A história

A casa sempre lá esteve. Mas em ruínas. Servia de apoio a trabalhadores das equipas de manutenção da Câmara Municipal de Lisboa e, de dois em dois anos, com ajuda de estruturas extra, albergava os escritórios do Rock in Rio. Foi Roberta Medina, vice-presidente do festival, juntamente com a sua equipa, que olharam para a casa, já há mais de uma década, e pensaram em dar-lhe um futuro — um futuro de faca e garfo e com música, arte e leituras à mistura.

“Quando eu oiço as pessoas dizer ‘ah, o Parque só existe quando tem Rock in Rio’ eu tenho vontade de gritar e dizer: não, o parque é incrível, o parque tem muito potencial e durante todo o ano”, confessa Medina com a mesma veemência que ao longo dos últimos anos tem mostrado na jornada para “capacitar o parque” de condições para quem o visita.

Anos e anos passaram e as ruínas ali permaneciam, intocáveis e cada vez mais arruinadas. O investimento maior, diz Roberta, foi feito entre 2016 e 2017, com as obras estruturais necessárias à manutenção do espaço como tal. Tentaram inclusivamente, depois disso e a par com a autarquia, entregar a concessão da casa a alguém, mas nada feito.

“Tenho esse sonho: o de ver Lisboa aproveitando aquele que é o Central Park lisboeta”, diz. Apesar de continuarem focados na organização do festival, adiado agora para 2022, a equipa conseguiu ter “uma folguinha” para parar e avançar, finalmente, com o projeto há muito guardado na gaveta.

Esta é uma das duas esplanadas, também equipada com um palco. ©DR

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A Casa de Pedra é um “cisma e uma paixão” que Roberta conseguiu levar avante muitos anos depois. “O grosso da população não sabia que este parque existia na cidade até o Rock in Rio começar a acontecer aqui, porque esta zona ainda estava muito à sombra do preconceito e de estigmas criados”, explica Roberta. “Nós viemos do Rio, conhecíamos outras realidades, e ao chegarmos aqui conseguimos perceber o potencial gigante deste parque, que é uma franja super transversal de Lisboa”.

A partir daqui foi desenvolver um projeto servisse de base à então Casa de Pedra que, inevitavelmente, teria de ter um restaurante. Mas a coisa não podia ficar por aí — era fundamental para Roberta trazer uma agenda cultural atrelada, que desse ainda mais força ao espaço. “O sonho é que seja uma casa aberta, a casa é da cidade”, atira. “Nós só ajudamos e estamos cá para receber toda a gente, com ou sem festival”

O palco mundo este ano fico em suspenso e dá lugar a outro, que tem espaço para todos, sobretudo para os novos talentos — na agenda cabe música, arte, literatura, workshops e até aulas ao ar livre. Há vários eixos de programação, que incluem showcases da Prata da Casa, um projeto com a curadoria do coletivo Chelas É o Sítio (encabeçado por Sam The Kid), para dar palco a artistas locais, outros DJ sets de artistas independentes da cena eletrónica, com a curadoria do projeto Um/Quarto  e um ciclo de com atuações ao vivo de artistas da world music, com a curadoria de Luís Viegas, programador do Rock in Rio Lisboa.

Além disso, estão previstos espetáculos das “bandas empresariais” que participam no projeto Brands Like Bands e iniciativas literárias com o selo da LeYa – desde encontros com autores, feiras do livro ou clubes de literatura. Para dias mais mexidos, há aulas ao ar livre programadas pela Jazzy Dance Studios.

A programação completa está disponível no site da Casa de Pedra, e sempre que houver eventos é recomendada a reserva para garantir lugar. Os primeiros eventos decorrem já na próxima semana, a partir de dia 22 de maio, e o calendário vai sendo atualizado com novas propostas.

Depois do verão, que se avizinha de agenda gorda, a ideia é manter o espaço em funcionamento. “Temos de perceber estes próximos meses se as pessoas gostaram da ideia ou se é apenas uma doce ilusão nossa, mas a ideia é não parar nunca e adaptar o espaço à altura do ano. Mesmo durante o festival queremos estar operacionais com a Casa”.

O espaço

As paredes caiadas de branco deixam a descoberto ainda algumas manchas da ruína que dantes esmorecia no parque. É como se o branco tivesse estalado para deixar à vista a pedra, tanto no espaço exterior como na sala interior — onde por cima dos janelões se deixaram molduras de pedra visíveis para “preservar o espaço original”, diz Roberta.

No total são 300 metros quadrados que se dividem entre espaço interior e exterior, ambos preparados para receber os eventos de agenda. A sala do restaurante é ampla, com um grande pé-direito, e uma decoração simples, com muitas madeiras que casam com o jogo de cores em tons terra. Foi pensada para contrastar com os detalhes associados à música, à arte, ao pop, ao punk e à arte urbana — tudo parte da cultura do festival. A ligação ao Rock in Rio era inevitável num espaço como este e as guitarras penduradas na parede são prova disso — fazem parte do espólio do festival, todas autografadas por artistas como Justin Timberlake, Lorde, Ed Sheeran, Red Hot Chilli Peppers, Maroon 5 ou James.

Este é um dos palcos que serve de apoio ao espaço, pronto a receber as iniciativas culturais ©DR

Também os quadros que estão na parede fazem parte da agenda cultural do espaço que vai receber exposições, integradas de alguma forma na decoração, de artistas locais que têm ali palco para expor os seus trabalhos. A primeira exposição é assinada por Luís Santos, conhecido por LS, que levou para a Casa de Pedra sete quadros, que estão à venda.

E para poder receber todos os eventos que estão programados, existem dois palcos: um maior na sala interior, com um grande néon que grita Rock in Rio, e outro mais pequeno na esplanada da entrada. “Temos o know-how, portanto montámos uma estrutura de luz, vídeo, som e imagem para complementarem o palco. Ninguém precisa de trazer nada, temos toda a parte logística para recebermos concertos, conversas, eventos, tudo”, refere Roberta. “Até porque sabemos que alguns artistas não têm a capacidade, nem estrutura para tal, e nós estamos cá para isso”.

Mais ao fundo, foi construída uma mezzanine, também com algumas mesas e sofás, ideal para quem quer estar mais resguardado ou até para trabalhar durante umas horas, uma vez que o espaço também está programado para tal.

Apesar das dezenas de hectares relvados que a rodeiam, a Casa de Pedra não podia abrir sem ter espaço de esplanada — neste caso até tem dois. A entrada no restaurante faz-se pelo deck de madeira que tem aí a primeira zona de esplanada, com mesas mais pequenas, chapéus de sol e vista direta para os montes e vales do Parque da Bela Vista. Atravessando o interior do espaço chega-se a uma espécie de jardim interior, com chão em gravilha, e mesas mais longas — mais direcionadas a grupos, ainda que com as devidas restrições. As luzinhas pendem do teto e, no futuro, quando estiver mais frio, estão a preparar-se para terem aquecimentos exteriores.

Toda o espaço tem acessos para pessoas com mobilidade reduzida, e conta também com um estacionamento privativo, que dá entrada direta para o restaurante.

A comida

A cozinha da Casa de Pedra não tem peneiras. Foi pensada para ser o mais simples possível e conseguir agradar a todos, desde as crianças que “são mais chatas para comer” aos adultos, que vão em família, em almoços de trabalho ou jantaradas com amigos. O espaço é transversal e a comida também o quer ser, admite Gabriela Biekarck, coordenadora de Food & Beverage do Rock in Rio no Brasil e em Lisboa e responsável de operações da Casa de Pedra.

“Aos poucos a gente foi aprendendo muita coisa com os curadores de catering dos festivais cá e no Brasil. Tentámos, no fundo, aplicar o que aprendemos e ter uma oferta diversificada, acima de tudo”, conta Gabriela. “Eu também tirei um ano sabático para viajar pelo mundo e trazer algumas ideias inspiradas naquilo que fui comendo por lá”.

O restaurante abre durante a semana para servir almoços e jantares, com direito a entradas como mini calzones ( 5 euros) ou foccacia (2 euros), podendo a refeição seguir mais saudável ou mais calórica. No campo das saladas, salta a vista a de quinoa, abacate e molho de mel e mostarda (8 euros), a de frango panado e crocante de amendoim e molho de iogurte e ervas (12,50 euros) ou a de salmão fumado com feta e cebola roxa (10,50 euros).

As pizzas caseiras são um dos pontos fortes do menu e dos pratos mais pedidos ©DR

Para pratos mais compostos há bife clássico com molho da casa (13 euros) e salmão grelhado (12 euros). O campeonato das massas é mais extenso com opções como ravioli de salmão ou de búfala (11,50 euros), tortellini de carne pomodoro (9 euros) ou tagliolini trufado (12 euros).

Há também uma série de pizzas a compor o menu como a de salame ventricine (11,50 euros), a de parmesão e rúcula (13 euros), a de tomate seco (9 euros) ou a de funghi tartufata (13 euros). A mousse de chocolate (5 euros), os churros crocantes (5 euros) ou os waffles (6 euros) rematam as refeições, havendo também sempre um bolo do dia.

Outra das particularidades, ou não estivessem num sítio propício para tal, são os piqueniques. No menu da Casa de Pedra estão disponíveis, aos sábados e domingos, cestas de piquenique, uma solução chave na mão já com tudo incluído — toalha, talheres, pratos e até sacos para no final depositar os materiais recicláveis e os resíduos orgânicos, que serão recolhidos pela CML e transformados em fertilizante para os jardins da cidade. Existe a cesta Sunrise (15 euros por pessoa), mais focada nos piqueniques matinais, com pães e tostas, salada de fruta com iogurte, mel e granola, bolos do dia, pastéis de nata, manteiga, creme de avelãs, queijo fiambre e sumo natural. Já a cesta Sunset está mais virada para os fins de tarde (16,50 euros por pessoa) e inclui petiscos como burrata temperada, guacamole, hummus, pães e tostas variadas, espetada de frutas, azeitonas e sumo natural.

Os piqueniques estão disponíveis aos fins de semana, sendo que a cesta pode ser levada para qualquer lugar do parque ©DR

Aos fins de semana, a Casa de Pedra abre mais cedo e serve também tostas, omeletes e bowls de açaí para os pequenos-almoços.

O que interessa saber

Mostrar Esconder

Nome: Casa de Pedra

Abriu em: maio de 2020

Onde fica: Parque da Bela Vista, Av. Dr. Arlindo Vicente, Liisboa

O que é: uma antiga casa de apoio do Parque da Bela Vista que agora foi reabilitado

Quem manda: Roberta Medina (e equipa do Rock in Rio)

Quanto custa: preço médio de 15 euros por pessoa (refeição)

Uma dica: visitar o espaço ao fim de semana e reservar uma cesta de piquenique para usufruir no jardim

Contacto: 910 800 326/ adm@casadepedra.pt

Horário: Terça a sexta 12h às 22h30 e sábados e domingos 09h às 22h30.

Links importantes: site, instagram, facebook

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes.