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A temporada de 2016/17 acabou por funcionar como ponto de viragem para o Sporting no plano internacional, mesmo numa história que começou por ser escrita da pior forma. Com um plantel reforçado por Leo, Deo, Pany Varela e Dieguinho, num ano marcado também por não contar com João Benedito após duas décadas ao serviço do conjunto verde e branco, os leões chegaram pela segunda vez a uma final europeia mas acabaram goleados pelo Inter FS (7-0). Ficou a deceção mas ficou mais do que isso, com os alarmes a soarem em Alvalade em relação a uma modalidade que perseguia há muito o primeiro título na Champions mas que parecia estagnada num paradigma “gastar a mais para ganhar em Portugal, gastar a menos para ganhar na Europa”. No entanto, e como o tempo veio a comprovar, foi essa deceção que funcionou como gatilho para as mudanças que se seguiriam.

Sporting vence Barcelona com quatro golos em dez minutos e sagra-se campeão europeu de futsal

Na época seguinte, marcada pelos regressos ao plantel verde e branco de Divanei e Cardinal, o Sporting voltou à final da Champions com o Inter FS de Ricardinho, voltou a perder mas deixou uma imagem bem diferente, não só no resultado mas na própria exibição (5-2). E na temporada seguinte a essa conseguiu finalmente quebrar essa falta de troféus europeus, com uma vitória por 2-1 frente ao Kairat Almaty no Cazaquistão num período que deveria ser de transição pela mudança de ciclo com a saída de vários jogadores com muitos anos em Alvalade e a chegada de peças chave como Guitta ou Rocha. Em 2019/20, uma derrota com os russos do Tyumen retirou a possibilidade de voltar à Final Four mas esse percalço não desvirtuou o caminho que Nuno Dias tinha entretanto conseguido colocar a equipa a fazer, com uma maturidade competitiva que fez toda a diferença.

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Na presente temporada, o Sporting voltou à final da Liga dos Campeões pela quarta vez em cinco anos. E teria pela frente um dos raros adversários a quem nunca ganhara em compromissos oficiais, o Barcelona, levando duas derrotas noutros tantos encontros, o último dos quais nas meias-finais da derradeira edição realizada em Lisboa. Mais: tinha pela frente o campeão em título da prova. No entanto, e mais uma vez, esse upgrade europeu veio ao de cima, com uma segunda parte fabulosa que permitiu a reviravolta com três golos em cinco minutos, algo completamente atípico num final da Champions mas que mostra bem o nível deste Sporting, que este ano fez apenas regressar Mamadu, não teve contratações e ganhou por completo a aposta nos mais novos.

Sporting vence Inter FS e está na final da Liga dos Campeões de futsal (a quinta da história e a quarta em cinco anos)

O encontro começou de forma atípica, com a primeira falta logo aos quatro segundos, a primeira bola parada para os leões e o primeiro golo ainda no minuto inicial por Marcênio, que aproveitou um erro na saída de bola  para surgir numa situação de 3×2 conduzida pelo corredor central e com remate forte sem hipóteses para Guitta. Merlim, em dois lances 1×1 com remate descaído na esquerda, colocou depois Didac Plana à prova mas seriam os catalães a aproveitar da melhor forma um encontro estranhamente partido e com mais transições do que seria esperado para acertar no poste por Esquerdinha antes de André Coelho fazer a recarga ao lado (5′). Logo a seguir, e também num 3×2, Taynan foi assistido por Merlim mas o remate voltou a ser bem travado (6′).

Também pelo elevado número de faltas logo nos minutos iniciais, com o Sporting a chegar à quarta infração aos sete minutos e o Barcelona pouco depois, o encontro baixou depois de intensidade mas com o Barcelona a fazer valer a maior experiência internacional de campeão em título para aproveitar momentos de transição e saídas rápidas para criar perigo, como aconteceu num desvio de cabeça de Esquerdinha após passe do guarda-redes que voltou a bater no poste (12′). Nuno Dias foi experimentando várias combinações ofensivas na quadra entre Zicky, Rocha ou 4:0 ou Merlim e Pauleta mas Didac Plana foi conseguindo manter a baliza a salvo antes de novo erro leonino que resultou em golo, com Ximbinha a fazer o 2-0 após assistência de Daniel num 3×1 (18′).

O Sporting tinha conseguido travar de forma irrepreensível aquele que era o maior perigo do Barça, Ferrão, mas claudicou em dois lances onde foram apanhados demasiado balanceados na frente em transições que até podiam ter feito mais mossa. E foi essa a imagem de marca no recomeço da segunda parte, com os catalães a darem a iniciativa de jogo aos leões para tentarem depois explorar as transições, como voltou a acontecer numa bomba de Adolfo que bateu no poste após defesa de Guitta (25′). No entanto, e muito assente na irreverência e qualidade de Tomás Paçó e Zicky Té, os leões chegaram ao empate com dois golos em pouco mais de dois minutos por Zicky Té, após assistência de Tomás Paçó, e por Erick, de cabeça, num lance de estratégia que começou numa reposição lateral (26′ e 28′). Os blaugrana, que estiveram sempre confortáveis no jogo, acusavam o momento.

Andreu Plaza ainda pediu um desconto de tempo mas o Sporting tinha tomado em definitivo conta do jogo, conseguindo a reviravolta em menos de cinco minutos com João Matos a aproveitar um livre por mais uma falta inevitável sobre o endiabrado miúdo de 19 anos, Zicky Té, marcado por Taynan e a bater ainda no poste para empurrar à boca da baliza e fazer o golo da reviravolta (31′) depois de oportunidades com muito perigo de Taynan, Rocha e Tomás Paçó, na última com uma defesa extraordinária. O Barcelona tinha de arriscar o guarda-redes avançado com Daniel mas até foi o conjunto português a aumentar a vantagem por Pany Varela, numa recarga a um remate ao poste de Erick (37′), antes de Ferrão fazer o 4-3 final (38′) num jogo com uma reviravolta épica que confirmou o segundo título europeu do Sporting apenas em três anos.