“A velocidade excessiva a entrar na nuvem, a rápida descida e a curva à esquerda foram inconsistentes com o treino do piloto”. Foi esta, principalmente esta, a conclusão da investigação ao acidente que em janeiro de 2020 causou a morte de Kobe Bryant, a filha Gianna Bryant e outras sete pessoas. O estudo das causas da queda do helicóptero Sikorsky S-76B, que demorou um ano a ser terminado, acabou por concluir que o piloto quis forçar a realização do voo em fracas condições de visibilidade e acabou por voar através das nuvens, algo que estava proibido de fazer pelas regulamentações federais.

“Depois de ficar por cima da auto-estrada 101, o piloto seguiu a estrada em direção a Camarillo [aeroporto de destino] a uma altitude de 137 metros e manteve uma velocidade de cerca de 260 km/h enquanto avançava rumo a uma camada de nuvens. Cerca de dois segundos depois de entrar na nuvem, o piloto notificou o controlo aéreo de que estava a ganhar altitude para ficar acima da camada de nuvens mas iniciou uma rápida descida de cerca de 457 metros por minuto enquanto virava ligeiramente à esquerda, permanecendo tombado para a esquerda durante o que restou do voo. Durante a subida e consequente descida, o piloto comunicou com o controlo aéreo em vários momentos mas não declarou uma emergência”, explicou o coordenador da investigação durante a reunião da National Transportation Safety Board que decorreu esta terça-feira e que foi pública, podendo ser acompanhada por qualquer pessoa através de um streaming em direto.

Kobe Bryant. Helicóptero voava sob condições de visibilidade reduzida

De recordar que, a 26 de janeiro de 2020, Kobe Bryant, uma das filhas e outros sete passageiros iam a bordo de um helicóptero que os transportava desde o Aeroporto John Wayne, em Orange County, até ao Aeroporto Camarillo, para assistirem a um jogo da equipa de Gianna Bryant na Mamba Sports Academy, em Thousand Oaks, ainda na Califórnia. O helicóptero acabou por embater numa colina perto de Calabasas. Na discussão da investigação, onde o nome de Kobe Bryant nunca foi mencionado mas as mensagens de apoio às famílias das vítimas foram recorrentes, foi principalmente debatido o facto de o piloto, Ara Zobayan, ter pretendido manter o plano de voo inicial sem fazer alterações e ter acabado por sofrer “desorientação espacial”. “As atitudes do piloto foram inconsistentes com a capacidade de tomada de decisões que o piloto já tinha demonstrado e que foi observada pela empresa em que trabalhava e por outros pilotos. Quando o voo começou, estavam a cerca de 40 quilómetros do Aeroporto de Camarillo, que estava a reportar condições climatéricas difíceis. Embora essas condições fossem piorando à medida do caminho, uma via alternativa de atuação não foi ponderada pelo piloto. A continuação do voo apesar das condições climatéricas foi representativa da intenção de manter o plano inicial, uma intenção que se tornou ainda mais forte à medida que o helicóptero se aproximava do destino”, acrescentou a investigação, que refere ainda o facto de a aeronave em questão não ter um gravador de ocorrências que seja resistente a quedas.

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Ara Zobayan, o piloto contratado pela Island Express Helicopters, era já amigo próximo da família Bryant e chegava a transportar as filhas do antigo jogador de basquetebol sem a presença de nenhum dos pais, dada a confiança que tanto Kobe como a mulher tinham no profissional. Segundo o testemunho da namorada de Zobayan, com quem este vivia há sete anos, o piloto estava de boa saúde e não tinha qualquer problema crónico de ausência de sono, algo que foi confirmado pela investigação. Zobayan era experiente naquela zona da Califórnia, já que voava nos mesmos circuitos há cerca de 10 anos e tinha cerca de 8.500 horas de experiência de voo, mas acabou por sofrer algo a que a investigação chama de “pressão auto-inflingida”, em que se pressionou pessoalmente a cumprir a deslocação sem interrupções nem imprevistos para não desiludir o cliente. Sendo que, de forma complementar, as conclusões da National Transportation Safety Board garantem que Ara Zobayan não foi pressionado nem pela empresa nem pelo cliente a terminar o voo na janela temporal inicialmente prevista.

Investigação exclui falha no motor do helicóptero em que seguia Kobe Bryant

“À medida que o helicóptero começou a subir pela nuvem, a perda de referências visuais deveria ter levado o piloto a assumir o controlo manual do helicóptero para manter noção da altitude e do percurso da aeronave. O ouvido interno sente o equilíbrio e a orientação. Quando estamos a pilotar uma aeronave e existe uma escassez de referências visuais exteriores, o ouvido interno pode dar-nos uma falsa sensação de orientação porque não consegue distinguir entre acelerações e inclinações. Se um piloto não consegue ter referências visuais exteriores, tem de assumir o controlo manual. Sem referências visuais exteriores, torna-se mais suscetível a ilusões provocadas pelo ouvido”, acrescentou a investigação, para explicar que o piloto terá acreditado que a aeronave estava a voar a direito e numa posição normal quando na verdade estava a tombar para a esquerda e a fazer uma curva para o mesmo lado. Na reunião, foi ainda indicado que a desorientação espacial deste tipo causou 184 acidentes fatais entre 2010 e 2019 nos Estados Unidos, sendo que 20 desse total aconteceram com helicópteros, como neste caso.

“A condição meteorológica era estável, não surgiu inesperadamente. A alternativa fácil teria sido aterrar no Aeroporto Van Nuys, um aeroporto grande com muitas infraestruturas que ficava apenas a uns minutos”, indicou a investigação, que mostrou ainda um vídeo de uma câmara de segurança onde é possível ver o helicóptero a desaparecer dentro das nuvens, cerca de dois minutos antes de chocar com a colina. “Estou muito triste com este desastre e uso o termo desastre, e não acidente, porque acho que é importante entender a distinção. Um acidente é algo que é imprevisível. Infelizmente, isto não foi. Todos sabemos muito bem o que aconteceu. Temos uma boa ideia do porquê de ter acontecido e sabemos como o prevenir”, disse ainda um dos elementos do National Transportation Safety Board.

Kobe, um ano depois: um “hermano” que se tornou família, uma cidade eternamente triste, um vazio insubstituível nos Lakers