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Entre uma manif e espionagem, os aliados de Ventura foram Maria da Fonte e o Rei /premium

O dia de Ventura acabou por ficar marcado pela maior manif anti-Chega de toda a campanha. Em Coimbra, o candidato visitou o Rei, prometeu não parar de lutar e ainda acusou o Bloco de espionagem.

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Ventura visitou o túmulo de D. Afonso Henriques, em Coimbra, e prometeu não parar de lutar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ventura visitou o túmulo de D. Afonso Henriques, em Coimbra, e prometeu não parar de lutar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os gritos invadiram o Mosteiro de Santa Cruz, bem na baixa de Coimbra, sem que nada o fizesse prever. O pároco seguia imperturbável com a missa, mas era impossível ignorar o barulho que vinha do exterior. Cerca de cem manifestantes gritavam: “Não André Ventura, não à ditadura / Chegou a vossa hora / Os imigrantes ficam e vocês vão embora”.

Depois do esqueleto em Serpa, a caravana do líder do Chega tinha sido surpreendida pela segunda vez nesta campanha. A visita ao Mosteiro de Santa Cruz e ao túmulo de D. Afonso Henriques fora comunicada aos jornalistas já bem perto da uma da tarde pelo que era pouco provável que houvesse tempo para organizar manifestações — que têm de ser autorizadas pelas autoridades competentes — anti-Ventura. Perto das 18 horas, a poucos minutos de o candidato chegar, não se via um único manifestante na baixa de Coimbra.

Entre uma e outra troca de ideias informal, um dos membros da comitiva restrita de Ventura interrompia a conversa com o Observador para gravar um vídeo da Praça 8 de Maio praticamente deserta e enviar para a equipa de segurança que acompanha o candidato. Prova provada de que o caminho estava livre, pensavam eles. Não estava. Mas o líder do Chega não sabia.

Às seis e pouco já Ventura estava no interior do Mosteiro. Pouco depois, começavam os gritos de protestos. Com uma agravante: uma vez que a circulação de carros é proibida naquela zona, o líder do Chega estava efetivamente cercado por manifestantes e não a uma distância considerável como tem estado em todos os dias de campanha. A preocupação nas caras dos membros da comitiva de Ventura era evidente.

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O líder do Chega tentava parecer indiferente ao que se passava lá fora. Às 18h15, foi comungar. Às 18h17, ajoelhou-se para rezar. Às 18h19, Ventura olhou, pela primeira, pela porta aberta para o exterior. E não conseguia esconder o esgar de repúdio.

Lá fora o barulho e a multidão era cada vez maior. Com tambores improvisados, tarjas e megafones, os manifestantes gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. A polícia de choque entretanto formara um cordão de segurança.

Pode ouvir aqui a reportagem da Rádio Observador:

Manifestações. Ventura tem “dados” contra esquerda

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já terminada a missa, Ventura prosseguiu a visita. Parou junto da imagem de Nossa Senhora por alguns instantes e visitou o túmulo do primeiro Rei de Portugal. Às 18h32, já com a larga maioria dos jornalistas fora do Mosteiro, o núcleo duro do líder do Chega reunia-se para discutir o que fazer. Às 18h37, a assessora de imprensa comunicava aos jornalistas a decisão: o comício ia mesmo manter-se apesar da tensão evidente.

Rita Maria Matias, filha de Manuel Matias (ex-PPV), dirigente do Chega e uma espécie de faz tudo nesta campanha, agarrou-se de pronto ao telemóvel, ligou-o à pequena coluna portátil e tentou lançar-se numa contra-manifestação. Às 18h40, começava a tocar o hino da Maria da Fonte, um hino patriótico ainda usado em cerimónias militares e civis. De pouco adiantava. Os manifestantes eram cada vez mais e faziam cada vez mais barulho.

Às 18h44, um atrapalhado militante do Chega prometia a Rui Paulo Sousa, diretor de campanha e mandatário nacional, que os reforços vinham aí. “Estão a 200 metros daqui. Já estão a chegar. Errr… vocês não querem vir para a frente, para sermos mais?”, perguntava. “Nós?! Somos cinco ou seis aqui dentro”, cortava a eito Rui Paulo Sousa.

Encostado a um pilar, Diogo Pacheco Amorim fumava tranquilamente um cigarro. “Isto? Quando eu andava aqui a estudar eram o triplo das pessoas que estão aqui e não metiam medo”, chegou a dizer ao Observador. Às 18h49, Ventura começava finalmente a discursar. “Não temos medo, nem de manifestações, nem de boicotes”. A voz mal se fazia ouvir por cima da multidão que gritava.

“Nenhuma minoria nos vai impedir. Estamos aqui para reconstruir Portugal. Templo sagrado onde D. Afonso Henriques está sepultado representa a nossa luta e nunca vamos desistir de lutar. Nunca vou ter medo de sair à rua para vos enfrentar. Não temos medo”, insistia Ventura, hesitando várias vezes antes de continuar a falar.

“Vai-te embora / vai-te embora / Oh Ventura, vai-te embora”, exigiam os manifestantes. “Não, não me vou embora”, devolvia-lhes Ventura. “A nossa luta é pelos portugueses de bem e vamos mesmo mudar Portugal”. Pouco mais. Menos de dez minutos depois de ter começado, Ventura terminava o discurso no terreno mais hostil que já enfrentou nesta campanha eleitoral.

Ventura acusa Bloco de espionagem e de organizar manifestações anti-Chega

A caravana do líder do Chega seguiu para um hotel em Coimbra para prestar declarações aos jornalistas. Recomposto do embate, Ventura puxou do trunfo: provas, alegou o candidato, de que o Bloco de Esquerda está ativamente a organizar as manifestações como a desta terça-feira e a espiar a comitiva do Chega por todo o país.

Aos jornalistas, Ventura disse saber que foi Alberto Manuel da Cunha Matos, “funcionário do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda” nomeado em novembro de 2019, a organizar a manifestação em Serpa, no primeiro dia de campanha oficial, a 11 de janeiro.

André Ventura recusou dizer como conseguiu a informação de que foi de facto Alberto Manuel Belo da Cunha Matos a entregar o pedido de manifestação, desafiando todos a contactarem a Câmara Municipal de Serpa. Uma pesquisa rápida permite comprovar que há de facto um funcionário do grupo parlamentar do Bloco com esse nome — mas a acusação de Ventura carece de confirmação.

A seguir, o líder e candidato do Chega mostrou uma fotografia onde se podia ver uma carrinha branca que a campanha de Ventura diz ser do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda. De acordo com o candidato do Chega, esta carrinha tem perseguido em vários momentos a caravana do partido e já foi vista em vários pontos do país A ser verdade, Ventura sugeriu que tal constitui uma prova evidente de que o Bloco está a espiar Ventura.

Ventura não esclareceu, no entanto, que meios usou para identificar a referida carrinha, garantindo apenas que já foi vista pelo seu staff em vários pontos do país, em locais onde a comitiva do candidato se concentra. Segundo foi possível apurar a carrinha pertence, de facto, ao Bloco de Esquerda, usada na produção de eventos, que vai à frente da caravana para tratar dos aspetos técnicos.

Pode ouvir aqui a reportagem da Rádio Observador:

Ventura: Bloco faz espionagem? “É o que parece”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A foto em questão foi tirada em Viseu, sexta-feira, dia 15 de janeiro. A 16 de janeiro, um dia depois, Marisa Matias esteve de facto em Viseu, numa ação de campanha. Nas acusações que fez, ainda assim, Ventura alegou que a carrinha já foi vista em mais lugares, nomeadamente Guarda.

O líder e candidato do Chega garantiu que vai passar estes dados à PSP e à Comissão Nacional de Eleições, exigindo um rápido esclarecimento de Marisa Matias e do Bloco de Esquerda.

Fonte oficial do Bloco de Esquerda garantiu que, enquanto partido, não organizou qualquer manifestação e explicou que a carrinha referida é usada, precisamente, para preparar os aspetos técnica das iniciativas de campanha, confirmando que esteve em Viseu mas exclusivamente para esse efeito. Sobre o alegado avistamento na Guarda, o partido garantiu que a carrinha nunca esteve lá. “Percebemos que o candidato da extrema-direita esteja com medo da solidariedade de um país que se levantou contra quem insulta mulheres. Mas estas acusações, além de mentirosas, são absurdas”, reagiu o Bloco.

A ambição dos 22% e a segunda volta

Antes de todos os incidentes, foi um número a marcar o dia de campanha de Ventura: 22%. Foi a primeira vez que André Ventura traça claramente uma meta objetiva para estas eleições presidenciais, já depois de ter dito que queria ficar à frente de Ana Gomes, superar a esquerda junta e obrigar Marcelo Rebelo de Sousa a ir a uma segunda volta.

Num comício em Aveiro, o líder e candidato do Chega sugeriu que os seus adversários políticos estão “agarrados de medo” e que acredita ser capaz de ter o dobro do resultado que preveem as muitas sondagens que têm sido publicadas, sempre com o candidato do Chega na casa dos 10 a 11%.

“Os nossos adversários estão agarrados de medo, para não usar outra expressão”, conteve-se Ventura. “Pensavam que eram favas contadas. Querem juntar-se todos mas não sabem como o hão de fazer sem cair no ridículo. Somos nós que vamos ficar em segundo e somos nós que vamos levar Marcelo Rebelo de Sousa a uma segunda volta”, prometeu o candidato.

Mesmo num auditório muito despido e sem o entusiasmo de outros dias, Ventura não baixou a fasquia e acusou Marcelo Rebelo de Sousa de ser uma “vergonha de Presidente”, que só merece um “cartão vermelho” nas urnas. “Nenhum vendaval vai ser maior do que aquele que vamos provocar no próximo domingo. É o momento de nos sublevarmos.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Marcelo não seria o único alvo de Ventura e houve mimos para todos os gostos. Para João Ferreira, que anda com a Constituição debaixo do braço como se fosse a Constituição a “pagar rendas”; Marisa Matias, que se comove com o apoio de Chico Buarque, que “nem no Brasil ganhou”; e Ana Gomes, que “anda a perder tempo em feiras de ciganos”. “Estão a alucinar todos os dias. Quero ganhar bem, não quero ganhar com estas condições e que um dia digam que só ganhei por causa destes candidatos”, ironizou.

Nem só de adversários políticos se fez o pós-almoço de Ventura, claro. Antes mesmo de se dedicar a grelhar os seu concorrentes diretos, o líder do Chega serviu como entradas críticas a Sara Sampaio — que criticou Ventura e os apoiantes nas redes sociais — e a outros personalidades que se têm manifestado contra a candidatura.

“Mãe do céu…”, pausa dramática. “Levantámos mesmo um país. São ciganos, é extrema-esquerda e antifas, modelos, artistas a pintar os lábios… Nós somos os maiores mobilizadores deste país!”, divertiu-se o candidato, para aplauso geral.

Texto atualizado ao longo do dia

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