“Alguns jogadores jogam o jogo. Alguns jogadores mudam o jogo. De origens humildes, o futebol foi um guia. Quando a bola tocou nos pés deles, o jogo nunca mais voltou a ser o mesmo. Foi início de um caminho escrito por dois mestres mas a genialidade demora o seu tempo. Quando a inspiração se cruza com a paixão, nasce a obsessão. Um baixo, calado, modesto. O outro, um Adónis feito de pedra. Quando se cruzaram pela primeira vez apenas um ganhou mas para construir um legado ninguém consegue ficar no mesmo sítio. Duas cidades rivais, dois clubes rivais, dois rivais. O palco estava montado enquanto guiavam o desporto para a frente e quanto mais puxavam um pelo outro, maior ficava. Criaram-se monstros, os recordes foram esmagados, golo após golo, jogo após jogo, ano após ano. O impossível tornou-se impossível. Mas quando dois génios se cruzam, não resistimos a comparar. Há dezenas de debates sobre quem é o melhor entre os génios. Se tirarmos um momento e aceitarmos os génios sem debate, conseguimos aproveitar dois génios enquanto ainda podemos.”

O lançamento do Barcelona-Juventus feito pela BT Sports dificilmente poderia ter outro tema que não o reencontro entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. O próprio clube catalão deixara antes do jogo uma imagem desenhada dos dois jogadores com molduras na mão a recordarem as carreiras, com uma ligeira provocação a cair para o lado do argentino com a inscrição GOAT num espelho e um caixote onde estava sentado que dizia “Golos do Messi”. Por muito que houvesse um jogo entre duas equipas, era sobre dois jogadores que as atenções recaíam, num duelo que conhecia o seu 36.º capítulo com ligeira vantagem para o sul-americano, com 16 vitórias contra dez do português e 22 golos marcados contra 19 de CR7. Mas existia muito mais para decidir do que o mero primeiro lugar do grupo, com correspondência no sorteio da próxima segunda-feira. E para os dois lados, acrescente-se.

“O atual momento é para estar descontente, claro. Temos de analisar a derrota mas há uma diferença entre perder um jogo como o de sábado com o Cádiz e perder no campo do Atl. Madrid. A forma como nos marcaram, como criaram perigo… Eu não faço teatro, estou mesmo chateado. Já disse isso aos jogadores na reunião de ontem [no domingo]. Estando no Barcelona não se pode sofrer golos como os que temos sofrido em vários jogos”, disse Ronald Koeman, antes de sair também em defesa de Lionel Messi por não ser culpado dos erros cometidos pelo setor recuado. No entanto, o décimo lugar na Liga a três pontos da descida e a 12 do Atl. Madrid, naquele que está a ser o pior arranque dos últimos 33 anos e que não só justifica mas também explica a falência do argentino nestes primeiros meses de competição, quando está a menos de três semanas de poder assinar por outro clube.

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“Não acredito que o Barcelona esteja em crise, têm um novo treinador que está a tentar colocar as suas ideias mas são à mesma uma grande equipa. O Messi está num momento especial da sua vida, não é da carreira, depois do que aconteceu este verão. Mais do que futebol, existe um problema psicológico embora tenha mostrado sempre o seu valor. Podemos ganhar, acredito que sim, mas vai ser um jogo difícil. Em parte vamos ter de sofrer. Teremos as nossas oportunidades e devemos explorar da melhor forma, jogando de forma aberta e sem nada a perder”, referiu Andrea Pirlo, lançando o duelo depois do dérbi de Turim ganho com dois golos no último quarto de hora (o segundo no derradeiro minuto) mas onde a equipa voltou a não convencer. E se ainda não sofreu qualquer derrota em termos nacionais, nem por isso as exibições dos biaconeri tinham convencido nos primeiros tempos.

Este noite, em pleno Camp Nou, a estratégia do jovem técnico transalpino resultou na perfeição, com a Juventus a fazer a melhor exibição da temporada em termos estratégicos frente a um Barcelona que colocou a nu todas as suas deficiências e insuficiências, além de contar com um Messi que é o melhor mas não consegue desequilibrar sempre sozinho (até porque o seu futebol perdeu muita alegria). E se Trincão pouco ou nada conseguiu fazer perante o melhor jogo coletivo da Vecchia Signora, Ronaldo voltou a ser fundamental no triunfo com dois golos de grande penalidade que coroaram mais uma exibição conseguida do português no terreno do antigo rival na Liga. Entre vários números, o avançado chegou aos 650 golos só em clubes (chegara no fim de semana aos 750 contando com Seleção) e leva 40 só no ano civil, já mais um do que em 2019. Se esta era “A Última Dança”, numa alusão também ao documentário dos Chicago Bulls e a um possível último duelo entre astros, foi um tango de Ronaldo.

Depois de um ambiente quase familiar antes do apito inicial (a qualificação garantida de ambos também ajudou…), onde se destacou o cumprimento de Ronaldo a Messi antes de saudar também o antigo companheiro Pjanic, até foi o Barcelona a ter o primeiro lance bem trabalhado no último terço contrário sem finalização mas a Juve chegou-se à frente e criou duas boas oportunidades antes do golo inaugural sempre com o português a assumir o protagonismo: primeiro rematou na área à figura de Ter Stegen (7′), depois assistiu Danilo para um tiro de meia distância que passou ao lado mas com perigo (9′), por fim ganhou e converteu uma grande penalidade discutível num lance com Ronald Araújo (13′). O Barcelona ficava em desvantagem, Messi voltava ao jogo em que ia buscar jogo a meio-campo porque a bola não saltava entre linhas mas as contas ficavam ainda mais complicadas numa transição fantástica dos italianos, com Ramsey a abrir em Cuadrado na direita, Ronaldo a arrastar os dois centrais para a zona do primeiro poste e McKennie a aparecer sozinho na área para fazer o 2-0 de forma acrobática (20′).

O Barcelona não tinha propriamente muita inspiração do meio-campo para a frente e era ainda pior do meio-campo para trás, com os centrais perdidos e as transições a pecarem sempre por escassas perante uma Juventus que fazia o seu melhor jogo da temporada em termos estratégicos. Messi, o mais inconformado, ainda colocou por duas vezes Buffon à prova, Pjanic arriscou também a meia distância mas o intervalo chegaria com o 2-0 para a formação italiana e uma noite de pesadelo ainda maior para os catalães pouco depois, com Lenglet a cortar a bola com o braço na área e Ronaldo a não desperdiçar para fazer o bis na partida (52′). Messi ainda teve mais dois remates perigosos para novas intervenções do quarentão transalpino, Griezmann viu um penálti anulado pelo VAR por fora de jogo, Bonucci marcou após assistência de Ronaldo num canto mas estava também em posição irregular e o encontro terminou com uma vitória surpreendente pelos números e pela exibição da Juventus.