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E vão sete. Sete noites seguidas de distúrbios na Irlanda do Norte e que não parecem ter fim à vista. A antevisão do que podem ser as próximas madrugadas foi feita esta sexta-feira pela presidente do Sinn Féin, partido republicano irlandês, que acredita que o país constituinte do Reino Unido enfrenta um fim de semana “muito difícil”. O alerta de Mary Lou McDonald foi feito depois de mais uma noite de confrontos entre a polícia e jovens manifestantes e que levaram as autoridades a usar canhões de água para dispersar a multidão, algo que não acontecia há seis anos.

A Irlanda do Norte é a única região do Reino Unido onde estes veículos ainda podem ser usados para controlar motins, depois de terem sido banidos, em 2015, por Theresa May, na altura ministra da Administração Interna.

A polícia, segundo escreve o Belfast Telegraph, respondia a arremessos de garrafas, tijolos e explosivos pirotécnicos — situação que tem sido recorrente nas últimas noites.

A violência, apontou Mary Lou McDonald, é “deliberadamente organizada” e tem como principal objetivo “maximizar” a tensão que se vive em certas zonas do país entre republicanos católicos (defendem uma única Irlanda) e unionistas protestantes (que querem a manutenção da Irlanda do Norte no Reino Unido). O seu apelo foi também dirigido aos políticos unionistas, a quem pediu para darem mostras de liderança, cancelando os protestos que estão a ser convocados para sábado e domingo, em boa parte através das redes sociais com recurso a perfis falsos.

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Os distúrbios têm acontecido numa área do oeste de Belfast, onde os chamados muros da paz servem de divisória entre bairros protestantes e católicos.

Nationalists Attack Police On The Springfield Road In Belfast

Mais 19 agentes da autoridades ficaram feridos, elevando para 74 o número total de polícias feridos

74 agentes da polícia agredidos

Embora na noite de quinta-feira, os relatos tenham dado conta de uma multidão menor do que nas noites anteriores, isso não foi suficiente para evitar ferimentos. Mais 19 agentes da autoridades ficaram feridos, elevando para 74 o número total de polícias feridos, desde que começou a escalada de violência, na sexta-feira passada, há exatamente uma semana.

Os apelos à calma têm-se multiplicado, feitos tanto pelo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, como pelo o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin. Na quinta-feira passada, também a Assembleia da Irlanda do Norte (órgão de poder legislativo) aprovou por unanimidade uma moção a pedir o fim da violência.

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Durante os protestos, os agentes de autoridades foram agredidos com explosivos pirotécnicos

Porquê agora? Brexit e Sinn Féin fazem parte da explicação

Os acordos comerciais assinados no rescaldo do Brexit têm feito crescer a tensão na Irlanda do Norte, já que criam barreiras entre a região e o resto do Reino Unido — exatamente o oposto das promessas de Boris Johnson feitas na altura em que o país abandonou a União Europeia.

As longas conversações entre Londres e Bruxelas terminaram com a assinatura de um protocolo que obriga a que os bens que entram na Irlanda do Norte via Grã-Bretanha sejam sujeitos a controlo aduaneiro, uma forma de evitar o regresso de uma fronteira entre Irlanda do Norte e a República da Irlanda (Estado-membro da União Europeia). O problema? Põe em causa o acordo de paz de 1998, o Acordo de Belfast ou de Sexta-Feira Santa.

A gota de água, num copo quase cheio, caiu quando as autoridades decidiram há poucos dias não acusar os líderes do Sinn Féin, antigo braço político do IRA, que desfilaram, em junho de 2020, no funeral de Bobby Storey, proeminente membro do Exército Republicano Irlandês, e que ao fazê-lo violaram as regras sanitárias para conter a pandemia de Covid-19.