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Recuemos até 2018/19. O FC Porto, campeão nacional na época anterior num título que impediu o inédito penta do Benfica, chegou a ter uma vantagem de sete pontos na frente do Campeonato, foi perdendo aos poucos gás perante o crescimento dos encarnados e passou mesmo para o segundo lugar após a vitória do rival no Dragão com uma reviravolta por 2-1. Uns meses depois, fazendo a retrospetiva de toda a temporada, percebeu-se que esse jogo foi a chave para o triunfo final das águias na prova. Mas essa seria também a última vez que o Benfica levou a melhor no clássico antes de uma série de quatro partidas dominadas pelos azuis e brancos igualando a maior série existente entre os conjuntos. Em provas diferentes, em contextos diferentes, em circunstâncias diferentes.

Começou com a vitória na Luz, para a Primeira Liga de 2019/20. Com uma surpresa tática chamada Romário Baró, Sérgio Conceição ganhou o duelo a Bruno Lage e não permitiu que o Benfica fizesse sequer um remate enquadrado com a baliza. Seguiu-se uma vitória no Dragão, na segunda volta do Campeonato, onde fez a diferença a capacidade de superação no encontro sem margem de erro que podia ter deixado os encarnados já com dez pontos de avanço. Depois, a final da Taça de Portugal, em Coimbra – logo no final da época mais atípica de sempre, com o desgaste de dez jogos em dois meses após a retomar, onde imperou a entreajuda e o espírito de sacrifício de uma formação azul e branca reduzida a dez após expulsão de Luis Díaz. Por fim, a final da Supertaça, em Aveiro, onde o FC Porto quis mais, deu mais e lutou mais para ganhar. Agora, cerca de 15 meses depois, surgia o quinto duelo.

“O que esperamos é um jogo dentro do que são os clássicos. São muito competitivos, difíceis para as três equipas porque são muito intensos e importantes. Últimas vitórias? Isso não entra como motivação dos jogadores, os treinadores sabem o que estou a dizer. A preparação do jogo é perceber como o Benfica vai jogar, perceber o que fizemos de bem e menos bem na Supertaça, o que aconteceu depois desse jogo, o que poderá ser amanhã [hoje] a equipa do Benfica em função da sua dinâmica em posse… Isto é que é a preparação do jogo, isto é o que é o apaixonante no futebol. Com que cara chego aos jogadores e digo ‘Amigos, ganhámos ali e agora façam o mesmo?’ Isso não serve para a preparação, acredito que isso seja curioso para vocês [jornalistas] mas para nós, treinadores e jogadores, não interessa nada. Zero!”, dissera Sérgio Conceição na conferência de antevisão, prosseguindo: “Se não ganhamos, deixa de ser um bom momento. A hegemonia é o próximo jogo. Se não ganharmos o jogo, temos aqui umas pistolas e umas fisgas apontadas. Isto faz parte do que é o futebol. É como na vida: resultados”.

“Os jogos que o FC Porto leva sem perder são quase tantos como os do Benfica. Tirando a Supertaça, no resto está em pé de igualdade connosco. Mas clássico é clássico, naquele momento tudo muda, tudo altera. Se a Supertaça é um aviso? Para as duas equipas, para a que ganhou e para a que perdeu… Sabemos os momentos do jogo em que não estivemos tão bem e queremos corrigir mas esta é uma competição diferente. Já passaram alguns dias, olhando para a minha equipa nesse jogo, não tem nada a ver com a de amanhã. Na Supertaça houve erros do ponto de vista do que o jogo ditou, não do ponto de vista técnico-tático. Umas vezes o Benfica esteve em vantagem e em outras não. É o meu trabalho analisar e tentar passar uma ideia aos jogadores do que aconteceu. O que pode decidir? É a qualidade, a equipa que joga melhor quando tem bola”, salientou Jorge Jesus na antecâmara.

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Olhando para o momento de ambos os conjuntos, influenciado também pelas infeções por Covid-19 que assolam as equipas (com maior peso nos encarnados mas com Otávio a ser a última baixa para o clássico), o favoritismo teria de ser repartido, havendo apenas o histórico e o filme dos últimos jogos como fator passível de colocar ainda antes do pontapé inicial a balança a pender de forma ligeira para os dragões. Assim, esse era o desafio dos encarnados: contrariar os pontos onde tinha sido inferior nos últimos clássicos potenciando as mais valias como na última vitória até hoje, em março de 2019. E conseguiu, em vários aspetos. O Benfica ganhou mais segundas bolas, teve outra capacidade de gerir a posse, melhorou na qualidade ofensiva e foi superior ao FC Porto na maioria do jogo com a personalidade que Grimaldo tinha pedido após a Supertaça. Assim se fez a diferença apesar do 1-1.

Se as opções iniciais do FC Porto não trouxeram qualquer surpresa, Jorge Jesus quis surpreender no Benfica com a colocação de Grimaldo à frente de Nuno Tavares na esquerda. Em condições normais, e numa primeira análise, a ideia seria sobretudo em termos defensivos permitir que o jogador formado no Seixal defendesse por dentro numa linha de três com Grimaldo a descer e a fazer quase todo o corredor. No entanto, havia mais. E que se começou a perceber mesmo na fase de maior domínio dos portistas logo no arranque da partida, com alguns lances de bola parada tendo sempre Mbemba e Pepe como referências e um remate de meia distância de Uribe para defesa de Vlachodimos. Aos oito minutos, pela primeira vez, os encarnados chegaram ao último terço aproveitando o jogo em profundidade com Darwin Núñez pela esquerda mas o desvio na área de Seferovic saiu ao lado.

O FC Porto estava melhor, mais pressionante e com outra capacidade posse mas o Benfica começava a sentir-se mais confortável nessa posição e conseguia também colocar mais Pizzi em jogo. Mais do que isso, percebia que era pelo lado esquerdo do ataque que podia fazer mossa na defesa azul e branca com as movimentações do uruguaio, a cair nas costas de Nanu para receber bola ou criar espaços e foi em mais um lance desses que Grimaldo inaugurou o marcador: Darwin procurou a profundidade por fora, Nuno Tavares serviu Seferovic pelo corredor central, o espanhol fez a diagonal para dentro e recebeu isolado para picar por cima de Marchesín e fazer o 1-0 (17′). Ao contrário do que acontecera nos últimos clássicos, as águias começavam por cima mas o ADN FC Porto voltou a imperar, com Taremi, sempre a explorar os espaços entre linhas enquanto Marega aparecia nas costas sobretudo de Vertonghen ou Nuno Tavares, a chegar ao empate após assistência de Corona no lado esquerdo (25′).

O jogo era cada vez mais feito de equilíbrios mas nem mesmo as 24 faltas com que se chegou ao intervalo fez com que ficasse “preso”. Pelo contrário: após mais uma boa combinação ofensiva entre Rafa (o menos presente ao longo do primeiro tempo) e Pizzi, o capitão cruzou atrasado para Darwin Núñez acertar no poste na passada (28′); no seguimento de novo ataque de Corona por dentro, Luis Díaz recebeu de forma orientada, conseguiu tirar o central Otamendi mas o remate em arco saiu ao lado (37′); em mais um lance bem trabalhado para finalização de Darwin Núñez, o uruguaio antecipou-se mas o tiro fortíssimo saiu ao lado (44′). A primeira parte terminava com empate mas com mais emoção e oportunidades do que se esperava também com muito mérito dos encarnados.

No segundo tempo, que começou com dez minutos sobretudo “perdidos” entre ainda mais faltas, quezílias, Sérgio Conceição optou por fixar Marega mais no eixo com Taremi e colocar Corona sem tantas incursões pelo meio mas nem por isso a equipa conseguiu travar o jogo do Benfica, que melhorou sobretudo no número de segundas bolas ganhas (muitas no meio-campo dos azuis e brancos) e na capacidade que teve em fazer recuar Weigl entre os centrais para iniciar a primeira fase de construção em relação ao último jogo da Supertaça. E foram os encarnados a terem as oportunidades iniciais no segundo tempo, com Marchesín a fazer a “mancha” a Rafa numa bola que ficou perdida na área depois de mais uma tentativa de Grimaldo (62′) e Seferovic a cabecear ao lado após canto batido pelo espanhol (65′), antes de Marega obrigar Vlachodimos a boa intervenção depois de um livre (70′).

Depois, na sequência de uma entrada despropositada, Taremi foi expulso com vermelho direto após entrada de sola sobre Otamendi revista pelo VAR (73′). O jogo iria mudar de vez as suas características, com o FC Porto a ter uma derradeira chance flagrante para passar para a frente num lance onde Marega, na pequena área, encostou sem a força suficiente que evitasse que Vlachodimos conseguisse salvar em cima da linha (75′), e o Benfica a criar muito perigo na sequência de mais um canto na esquerda batido por Grimaldo com Vertonghen a cabecear ao segundo poste para defesa difícil de Marchesín (79′). Ficaria por aí. E ficaria porque, entre várias substituições (que no caso de Everton e Waldschmidt chegaram demasiado tarde), os dragões entregaram o domínio de jogo às águias mas as águias nunca conseguiram furar as linhas mais baixas do campeão que segurou o empate.