Quatro máscaras cirúrgicas, uma viseira, uma máscara FFP2, luvas descartáveis e, claro, gel desinfetante — foi este o “kit” individual entregue a todos os membros das mesas de voto que estiveram a acompanhar a eleição regional da Catalunha, que decorreu este domingo e que viu os partidos independentistas a conquistarem uma  maioria absoluta — 33 deputados para a ERC, 32 do Junts per Catalunya e 9 da CUP — apesar dos socialistas catalães (PSC) terem segurado a vitória em número de votos (algo que não conseguiam há 22 anos).

O La Vanguardia relata que a terceira vaga pandémica que está a assolar este recanto de Espanha motivou uma eleição sem precedentes, pelo menos em termos de medidas de higiene e segurança. Máxima proteção, espaços de votação mais amplos, maior ventilação das (poucas) áreas fechadas, distâncias de segurança e muita precaução foram constantes ao logo deste dia que em que se quebrou um recorde negativo: a participação eleitoral ficou-se pelos 53%, o nível mais baixo da história democrática espanhola.

Ainda assim o dia foi decorrendo com relativa tranquilidade — de assinalar uma manifestação modesta em que algumas ativistas protestaram contra a ascensão eleitoral do Vox –, apesar de não terem faltado as longas filas de espera, realidade bem conhecida dos portugueses que participaram na reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. O distanciamento social obrigatório e a maior demora a do ato de votar em si (culpa das medidas de higiene) justificaram essas filas enormes.  Este pormenor, juntamente com às más condições metereológicas vividas ao longo do dia, são fatores destacados pelos analistas como possível justificação da abstenção. Ainda assim, o mais inusitado do dia foi a decisão tomada sobre o voto dos cidadãos Covid-19 positivos.

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As apertadas medidas de higiene e segurança marcaram este ato eleitoral catalão. GettyImages

Um dos princípios orientadores deste ato eleitoral foi a distribuição de votantes por períodos horários durante o dia. A primazia foi dada aos grupos de risco, principalmente idosos e pessoas com comorbilidades, que tiveram de acordar mais cedo para votar entre as 9h e as 12h. Seguiu-se a população geral, entre as 12h e as 19h, e finalmente, na última hora de urnas abertas (das 19h às 20h), votaram os contagiados com Covid-19 e os que tiveram contactos de risco com infetados. Apesar do voto por correio ter tido uma afluência recorde — aproximadamente 284.706 pessoas pediram para usar este serviço, um aumento de 350% face às eleições anteriores –, os responsáveis pela organização da votação não quiseram deixar os eleitores em quarentena de fora e tomaram esta decisão que obrigou a uma reorganização das mesas de voto.

“Os membros das mesas de votos tiveram 20 minutos para vestir os Equipamentos de Proteção Individual que lhes foram entregues”, lê-se no liveblog do La Vanguardia. O jornal espanhol relata ainda que esta proteção foi praticamente equivalente à utilizada pelo pessoal médico que trata doentes infetados com o novo coronavírus e foram apoiados por equipas de limpeza reforçadas que desinfetavam todos os recantos frequentemente — a mesa de voto nem sequer tocava diretamente no documento de identificação individual dos eleitores, eles tinham de colocá-lo numa bandeja. O El Periódico citou o Departament de Salut — uma espécie de Direção-Geral de Saúde catalã — que estima que nesta fatia de eleitores deverão estar cerca de 14 a 80 mil pessoas, entre infetados e contactos de risco.

Em algumas assembleias de voto, no entanto, estava tudo pronto, mas não apareceram quase nenhuns eleitores. Foi assim numa das praças de touros de Tarragona, a Tarraco Arena Plaza, como se vê no vídeo da repórter da Rádio Catalunya.

Como habitualmente se verifica, assim que se deu por encerradas as urnas começaram a surgir as primeiras projeções, prognósticos que logo aí anteviram o desfecho que só se conheceu já perto da 1h da manhã, hora espanhola. As forças independentistas, como previsto, conquistaram a maioria de assentos parlamentares, apesar do partido socialista ter somado o maior número de votos individuais. Os próximos dias (semanas?) ainda serão marcados pelas voltas e reviravoltas habituais que envolvem acordos parlamentares e a eleição, no parlamento catalão, do novo presidente da Generalitat.