a vivê-los, tal e qual. E eu sou um testemunho na reportagem. A Zero anunciou o lançamento de uma plataforma, a partir dos dados da FlightRadar, onde as pessoas podem avaliar, contabilizar os movimentos no Aeroporto Humberto Delgado e, portanto, a partir daí, se assim o entenderem, usar esses dados para fazerem caixas à ANAC ou à APA, Agência Brasileira do Ambiente, que seriam as entidades responsáveis por fazer alguma coisa com essas caixas, em teoria. Mas vamos aos números. Os números são estes, eu acho que são, de fato, espantosos. Em 35 semanas desde que este ano já teve, em 35, o Aeroporto de Lisboa cumpriu o limite de voos noturnos em duas semanas. Em 35 semanas, em 33 não cumpriu. O limite que temos atualmente não são exatamente umas balizas extraordinárias. Entre a 1h e às 6h só pode haver 91 voos semanais. Foi isto que foi cumprido duas vezes. Aliás, entre meia-noite e às 6h só pode haver 91 voos por semana e, da 1h às 5h, durante estas loucas quatro horas, a promessa do governo há dois anos era de silêncio total, não haver um único voo. Pois nesse horário, onde não devia ter havido um único voo, houve até agora, início de setembro, 1165 voos. E nesta semana em particular, essa semana em que eu por azar regressava de férias. Agosto foi o pior mês de todos. Não me parece um acidente. Terá a ver com muita coisa, particularmente com o turismo em Lisboa, mas provavelmente com se explorar a ideia de que está menos gente na cidade e isto vai-se notar menos. Houve uma semana em particular, que é esta, 17 a 23, em que houve 187 movimentos noturnos, 187 voos no tal horário em que só poderia ter havido 91. Portanto, é uma ligeira derrapagem de mais do dobro numa semana. Há muitos pontos sobre isso, mas o ponto, no fim, é este: como o Estado está nas tintas? E é um daqueles exemplos muito simples de como em Portugal só os cidadãos é que têm de cumprir a lei, senão são perseguidíssimos e multados. O Estado está se aborrifar. Eu podia dizer assim: é para o lado que o Estado dorme melhor, mas é se o Estado por acaso dormir longe do aeroporto, porque senão também não iria conseguir. Os números da Zero dizem quando isto, de facto, lá aparece comme z'impe, usar a palavra que eu usava no início. Os números da Zero dizem que há 365 mil pessoas expostas a este ruído, 60 mil em particular a suportar os limites superiores ao limite legal. Calculam os estragos, não sei bem como é que este número é elaborado, mas é um número eloquente, em 12,8 mil milhões de euros, o impacto causado em efeitos para a saúde das pessoas, perda de produtividade, que será talvez o dado mais interessante, e até na desvalorização imobiliária. Eu posso confessar que eu durante essa semana pensei vender a casa. A verdade foi esta. Só que pensei: onde é que eu vou comprar outra? Quer dizer, olha os preços das casas.
Mas tens que ter visitas durante o dia, porque senão amual pessoa
Não me dão nada.
Não te preocupes que isto de noite é silencioso.
Exatamente. Isto à noite é calmissimo. Só para dar as questões sobre o estado que está em questão. Isso foi em 24, que Miguel Pinto Luz anunciou estes límites noturnos, em particular o hard night curfew, portanto, este lockdown noturno. Diz?
Da 1h às 5h.
Da 1h às 5h, exatamente. Nunca foi legislado, na realidade. Em março de 2025 reafirmaram que isto aconteceria, esta norma, determinaram que a ANAC faria a operacionalização das restrições. Mas na verdade, ninguém sabe que coimas é que existem, se são aplicadas, se não são.
Houve coimas, sim.
Houve coimas aplicadas? Ok.
Mas vamos lá ver. Depois entra no processo de contestação. Por quê? Porque obviamente não desvaloriza o teu sono.
Exato.
E o impacto do teu sono e dos milhares, dezenas de milhares de lisboetas. Mas aquilo é preciso confirmar se, por exemplo, estes dados não permitem fazer isso, se ultrapassou os 40 decibéis.
Exato.
E pode ser muito desagradável a 38 e estar dentro do limite que é permitido em determinadas circunstâncias. Mas também acrescento uma coisa: há um concurso que foi lançado, concurs público, para avaliar precisamente agora no início deste ano, e eu não tenho informação sobre o que é feito dele, para escolher uma empresa para avaliar digamos a-
Este nível, de fato, do ruído.
Não é só o ruído. E as horas certas da 1h às 5h, se é permitido e em que exceções. Agora, não te vou interromper pela nota tua, mas eu vou dar uma notícia. É que, na verdade, estás a subsidiar a ANA e as companhias aéreas, porque eles estão a ganhar dinheiro com isso. Obviamente, porque estão a utilizar toda hora e, tu como todos os Lisboetas que estão a fazer isso, na verdade, permita-me aqui a visão económica, estão a subsidiar artificialmente, porque não estão a receber o benefício do custo que estão a sofrer. Por exemplo, era exigível, mas era mesmo exigível porque se sabe isso, que a ANA e as companhias aéreas pagariam em sequência, investisse, juntamente com a Câmara, no reforço das condições de isolamento das casas desta zona. Se nós temos que ter aeroporto, face aos 30 bilhões que recebemos, não temos capacidade para metê-los todos nesta fase, nas obras, nas horas devidas, então há a externalidade negativa que tem que ser paga por quem beneficia disso. A ANA e as companhias áreas beneficiam. Tem que arranjar maneira de pagar a quem é prejudicado pra compensar por um subsídio que, na prática, tu próprio passaste a saber, não és só contribuinte português, também eres contribuinte da ANA e das companhias.
É tal e qual, e calculava o António, porque no fundo a questão por que culpa o Estado aqui? Porque eu não culpo a ANA. A ANA deve estar felicíssima com isso. Eu estaria no lugar da ANA.
Está a fazer o seu negócio.
O Estado é que não está interessado, de facto, também em chatear-se com a ANA, em particular. Não me parece particularmente empenhado em fiscalizar isto. A resposta da ministra do Ambiente no ano passado sobre esta assunto era que o Estado cumpria rigorosamente a lei, que a APA e a ANAC são instituições independentes, que são um Estado. Mas parece-me que é bastante assobiar pro lado.
Tem que haver soluções de apoio, porque não é possível fechar das 0h às 6a manhã. Não é possível. O custo econômico para nós, para o país, disto era brutal. Uma coisa de 1h às 5h.
Que é o que está estipulado.
É o que está estipulado e que não é cumprido, mas só com exceções muito particulares e exceões definidas. Era possível anular, era o que dizia esse grupo de trabalho que tu citavas há pouco. Agora, as pessoas têm que ser ressarcidas do impacto negativo que estão a ter. É aquela coisa que nós vemos muito. Nas autoestradas, há muitas zonas das autoestradas que têm proteção acústicas, e aquelas casas têm que ter apoios para meter janelas triplas, quádruplos, quatro vidros, o que for necessário, porque aquelas pessoas não têm culpa de estar a viver ali e de repente passar ali a 50 metros uma autoestrada de alta densidade de utilização. Obviamente que a ANA e o Estado, mas depois o Estado cobraria a ANA e aos operadores Da aviação, o custo assumido ter que pagar o bem-estar destas pessoas, porque nós beneficiamos todos. Eu que não estou, felizmente para mim, infelizmente para ti, tão próximo do aeroporto, estou a beneficiar de uma coisa que te custa a ti e a toda gente que vive ali. Vocês têm que ser ressarcidos.
No limite, custa à própria cidade, ao valor da cidade, e sobretudo esta coisa das desculpas mal pagador como soam muito mal. No caso, as desculpas serem: "Isto são voos que saem atrasados." Por isso mesmo tem que pagar multas, mas quem paga não é só a ANAC, é às pessoas que são prejudicadas por isso. E obviamente a forma de pagar essas multas é o Estado investir em proteção das pessoas que lá vivem. É a única forma de proteger essas pessoas.
Alexandre, uma nota.
Eu tinha mesmo aquele zero da associação guardado pro Estado.
E já sabemos quando o Alexandre aparecer aqui mais rabugento, foi uma noite mais intensa no Aeroporto de Lisboa.
Nem é preciso números.
Exato. Estava aqui também um amigo meu a dizer que daqui uns anos, quando o aeroporto mudar de sítio, ainda vamos ter saudades desse ruído tão familiar.
Fazia parte assim do ambiente. Lisboa não está a mesma. Por quê? Falta aquela coisa.
Judite, queres nos falar de uma fotografia de António José Seguro, uma fotografia em que o presidente da República aparece a analisar decretos, documentos durante as férias. Eu estava aqui a ver se conseguia recuperar, porque o Miguel Pinheiro no Bom Dia Portugal desta manhã fez uma descrição muito acertada desta imagem e queria ver se conseguia recuperar essa descrição, porque um dos pormenores é que a caneta com que Antônio José Seguro ia tomando notas estava com a tampa posta.
Nós não sabemos se ele ia tomando notas ou se estava só a usar pra apontar. Não sei. Podia estar com a caneta aberta. Se calhar sem tampa dava mais credibilidade. Já vou à fotografia, já vou ao post. Mas eu queria falar nesta questão do Presidente da República que eu julgo que está a tentar não alimentar o debate mediático e evitar o desgaste da sua figura, da figura presidencial, mas eu acho que este silêncio está a ficar demasiado pesado. Ontem não deixou ser filmado, mas disse aos jornalistas da SIC que foram a Porto Covo que não envia recados por ninguém e retirou a pressão midiática que as declarações de alguns dos seus conselheiros tinham deixado, retirando também importância à notícia do Nascer do Sol, não esta, mas há uma semana em que falavam em ultimato. Portanto, ao remeter o diálogo exclusivamente pro plano privado com o primeiro-ministro, Belém também transfere o ônus da decisão política e do desgaste público pro Executivo. No fundo, afasta esta narrativa dos recados, mantém a reserva pública oficial e desarmadilha um possível foco de rotura imediata que podia acontecer com São Bento, como aliás se viu no caso Galamba. Isso devolve ao primeiro-ministro a iniciativa para gerir a continuidade do ministro e o tempo político do caso, sem a sombra de um ultimato velado vindo de Belém. Já não digo o mesmo sobre aquilo que foram ontem as declarações do Procurador Geral da República, que vai avisar sobre inquéritos crime a Luís Neves e urgência nas investigações. Aí acho que se alguém fez uma espécie de ultimato ao primeiro-ministro, ao governo, é mais vinda do PGR do que do presidente da República, bem pelo contrário. Agora, ontem também disse que ia falar em breve, sem dar um prazo, o que eu acho que não foi nada boa ideia, por dizer que se vai falar sem dar um prazo parece muito pouco avisado. Entretanto, isso foi ontem à tarde. À noite fez o tal post com a sua foto de polo. Como é que se diz? Terno? Polo?
Era um polo.
Era um polo. Para as pessoas não pensarem que era um carro. Era um vestido polo, informal.
O carro é um Golf. O carro do Luís Neves é um Golf.
É GTG. Qualquer golf.
Mas enfim, estado de férias e mostra-se informal sentado a uma mesa com dossiês e um ar de trabalho com a seguinte legenda: "o tempo da promulgação de diplomas segue o seu curso e há trabalho que não pode esperar, mesmo em período de descanso.” Aparentemente, o caso Luís Neves pode esperar, é o que se tira a conclusão. A promulgação de diplomas não, o caso do Ministro da Administração Interna pode ficar em espera numa espécie de banho-maria sem conclusão à vista. Vamos ver quanto tempo é que o Presidente da República consegue prolongar este silêncio. E quando cumpre o prometido, que é falar sobre o tema. E eu acho que há uma alta expectativa sobre aquilo que o Presidente da República pensa e quer dizer sobre o assunto e portanto vamos ficar todos aqui em ânsias pra saber o que pensa António José Seguro e quando é que quer falar sobre o assunto.
António Costa, esta questão da gestão dos silências do presidente é uma tentativa, ou está também escaldado pelo antecessor no cargo?
Olha tu vais me obrigar a falar dum dos três temas que eu queria trazer neste Vencedor Aqui: não falar de Luís Neves.
Não, estamos a falar de Antonio José Seguro.
Estamos a falar do mesmo, na verdade. Eu acho que o Presidente da República perdeu. Vamos ver. Não pode simplesmente achar que pode formar o governo. Não pode. O contexto político agora é de um Presidente da República com seis meses. Os sinais: o Presidente da República deu dois sinais que eu acho importantes. Eu acho que perdeu algum timing e foi pressionado pelas circunstâncias, e às tantas vezes esta semana ele disse: "Eu não mando recados a ninguém." E depois o primeiro-ministro dizer também: "não mando recados a ninguém". Estava na verdade os dois a mandar recados um ao outro, que é uma coisa interessante. Mas disse duas coisas que eu acho que apesar de tudo, de um presidente da república neste contexto são importantes. É preciso defender as instituições. Leia isso à PJ, foi isso que recentemente o Presidente da República disse. E depois disse publicamente, aliás, vi algures hoje que tinha feito saber em exclusivo. Não, mas ele disse publicamente: é preciso que se acelerem as auditorias e os relatórios, nomeadamente aqueles que estão na esfera do próprio Governo, do próprio Estado, não da dimensão judicial, digamos assim, que são a auditoria da inspeção de justiça ao que aconteceu e da auditoria interna da PJ, que ela própria também desencadeou. Amadeu Guerra veio responder a esse desafio público do presidente, que tem uma semana e meia ou coisa que valha, dizendo: vamos acelerar com urgência dois dos três casos que temos aqui em investigação. Mais além do que isto, neste contexto, é pôr o presidente a discutir política partidária. Eu espero que tenha dito em privado que o que se está a passar no país é absolutamente inaceitável. Eu diria que é o mínimo que se espera, porque o que assistimos naquele discurso foi uma coisa inenarrável e surreal e vai pra lá de tudo. Na verdade ontem, Amadeu Guerra falava em três processos, dois com carácter de urgência, e depois dizia há cinco. Não há cinco, há oito, porque ainda há o processo europeu e estes dois processos administrativos de inspecção e de auditoria. Há oito. Ora, nós chegamos a um ponto em que o que se espera do Presidente da República é que diga ao Primeiro Ministro quando reúne com ele: tenho que resolver isto. E o resolver, na minha avaliação, a demissão é a única solução, porque eu acho que o governo está como aquelas equipas que jogam com 10 e ainda por cima jogam com 10, aquellas equipas em que o jogador parece que faz de propósito para marcar gols na própria baliza, que é o caso do Luís Neves. Mas espero que o Presidente da República esteja a dizer ao primeiro ministro: Isto tem que ser fechado, de uma maneira ou de outra. Se o primeir-ministro, em algum momento, com os dados que vai ter, seguramente das auditorias, nomeadamente do Estado, ou até com este anúncio de rapidez do PGR, considere que há condições políticas que resolva e assuma de uma vez por todas e o país fará a avaliação política que tem que fazer da decisão do primeiro-ministro. Agora, pedir que o Presidente da República tenha uma intervenção mais severa. Por um lado, disto: isto é uma loucura a moção de censura do Chega, porque é completamente despropositada, porque estamos a falar de um ministro pro governo. Atenção, eu sou dos que até considera que a moção de censura ganhou uma certa pertinência depois da forma e da substância daquela intervenção. Mas mesmo aceitando esse argumento, é uma loucura a moção de censura, porque não faz sentido nenhum usá-la. E ao mesmo tempo diz-se: o Presidente da República tem que vir a pública e dizer: "Senhor primeiro-ministro, tem que demitir o governo", ou têm que demitir o ministro. Vamos lá ver.
Não se pode querer sol na areia e chuva nanna galinha.
Não dá pra querer as duas coisas. Nós estamos aqui a discutir até temas importantes hoje, ainda tenho tema para trazer, mas não se discute nada. De fato, não se discute nada. E o primo-ministro eu diria que tem que tirar conclusões disso, sejam lá quais forem.
Já não é uma questão de separar reais problemas, é criar outros problemas.
Sim, eu acho que já estar pra lá disso.
Alexandre, só pra depois irmos ao tema sério, a fechar .
Exatamente. Sim, é isso. É difícil, mas gostei muito de ouvir a Judite e o António, porque tenho alguma dificuldade com a forma como todo o país se vai comportando em torno desta história e de como o mundo mudou. Começo a ter dúvidas de como político, como Cad 않고 Silva, que saiu há poucos anos da cena política, fosse possível hoje, porque parece que é impossível estar em silêncio. De fato, o ruído é tal, e é como a lógica trumpista que não a criou, adaptou-se ao mundo contemporâneo, Trump faz tanto ruído, inunda tanto os média, que por um lado não se consegue responder a todos os casos e por outro lado neutralizam-nos e apaga qualquer coisa que esteja à volta. A única forma de alguém se fazer ouvir perante alguém como Trump, é fazendo muito barulho. E em Portugal estamos num cenário similar em que neste processo em concreto quer-se que António José Seguro fale, ou o Presidente da República, neste caso, fale permanentemente. António José Seguro já falou, as pessoas não quiseram ouvir ou não disse o que muita gente queria que ele dissesse aparentemente. Quando António José Seguro disse que esperávamos que as investigações corressem depressa como o Antônio estava a dizer, o Sol vem hoje sugerir que isto foi uma coisa privada, que mandou dizer que tinha que ser rápido. Ele disse isso à frente de toda gente.
Ele disse.
Exatamente. E disse bem. Eu respeito muitas as instituições, o lugar delas e espero que elas assumam suas responsabilidades.
Mas disse isso: é preciso proteger as instituições.
Exatamente, tal qual. Isto pareceu-me mais ou menos claro sobretudo e disse: eu falo quando acho que tenho que falar, falo onde acho que deva falar etcetera. As pessoas esperam que sai notícia no Sol e o Presidente da República tenha que vir desmentir uma notícia do Sol?
Não tem essa obrigação. Só falta!
E depois querer tomar a questão Adalberto Campos Fernandes e de Álvaro Beleza Ficamos nós a tomar isto como porta-voz do presidente, também não é suposto. É claro que depois o Presidente tem de vir dizer isto: "Eu não mando recados por ninguém". Mas acho que é um pouco absurdo e não vejo solução para isto. É como um mundo em que nós precisamos descobrir uma forma de fazer o cancelamento de ruído, como os fones fazem o cancelamento de ruído. Parece que o presidente tem que estar a emitir uma espécie de zumbido em que não diz nada, mas que permite cobrir o silêncio. E nesse sentido, o zumbido é talvez a foto de polo e caneta com a tampa tapada a dizer: "eu estou aqui, estou a trabalhar."
E Alexandre Borges hoje sempre muito focado no ruído. Judite, pra fechar a nota que dás ao Presidente da República? Olha eu vou dar um nove ao Presidente da República porque acho, de facto, que ele não devia ter dito que falava em breve. António, dois minutos sobre contratação pública.
Mas é pouca. O código de contratação pública já estava em vigor há dezenas de anos, não era mexido há não sei quantos anos. Eu devo dizer que se Gonçalo Matias sair amanhã, eu acho que já serviu como ministro da Reforma do Estado depois de alterar este diploma. Não é coisa pouca. Foi publicado hoje em Diário da República, vai entrar em vigor no dia 1 de outubro e o Código de Contratação Pública é, no fundo, a relação do Estado com os particulares e com as empresas. No fundo, o Estado é o maior contratante, como imaginamos. Lança um TGV ou quando compra canetas pra um ministério, imaginem o que quiserem. As compras do Estado estão avaliadas entre 5% a 6% do PIB. O impacto é brutal, a burocracia é brutal. Não é por acaso que o PS, por exemplo, deixou passar este diploma, porque quem passou no governo, ministros, secretários de Estado, sabem a loucura que é de burocracia sobre o código de contratação pública, que está ainda em vigor até o dia 1 de Outubro. O código tem coisas mais óbvias, que aumenta os limites dos ajustes diretos, atualizando-os pros limites europeus, que estão em valores muito superiores, razoavelmente, porque também tem a ver com a dimensão da economia. Nós temos limites de ajuste direto de €20 mil e passa pra €75 mil e depois em alguns casos de obras públicas pode passar pra €150 mil. E isto não é nenhuma referência a Luís Neves. Não quis trazer aqui Luís Neves à discussão. Agora, simplifica nos documentos que são exigidos e parte de uma lógica que é importante salvaguardar, que não diminui a fiscalização, nem tem que diminuir, pelo contrário, e cria um incentivo que é uma novidade e que não existia mesmo, porque os limites já existiam, só alterados, atualizados há mais de uma década que não eram mexidos, que é a proposta espontânea que qualquer empresa ou particular pode fazer ao Estado. O Estado pode receber essa proposta, é obrigado a lançar concurso público sobre isso, mas a empresa que tenha uma ideia, que tenha um projeto, não precisa de ficar à espera que o próprio Estado lance o concurso pra que isto avance. Eu acho que é uma mudança muito significativa. É daquelas coisas muito áridas, muito chatas, e eu bem sei. Vai desaparecer amanhã e para os decisores públicos, se calhar, ainda bem, porque eles vão dizer: 'olhem, pronto, isto mudou, nós vamos ter condições'. Decisores públicos políticos.
No dia a dia vai ter muito impacto.
No dia a dia vai ter muito impacto, é muito importante. A medida da importância que eu atribuo a esta reforma é que Gonçalo Cerqueira Matias já pode ir embora, se não fizer nada. Já fez uma coisa, tá certo. Eu tenho sempre a ideia que os ministros num mandato de quatro anos, cumprirem o mandato e fizerem três ou quatro coisas que mudem mesmo, pra melhor, as condições das suas áreas ao ponto de a economia, o país, socialmente, economicamente, politicamente conseguirem ser melhores, já fazem bem. Gonçalo Cerva nunca ia ser justo, não vou saber o que ele fez de bom ou de mau, mas pelo menos já fez uma coisa bem.
Que nota é que dás?
Dou um 17 a Gonçalo Cereja Matias.
Terminamos assim a nota positiva. António Costa, Alexandre Borges e Judite França, muito obrigado e o Vencedor Esta de regresso amanhã nas manhãs 360 de fim de semana.