Rodrigo Sousa Castro, Capitão de abril, escreveu, na sexta-feira, na sua conta pessoal do Twitter que os “judeus, como dominam a finança mundial”: “Compraram e têm as vacinas que quiseram. É uma espécie de vingança histórica. E mais não digo antes que os bulldogs sionistas saltem”. Foi o início de uma polémica que rapidamente se instalou e que já levou o embaixador de Israel em Portugal a criticar aquilo que qualifica de antissemitismo “primitivo” e racismo ignorante. O ex-militar já admitiu que a generalização foi “abusiva”, mas denuncia “ação concertada de bullying”.

Foi através da conta Israel em Portugal que o embaixador israelita em Lisboa, Raphael Gamzou, contestou no domingo as acusações de Sousa Castro, prometendo no entanto que se o país do Médio Oriente “desenvolver uma cura para a Covid-19, o Coronel Sousa Castro terá acesso a ela caso preciso”. 

O embaixador diz mesmo que “quando se trata de medicina, não excluímos nem antissemitas primitivos nem racistas ignorantes, mesmo que o seu presente não seja tão glorioso como o seu passado”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Entretanto, Rodrigo Sousa Castro foi alvo de vários comentários nas redes sociais. No sábado, mesmo antes da resposta do embaixador israelita, o Capitão de Abril escreveu no Twitter: “Um post em que falo do sionismo e dos seus crimes na Palestina valeu-me a fuga da minha página aqui no Twitter da legião dos apoiantes dos nazi-sionistas. A página ficou mais higienizada”.

Mas esta segunda-feira Rodrigo Sousa Castro veio mais uma vez esclarecer a situação, denunciando igualmente a “ação concertada de bullying” de que tem sido alvo. Afirma que no post original de sexta-feira (entretanto apagado) cometeu um “erro” e incorreu numa “generalização” que não “é correta” e que é “abusiva”, sendo que acrescenta que “muitos terão o direito de com ela se terem ofendido”.

O ex-militar denuncia, no entanto, que “dezenas de furiosos encetaram uma ação concertada de bullying, insultando, ofendendo e desviando-se do essencial. Nenhum me perguntou os fundamentos ou razões da afirmação”. E refere que um “beto” foi “fazer queixinhas” a Vasco Lourenço (presidente da associação 25 de abril) sobre o tweet com o pretexto de o “atacar”.

E, para corrigir a “generalização”, o ex-militar lembrou Yitzhak Rabin, “um judeu democrata, humanista e tolerante assassinado por um nazi sionista quando teve a veleidade de procurar não só a Paz mas também a Justiça”.

Frisa ainda que durante “os tempos da guerra colonial” e da “ditadura”, o regime do Estado Novo era apoiado “pelo governo israelita”, “contribuindo assim para que a ditadura e a guerra injusta não tivessem desfecho mais célere”. “Mas isso os betos não aprenderam”, remata.

Os comentários de Rodrigo Sousa Castro já chegaram ao Comité Americano Judeu que está “horrorizado” com as “ultrajantes teorias da conspiração” compartilhadas pelo ex-militar, um “herói na revolução de 1974”. “Nós estamos solidários com a comunidade judaica portuguesa e pedimos ao governo português para denunciar os comentários vis”, refere num tweet a associação.

Também Andrew Srulevitch, diretor dos Assuntos Europeu para a Liga Anti-Difamação que faz a monitorização do antissemitismo no continente, escreveu no Twitter que está “desapontado por ver um herói da revolução portuguesa de 1974 a escrever tweets sobre Israel ter vacinas porque ‘os judeus dominam a finança mundial'”. Deixou ainda uma palavra de apreço à “pequena comunidade judaica do Porto e de Lisboa que orgulhosa e publicamente denunciaram o ódio”.

Rodrigo Sousa Castro desempenhou cargos importantes após o 25 de abril, tendo sido o porta-voz do Conselho da Revolução. Foi ainda diretor da campanha de Maria de Lourdes Pintassilgo, nas presidenciais de 1986 e concorreu, em 2013, às legislativas pelo Partido Democrático Republicano (PDR).