Em dia de jogo, em situações normais, os adeptos apoiam os clubes. Claro que este facto natural se tornou mais complexo desde o ano passado, desde que os estádios ficaram vazios e os adeptos passaram a exprimir esse meio apoio através das redes sociais, de tarjas deixadas junto ao estádio e até de foguetes no exterior dos recintos. Esta quinta-feira, de forma normal, os adeptos do Benfica lembraram-se de que era dia de jogo e exprimiram o que sentem. Só que, desta vez, o sentimento não se traduziu no apoio abnegado e sem segundas intenções.

Junto ao Estádio da Luz, surgiram duas tarjas: uma direcionada a Luís Filipe Vieira, outra a Rui Costa. “Afinal temos demagogo mas mesmo assim não cai?”, lia-se no túnel de acesso às imediações do estádio, em relação a Vieira; numa ponte junto à Segunda Circular, lia-se “de maestro a marioneta”, em relação a Costa. Já esta quarta-feira, no Seixal, tinham surgido outras duas: “Estamos a arrasar”, em referência irónica ao que Jorge Jesus disse no dia em que foi apresentado, e uma outra relacionada com o “mandato desportivo” — com vários impropérios à mistura — prometido pelo presidente na altura das eleições. A pièce de résistance, porém, estava espalhada por todo o país.

Ficha de jogo

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Benfica-Arsenal, 1-1

16 avos de final da Liga Europa

Estádio Olímpico de Roma, em Roma (Itália)

Árbitro: Cüneyt Çakır (Turquia)

Benfica: Helton Leite, Lucas Veríssimo (Chiquinho, 85′), Otamendi, Vertonghen, Diogo Gonçalves, Weigl, Taarabt (Gabriel, 77′), Grimaldo, Pizzi (Everton, 64′), Darwin (Seferovic, 64′), Waldschmidt (Rafa, 45′)

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Suplentes não utilizados: Svilar, Vlachodimos, Gilberto, Cervi, Pedrinho, Nuno Tavares, João Ferreira

Treinador: Jorge Jesus

Arsenal: Leno, Bellerín, David Luiz, Gabriel, Cédric (Tierney, 64′), Odegaard (Willian, 90′), Ceballos (Elneny, 90′), Xhaka, Saka, Aubameyang (Pépé, 77′), Smith Rowe (Gabriel Martinelli, 77′)

Suplentes não utilizados: Ryan, Hein, Lacazette, Holding, Chambers, Pablo Marí, Nketiah

Treinador: Mikel Arteta

Golos: Pizzi (gp, 55′), Saka (57′)

Ação disciplinar: nada a registar

Junto à Luz, no centro de Lisboa, no Porto, em Braga, em Évora e noutras cidades do país, surgiram em várias ruas placas fictícias a rebatizar aquele local. “Rua Vi€ira”, podia ler-se, com o símbolo do Euro a substituir a letra E. Era neste contexto, depois de um empate em Moreira de Cónegos, no quarto lugar da Primeira Liga a 13 pontos da liderança e com uma franja de adeptos em claro desacordo com o trabalho desenvolvido no clube, que o Benfica mudava o chip e regressava à Liga Europa.

Esta quinta-feira, os encarnados recebiam o Arsenal no Estádio Olímpico de Roma — uma localização neutra, encontrada com consenso de ambos os clubes e da UEFA, para responder às limitações à mobilidade impostas por vários países europeus para responder à pandemia. Na primeira mão dos 16 avos de final da Liga Europa, a equipa de Jorge Jesus encontrava um Arsenal que está no 10.º lugar da Premier League, muito longe das quatro primeiras posições, e que por isso mesmo olhava para a segunda competição europeia como a melhor oportunidade para estar na Liga dos Campeões da próxima época. Um contexto que, curiosamente, não era estranho ao Benfica. Ainda que o treinador afastasse esse cenário.

Não há tábuas de salvação. O Benfica entrou para a Liga Europa, fez uma fase de grupos muito boa, sem derrotas, e tem a intenção de chegar o mais longe possível nesta competição. Vamos defrontar um adversário que também tem objetivos nesta prova. Ainda bem que aqui estamos, é sinal de que estamos a competir. Não se trata de tábuas de salvação. O Benfica está na Liga Europa e quer chegar o mais longe possível”, disse Jesus na antevisão da partida.

Jesus que, esta quinta-feira, apostava num sistema de três centrais, com Vertonghen, Otamendi e Lucas Veríssimo — sendo que este último realizava a estreia absoluta pelos encarnados. Apesar de Gilberto estar recuperado e já marcar presença no banco, Diogo Gonçalves voltava a ser titular na ala direita, com o treinador encarnado a lançar ainda Pizzi e Waldschmidt para o onze, retirando Seferovic, Rafa e Everton, que jogaram todos de início contra o Moreirense. Do outro lado, Mikel Arteta não fazia alterações ao onze que no fim de semana tinha goleado o Leeds: ou seja, deixava Lacazette e Pépé no banco e lançava os jovens Saka e Smith Rowe no apoio mais direto a Aubameyang. Na defesa, dois velhos conhecidos — o ex-Benfica David Luiz, que reencontrava a antiga equipa, e o ex-Sporting Cédric Soares.

Os primeiros instantes da partida mostraram desde logo a forma como o Benfica se apresentava em campo: três centrais, com Otamendi pelo meio, e Weigl na posição mais recuada do meio-campo, a escoltar o duplo pivô formado por Pizzi e Taarabt. Grimaldo, na esquerda, e Diogo Gonçalves na direita, completavam todo o corredor mas eram especialmente importantes na transição defensiva, quando alinhavam com os centrais e formavam uma linha de cinco para defender. O Arsenal começou com mais bola, a tentar jogar por completo no meio-campo adversário, mas depressa percebeu que teria de apostar num futebol mais direto para surpreender o Benfica.

A pressão alta e intensa dos encarnados, feita a partir dos homens mais adiantados e transportada até à defesa, deixava o Arsenal algo preso na zona do meio-campo, sem conseguir rendilhar e desejar jogadas que o levassem à baliza de Helton Leite. Assim, Odegaard e Ceballos apostavam principalmente em passes longos e verticais que conseguissem encontrar a profundidade dos elementos mais rápidos da equipa — até porque o trio de centrais do Benfica defendia esses lances homem a homem, de forma arriscada, com Aubameyang a ficar com apenas Otamendi pela frente quando se via com a bola na faixa central.

O primeiro remate do jogo até foi de Waldschmidt, sem qualquer perigo para a baliza de Leno (12′), mas a primeira grande oportunidade pertenceu ao Arsenal. Na primeira vez em que conseguiu romper a organização encarnada, a equipa de Arteta avançou por intermédio de Bellerín, que arrancou pelo corredor direito e cruzou para o segundo poste, onde apareceu Aubameyang. O avançado atirou ao lado (19′) mas os gunners perceberam que seria por ali, por Bellerín e na ala guardada por Grimaldo, que poderiam encontrar mais espaço. Num jogo muito encaixado que foi perdendo ritmo e intensidade à medida que se aproximou do intervalo, o Benfica estava a defender bem mas não conseguia atacar, permanecendo sempre muito longo do último terço adversário, em 45 minutos de grande sacrifício de Darwin e Waldschmidt. Jorge Jesus, na linha técnica, pedia que a bola fosse trocada com maior velocidade — mas a equipa era sempre demasiado previsível.

Saka rematou para Helton Leite encaixar (27′), Darwin fez exatamente o mesmo com Leno do outro lado (32′) e ambas as equipas perderam algum discernimento com a passagem dos minutos. Bellerín voltou a conseguir romper pela direita e assistiu Smith Rowe ao primeiro poste, com Vertonghen a ser fulcral (39′), e Grimaldo teve nos pés aquela que acabou por ser a melhor ocasião do Benfica, ao recuperar a bola numa zona muito adiantada e cruzar contra Ceballos ao tentar assistir Darwin quando poderia ter rematado à baliza (45+1′). Assim, portugueses e ingleses foram para o intervalo empatados sem golos — com um Benfica muito conservador, principalmente preocupado com a organização defensiva, e o Arsenal algo amarrado, muito dependente dos rasgos individuais.

[Veja aqui os dois golos do Benfica-Arsenal:]

No arranque da segunda parte, Jorge Jesus mexeu na equipa e trocou Waldschmidt, que pareceu não estar ainda com os melhores índices físicos, por Rafa. A partida voltou do intervalo mais aberta e mais partida, com mais espaços para explorar entre linhas e nas distâncias entre o setor intermédio e o recuado. Pizzi rematou fraco logo nos primeiros minutos (48′), Saka respondeu da mesma maneira (52′) e o Benfica acabou por conseguir aproveitar as imprecisões que iam surgindo na organização defensiva das duas equipas para abrir o marcador.

Na sequência de um canto cobrado à maneira curta, Smith Rowe acabou por intercetar um cruzamento de Diogo Gonçalves com a mão, dentro da grande área. Na conversão da grande penalidade, Pizzi não vacilou e colocou os encarnados a ganhar (55′). A vantagem, porém, durou pouco. Escassos dois minutos depois, numa jogada de insistência, Cédric apareceu tombado na esquerda, na grande área, e cruzou tenso para um desvio de Saka entre dois defesas (57′). Ambos os treinadores viram os golos como um sinal para mexer: Arteta tirou Cédric para lançar Tierney, Jesus refrescou a movimentação ofensiva ao trocar Pizzi e Darwin por Everton e Seferovic. O setor mais adiantado do Benfica tornava-se menos elástico, também com o objetivo de resguardar a posse de bola e partir daí para procurar o segundo golo.

Ainda assim, depois dos dois golos, a partida estagnou ligeiramente. Rafa obrigou Leno a uma grande defesa com um remate de trivela (62′), Aubameyang atirou ao lado já na grande área (63′) e Everton tirou um pontapé por cima da trave quando estava tombado na esquerda (73′). Arteta quis voltar a agitar a partida com mais duas entradas para o ataque, Gabriel Martinelli e Pépé, e Jorge Jesus respondia com a noção de que a equipa começava a acusar algum cansaço e fadiga, ao trocar Taarabt por Gabriel. O Benfica precisava de subir e aproximar setores, para encurtar espaços ao Arsenal, mas as pernas já não permitiam e a equipa acabava por trocar a bola numa zona intermédia quando não estava a defender. Do outro lado, os gunners tinham velocidade e frescura na frente mas não eram capazes de ligar peças para desenhar jogadas — acabando por, tal como na primeira parte, depender demasiado das individualidades.

Já dentro dos últimos dez minutos, Jesus acabou por ser surpreendido pelas enormes dificuldades físicas de Lucas Veríssimo, que parece não estar ainda com os índices físicos exigidos para jogar a este nível. Gilberto já estava preparado para entrar mas o pedido de Veríssimo para sair acabou por obrigar o treinador encarnado a mudar de ideias, colocando Chiquinho e recuando Weigl para a posição de terceiro central. Até ao fim, já pouco aconteceu: Arteta ainda lançou Willian e Martinelli, já sem grande interpretação tática, mas nenhuma das equipas voltou a estar perto de marcar.

O Benfica sai da primeira mão dos 16 avos de final da Liga Europa com a eliminatória totalmente em aberto, apesar da ligeira vantagem dos ingleses por terem marcador “fora”, e deixa o Olímpico de Roma com a certeza de que empatou a partida por ter defendido bem e não ter fragilizado a organização defensiva. Os encarnados tiveram pouca bola, não conseguiram ter oportunidades flagrantes na grande área do Arsenal e ofereceram quase sempre a iniciativa ao Arsenal: ainda assim, têm o mérito de terem cortado as principais arrancadas dos gunners. No dia em que, por maus motivos, o clube ganhou tantas ruas, acabou por cortar as avenidas do adversário.