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George Floyd morreu porque o modo como foi imobilizado pelo agente Derek Chauvin, da Polícia de Minneapolis, o privou de receber oxigénio. Esta é a conclusão do médico Martin Tobin, que foi chamado como testemunha pela acusação e depôs perante o júri esta quinta-feira: “O senhor Floyd morreu por causa de um baixo nível de oxigénio”, afirmou o clínico apoiando-se em diagramas anatómicos e contrapondo-os com vídeos da detenção.

O médico chegou mesmo a pedir aos jurados que desabotoassem o colarinho das camisas e sentissem quão sensível é a hipofaringe. Segundo o pneumologista, foi precisamente esse o tecido que o agente da polícia comprimiu com o joelho, aplicando uma pressão equivalente a 41,5 quilogramas no pescoço da vítima, travando o processo de respiração a partir da zona inferior da garganta. A respiração tornou-se demasiado débil.

O veredicto do intensivista coloca em xeque a teoria levantada pela defesa de Derek Chauvin, que afirmou que George Floyd morreu em consequência de uma overdose. A ideia de que o homem tinha morrido por não conseguir respirar — o agente algemou George Floyd, deitou-se de barriga para baixo no chão e pressionou o joelho em cima do pescoço — é a mais credível desde o início do caso, mas Derek Chauvin declarou-se inocente.

Martin Tobin desmistificou até uma das afirmações do agente, que quando ouve Floyd queixar-se de falta de ar — “Não consigo respirar”, avisou a vítima mais de 20 vezes — responde: “É preciso bastante oxigénio para dizer coisas”. O médico descreve esta lógica como “um mantra perigoso”: apesar de ser verdade, e de alguém estar a respirar no momento em que fala, “isso não indica se a pessoa vai deixar de respirar cinco segundos depois”.

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Prova disso é que, no vídeo da detenção de George Floyd, pode ver-se uma das pernas do homem a movimentar-se involuntariamente, como numa sacudidela, explicou o pneumologista dos cuidados intensivos: o momento em que isso começa a acontecer ocorre quando o cérebro deixa de receber oxigénio. Pouco depois, a vítima “não tinha uma gota de oxigénio no corpo inteiro”.

Martin Tobin descreveu como é que o oxigénio entra no organismo até aos alvéolos (nas extremidades dos brônquios, onde ocorre a troca gasosa por dióxido de carbono no sangue) e como a forma como George Floyd foi restringido impedia que ele viajasse até aos pulmões. Sem oxigénio, o norte-americano de 46 anos morreu num processo semelhante ao da asfixia, que também condenou o coração a parar de funcionar.

A defesa de Derek Chauvin tinha afirmado que George Floyd sucumbiu em resultado de uma overdose por fentanil, mas o médico recusa esta tese. Uma overdose desta natureza faz com que a frequência dos batimentos cardíacos diminua repentinamente, mas Martin Tobin afirmou que o ritmo cardíaco de George Floyd não reduziu até ao momento em que ele perdeu a consciência.