A chegada às livrarias da “Obra Poética II” de Cruzeiro Seixas, o lançamento de “Eu Falo em Chamas”, abertura de exposições e a exibição do filme “Cartas do Rei Artur” assinalam na quinta-feira o centenário do nascimento do artista.

Artur Cruzeiro Seixas, que morreu a 8 de novembro, em Lisboa, completaria cem anos na quinta-feira, 3 de dezembro, e, embora o dia não vá contar com a sua presença, vários agentes culturais do país vão realizar homenagens ao último dos pioneiros do movimento surrealista português.

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Com chancela da Porto Editora, chegará, nesse dia, às livrarias, o segundo volume da “Obra Poética”, organizado por Isabel Meyrelles, no quadro da coleção Elogio da Sombra, depois de ter lançado o primeiro volume em junho, dando seguimento à publicação da sua poesia completa.

Nome incontornável do movimento surrealista, do qual foi um dos principais precursores em Portugal, Artur Cruzeiro Seixas deixou um vasto trabalho nas artes plásticas e visuais, e foi também um poeta prolífico.

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O escritor Valter Hugo Mãe, curador da coleção, considera que, “nesta vasta obra, se encontra um surrealismo pleno, a relação mais indomável que ao espírito humano revela, sobretudo o que tem de inexplicável e, ainda assim, profundamente necessário”, num texto citado pela editora.

A elogio da sombra repõe agora os volumes organizados por Isabel Meyrelles e que, atónito, há umas décadas, encontrei inéditos na casa do mestre, ainda na carismática casa da rua da Rosa [em Lisboa]. Mais adiante, daremos à estampa um quarto volume recolhendo os poemas dispersos”, adianta Valter Hugo Mãe, sobre a poesia que está a ser reunida.

Por seu turno, a Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, detentora da obra original “Eu Falo em Chamas”, publicada em 1986, vai lançar uma edição fac-similada, também na quinta-feira, e, ao longo desse dia, divulgará algumas declamações da poesia de Cruzeiro Seixas, nas redes sociais.

Contactado pela agência Lusa, o ensaísta espanhol Perfecto E. Cuadrado, coordenador do Centro Português do Surrealismo, da Fundação Cupertino de Miranda, comentou que esta obra, “além da poesia de Cruzeiro Seixas, está maravilhosamente ilustrada com os seus desenhos”.

Não podemos festejar os seus cem anos com a presença dele, mas, mesmo assim, vamos assinalar a data lançando a edição fac-similada desta magnífica obra reveladora da sua paixão pelo simbolismo e pelo pensamento mágico”, apontou o especialista.

De acordo com o responsável, o centro que dirige vai organizar, em 2021, duas exposições dedicadas à obra de Cruzeiro Seixas que deverão ter lugar em Lisboa e em Paris, no quadro do projeto de internacionalização do trabalho daquele artista, e do surrealismo português.

O artista doou, em 1999, o seu acervo artístico à Fundação Cupertino de Miranda, que tem vindo a salvaguardar, exibir e publicar a obra deste nome fundamental do Surrealismo em Portugal, autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também na poesia, escultura e objetos/escultura.

Para Perfecto E. Cuadrado, tanto Cruzeiro Seixas como o artista e poeta surrealista Mário Cesariny (1923-2006) deixam um legado que é “uma tradição viva da vanguarda, da aventura e da rutura, na tentativa de apanhar o futuro”.

No seu longo percurso artístico, Cruzeiro Seixas teve uma fase expressionista, outra neo-realista e outra, com início no final dos anos 1940, mais prolongada, em que se enquadrou no movimento surrealista português, ao lado de Mário Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa, Pedro Oom e Mário-Henrique Leiria.

Dando continuidade ao ciclo de celebrações do centenário do nascimento, também a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) inaugura nesse dia o núcleo de “Cadavres Exquis”, na exposição “Cruzeiro Seixas – Fazedor Nada Perfeito”, com curadoria de Carlos Cabral Nunes.

Esta exposição contará com um conjunto de 60 obras realizadas pelo artista, em parceria com outros artistas portugueses e estrangeiros, como Alberto Trindade, Alfredo Luz, Fernando José Francisco, Liudvika Koort, Mário Cesariny, Valter Hugo Mãe, Mário Botas e Sophia Zhong, entre outros.

A exposição “Fazedor Nada Perfeito” reúne um conjunto de esculturas, desenhos, joias, colagens, serigrafias e livros-objeto artísticos de Cruzeiro Seixas, nos quais é patente a multiplicidade estilística do seu alfabeto visual, e estará aberta até dia 30 de dezembro, de segunda a sexta-feira, das 12h às 19h.

Iniciado a 19 de setembro, o ciclo de celebrações dos 100 anos de Cruzeiro Seixas decorrerá igualmente na Perve Galeria, Casa da Liberdade — Mário Cesariny, e no espaço expositivo da Associação Mutualista Montepio (Atmosfera m), com outras duas exposições.

Intitulam-se, respetivamente, “Construir o Nada Perfeito” e “Construir Cem Nadas Perfeitos”, e pretendem homenagear o autor com obras inéditas, suas, e em sua homenagem, por artistas como Eurico Gonçalves, Javier Felix e Alfredo Luz.

Também na quinta-feira, pelas 17h30, a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema exibirá o filme “Cruzeiro Seixas — As Cartas do Rei Artur”, da realizadora Cláudia Rita Oliveira, com produção de Miguel Gonçalves Mendes.

A vida e a obra de Cruzeiro Seixas será também evocada, na quinta-feira, numa iniciativa na Universidade de Évora, intitulada “Teatro das Imagens — Cruzeiro Seixas, a Poética do Engano”, promovida pela Biblioteca universitária.

As atividades programadas vão ter lugar, a partir das 15h30, junto da Biblioteca Geral, no Colégio do Espírito Santo, com a instalação de duas obras do artista João Francisco Vilhena. Em outubro, Cruzeiro Seixas — nascido a 3 de dezembro de 1920 na Amadora — tinha sido distinguido com a Medalha de Mérito Cultural, pelo contributo para a cultura portuguesa.