Na semana passada, quando as principais redes sociais começaram a apertar o cerco às publicações com desinformação e que incitavam à violência depois da invasão ao Capitólio, em Washington, nos Estados Unidos, milhões de apoiantes de Donald Trump mudaram-se para a rival Parler.

A rede social, que afirma ser um fórum para a liberdade de expressão, ganhou popularidade entre os utilizadores que se viram bloqueados no Twitter — situação em que Trump também se encontra. A Parler chegou até a liderar a lista de aplicações com maior número de downloads na App Store e na Google Play, durante os últimos meses de 2020 e, na última semana, liderou mesmo o ranking  das apps de acesso gratuito da loja de aplicações da Apple.

No período das conturbadas eleições presidenciais norte-americanas, a app viu o número de utilizadores disparar de 4,5 milhões para 8 milhões nos Estados Unidos, à medida que o Facebook e o Twitter se moviam para impedir a desinformação política, naquilo que os fãs de Trump consideraram “uma ação de censura”.

A Parler, que se recusa a regulamentar conteúdos que incitem à violência e ao ódio, passou a ser um megafone para vários apoiantes do presidente cessante dos EUA e serviu para partilhar mensagens sobre a alegada fraude eleitoral de que Trump falava e para a qual nunca apresentou provas. Além disso, a rede social contribuiu para veicular a organização de protestos pró-Trump, que culminaram na invasão do Capitólio, na passada quarta-feira.

O apelo à violência na rede social levou a Google a remover a app da sua loja de aplicações, na última sexta-feira, seguindo-se a Apple, no dia seguinte. No domingo, também a Amazon anunciou que iria desalojar a aplicação dos seus servidores

Já nesta segunda-feira de manhã, a aplicação parecia ter sido totalmente desativada, uma vez que os seus responsáveis não conseguiram encontrar outro servidor onde alojar a rede.

Numa série de publicações partilhadas na noite de sábado, o CEO da Parler, John Matze, disse que o serviço ficaria “indisponível na internet durante uma semana” e acusou os gigantes tecnológicos de boicote à aplicação.

“Somos a coisa mais próxima da concorrência que o Facebook ou o Twitter viu em muitos anos. Acredito que a Amazon, Google e Apple trabalharam juntas para tentar garantir que não haja concorrência. Eles não vão ganhar! Nós somos a última esperança da liberdade de expressão e da liberdade de informação”, escreveu.

Já numa entrevista à Fox News no domingo, Matze admitiu estar com  dificuldades em encontrar um novo fornecedor para a rede social.

“Vamos tentar o nosso melhor para voltar a ficar online o mais rápido possível, mas estamos com muitos problemas, porque todos os fornecedores com quem falamos dizem que não trabalharão connosco. Porque se a Apple não aprovar e o Google não aprovar, eles não o farão”, explicou.

A Parler foi criada em 2018 para oferecer, segundo indica a própria empresa, uma alternativa “impulsionada pela liberdade de expressão” às plataformas sociais convencionais. Os seus utilizadores podem publicar o que quiserem “sem medo de serem banidos pelas suas opiniões”. Além disso, há apenas duas regras que regem o que é compartilhado: não são permitidas atividades criminosas ou spam.

Embora Trump não detenha uma conta na rede social, algumas caras mais conhecidas da ala conservadora aderiram à plataforma, incluindo o seu advogado Rudy Giuliani, Sean Hannity, um comentador político da Fox News, e o senador do Texas, Ted Cruz.

Apesar do seu modus operandi ser semelhante ao do Twitter, a Parler tem menos políticas de verificação de conteúdos perigosos, o que acaba por ajudar à disseminação de informações falsas e de teorias da conspiração, bem como à propaganda de extrema direita, com incentivos à violência.