As vendas de veículos novos em Portugal, com destaque para os ligeiros de passageiros e comerciais, caíram 34% em 2020. A Renault liderou a procura, com 22.704 unidades, menos 38,6% que em 2019, à frente da Peugeot (21.494, –30,8%), Mercedes (14.884, –18,5%), Citroën (12.234, –35,8%) e BMW (10.519, –24,5%). Mas se houve fabricantes de carros pequenos e acessíveis cujas vendas caíram generosamente, como foi o caso da Smart (–87,5%), as marcas de luxo parecem ter lidado melhor com a crise. Contudo, a análise dos números carece de algumas explicações adicionais.

‘Arrumado’ 2020, a indústria automóvel pôde finalmente determinar os estragos de um ano em que a pandemia dominou a economia, a sociedade e, por tabela, a apetência dos clientes em adquirir novos veículos. Só assim se explica que, em vez das 262.253 unidades transaccionadas em 2019, nos 12 meses de 2020 não se tenham ultrapassado os 172.995 veículos ligeiros. São menos 34% e a queda até poderia ser maior, não fossem muitos clientes terem antecipado as compras de 2021 para Dezembro, mês em que a procura apenas caiu 19,5%.

Os veículos de luxo escaparam à crise?

A resposta a esta questão é um aparentemente confuso “sim e não”. No mapa de vendas divulgado pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) é certo que surgem quatro fabricantes de luxo que são os únicos a crescer (ou a manter o volume de vendas), num ano em que todas as outras marcas caíram. A Aston Martin aumentou as vendas em 16,7%, a Ferrari em 15,4%, a Porsche em 10,9% e a Bentley, apesar de figurar na tabela com uma variação de 0%, na realidade poderá ter crescido 204%, uma vez que não há números oficiais.

De acordo com o secretário-geral da ACAP, Hélder Pedro, marcas como a Bentley não são importadores tradicionais de automóveis, tendo uma relação de concessionário com o fabricante e apesar de existirem dois “dealers” em Portugal, em Lisboa e Braga, apenas o de Lisboa reporta oficialmente as vendas. “Este é um problema burocrático que a ACAP está a tentar a ultrapassar há muito, que se prende com o sistema de registos alfandegários e que induz em erro a análise dos valores de vendas”, explicou-nos Hélder Pedro. Daí que a Bentley, que em 2019 tem um registo de somente 21 veículos, exactamente o mesmo que em 2020, comercializou no último ano 43 unidades, uma vez que, tanto quanto o Observador conseguiu apurar, a Bentley Braga terá vendido mais um veículo do que os 21 de Lisboa.

As marcas de luxo parecem resistir melhor à crise, mas é bom ter presente que, pela natureza do negócio, um Aston Martin, um Bentley ou um Ferrari são adquiridos de forma diferente daquela como se processa a compra de um Renault Clio, o modelo mais vendido em Portugal. Um exemplar destas marcas mais reputadas é alvo de uma encomenda, com a entrega a acontecer largos meses depois, sendo que a transacção apenas é registada quando é solicitada a matrícula. Isto quer dizer que muitos dos carros de luxo que figuram no mapa de vendas em 2020, na realidade foram encomendados e pagos – total ou parcialmente – em 2019, ainda antes da pandemia. Um pormenor que convém ter em consideração, tanto mais que o volume de unidades envolvidas é mínimo.

2020: o ano dos eléctricos e electrificados

Se os carros de luxo revelaram um bom desempenho no ano que terminou, mas não tanto quanto possa parecer à primeira vista, já em relação aos veículos que apostam em mecânicas eléctricas, total ou parcialmente, não parecem existir dúvidas da sua crescente popularidade.

Em termos de combustível, os motores a gasóleo, que já controlaram 60% do mercado, ficaram-se em 2020 pelos 43,3%, assumindo-se ainda assim como o derivado de petróleo mais popular entre os motores de combustão, sendo o utilizado em 74.959 dos veículos ligeiros vendidos. A gasolina ficou em segundo lugar na preferência dos condutores, com 64.313 unidades, o que equivale a 37,2% do mercado, com os modelos 100% eléctricos (8.091) a representarem 4,7%, um crescimento considerável.

Entre os veículos electrificados, os híbridos plug-in (PHEV) são os mais populares, tendo conquistado ao longo dos passados 12 meses 11.867 novos clientes, o que equivale a 6,9% do mercado, 5,8% gasolina/eléctricos e 1,1% diesel/eléctrico. Isto significa que já são 19.958 os modelos equipados com baterias recarregáveis a partir da rede eléctrica, sensivelmente 11,6% do total de veículos vendidos em 2020.

Os híbridos, o que inclui os denominados “full hybrid” e os “mild hybrid”, os primeiros com maiores vantagens em matéria de redução de emissões e de custos do que os segundos, aceleraram no último mês do ano, uma vez que são eles as vítimas da lei do PAN, partido que tratou os híbridos como se fossem PHEV. Os híbridos a gasolina lideram as preferências, tendo reunido 5,5% no acumulado do ano, mas duplicado o share no mês de Dezembro, graças à antecipação das vendas. Os híbridos a gasóleo somaram 2.402 unidades, abaixo dos seus colegas híbridos a gasolina (9.509).

No total, entre eléctricos e electrificados, os condutores portugueses compraram 31.869 veículos que, de alguma forma, recorrem a um motor eléctrico e à correspondente bateria para poupar a carteira e o ambiente, o que constitui o valor mais elevado de sempre.