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Os serviços de segurança interna alemães puseram a Alternativa para a Alemanha (AfD) sob vigilância, caracterizando o partido de extrema-direita como uma potencial ameaça para a democracia no país, noticiou a Der Spiegel esta quarta-feira.

As atividades da AfD, um partido formado em 2013 e conhecido pelo discurso anti-Islão, anti-imigração e xenófobo de alguns dos seus representantes, já eram monitorizadas em alguns estados alemães, mas, com a designação dada pelo Gabinete de Proteção da Constituição (BfV) — que remonta a 25 de fevereiro, mas que só esta quarta-feira foi divulgada — o partido passar a poder ser vigiado a nível nacional, inclusive com recurso a escutas ou através da contratação de agentes infiltrados, como nota o Politico.

No entanto, segundo a BBC, os deputados da AfD no Bundestag (o parlamento alemão) e os seus eurodeputados não podem ser visados por estas operações.

O partido considerou a decisão dos serviços de segurança alemães “puramente política” e disse que vai tomar medidas legais contra o que considera uma “classificação injustificada”.

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“Os serviços de inteligência agem de forma puramente política quando se trata da AfD. Tendo em conta as eleições estaduais e federais deste ano, isso é particularmente notável”, afirmou Alice Weidel, uma das líderes da AfD, na rede social Twitter.

As eleições legislativas na Alemanha, as primeiras sem Angela Merkel a concorrer a chanceler, cargo que desempenha desde 2005, estão marcadas para setembro deste ano, sendo que a AfD, atualmente o terceiro maior partido com representação no Bundestag e o principal partido da oposição, tem estado em queda nas sondagens, um fenómeno que é atribuído à contestação do partido às medidas de confinamento para combater a Covid-19.

Neste momento, de acordo com as sondagens, a AfD ficaria em quarto lugar, com cerca de 10% dos votos — em 2017, teve 13% e entrou no Bundestag pela primeira vez, logo com 94 deputados —, atrás da União Democata-Cristã (CDU), do Partido Social-Democrata (SPD) e dos Verdes.

Até ao momento, os serviços de segurança ainda não comentaram a notícia avançada pela Der Spiegel.

A confirmar-se a designação do partido enquanto grupo suspeito de extremismo e consequente vigilância das suas atividades a nível nacional, será a primeira vez que tal acontece na história alemã do pós-Segunda Guerra Mundial, uma vez que, desde então, nenhum partido com representação no Bundestag foi alvo deste escrutínio por parte dos serviços de segurança.

O Bfv foi criado com o intuito de conter o crescimento de forças extremistas e de proteger a democracia alemã de outros partidos nazis. Num discurso no ano passado, conforme recorda o The New York Times, Thomas Haldenwang, presidente da organização, sublinhou que o BfV “leva esta missão muito a sério” e alertou que “o extremismo de extrema-direita e o terrorismo da extrema-direita são, atualmente, o maior perigo para a democracia da Alemanha.

Há um ano, o BfV já tinha posto uma das alas radicais da AfD sob vigilância. Desde então, os discursos dos membros do partido e as publicações dos seus membros nas redes sociais são alvo de escrutínio, tendo dado origem a um relatório com mais de 800 páginas.