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Décimo, sétimo, quarto. Desistência, segundo, ___________. Entre qualificações e corrida (e sessões de treinos livres), a evolução de Miguel Oliveira com a sua KTM era notória. E esse era o grande objetivo do português no Grande Prémio da Catalunha: preencher o espaço em branco com mais um resultado que permitisse prosseguir essa linha contínua de evolução que já em França, apesar da queda que lhe retirou a possibilidade de atacar um top 5, se tinha verificado. Entre os tempos registados este sábado e o arranque fantástico na última prova no circuito de Mugello, o piloto de Almada mostrava-se confortável com mais um bom registo no Mundial.

Mugello foi só o início: Miguel Oliveira faz melhor qualificação do ano e sai do quarto lugar na Catalunha

Estou contente com este quarto lugar na qualificação, dá outra confiança para realizar uma boa corrida. Fiquei contente com esta qualificação. Sair da segunda linha da grelha é um bom resultado para mim e para toda a equipa. Portanto, ainda esta tarde [de sábado], há algum trabalho para fazer no que concerne ao temos de fazer para a corrida. Mas estou contente, confiante e com vontade de fazer uma boa corrida amanhã [domingo]”, frisou Miguel Oliveira à sua assessoria de imprensa após a melhor qualificação do ano e a segunda desde que subiu ao MotoGP em 2019, apenas superada pela pole position na última prova de 2020, no Algarve.

Um arranque de sonho, uma corrida sem falhas, um final polémico: Oliveira acaba em segundo, é penalizado mas mantém posição em Itália

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Tão ou mais importante do que a quarta posição, que permitia ao português colocar-se na segunda linha da grelha de partida pela primeira vez em 2021, Miguel Oliveira conseguiu rodar em tempos muito interessantes até em comparação com alguns dos pilotos mais rápidos como Fabio Quartararo, que somou a quinta pole seguida no Mundial (mais 0,246), Jack Miller (mais 0,209) ou Johann Zarco (apenas mais 50 milésimos). Na décima posição no Mundial, qualquer resultado no top 5 iria sempre significar um importante aproximar em relação aos pilotos com mais pontos nesta fase, mesmo considerado o gap de 35 pontos para o sexto lugar.

Era neste contexto que chegava a sétima corrida do Campeonato do Mundo de 2021, que começou de forma irregular com quatro corridas fora dos top 10 e a rodar muito aquém da concorrência entre Qatar, Doha, Portugal e Espanha antes da desistência em França e do segundo lugar em Itália – e desta vez com a presença de muitos adeptos nas bancadas, com o português a ser um dos mais apoiados entre os pilotos da “casa”, Quartararo e a armada transalpina entre Yamaha e Ducati. E no warm up o segredo acabou por ser a alma do “negócio” da KTM, com Miguel Oliveira e Brad Binder a serem dos piores tempos na manhã sem nunca forçarem andamento.

Se a saída em Mugello tinha sido fantástica, em Montmeló não ficou em nada atrás: vendo a má saída de Zarco, Miguel Oliveira procurou essa trajetória, subiu logo para a terceira posição, arriscou na curva seguinte para ir para a frente de Quartararo e colar-se a Jack Miller, esperou por um erro da Ducati sem estar a forçar e foi “premiado” por essa regularidade para saltar para a frente na segunda volta, ganhando depois um ligeiro avanço numa fase em que Quartararo fez mal uma curva e provocou o atraso dos pilotos à sua volta.

Miller ainda conseguiu andar na roda do português na volta seguinte mas Miguel Oliveira tinha mais para mostrar num início extraordinário de corrida, cravando um avanço muito interessante sobre o australiano que mantinha a segunda posição sem grande pressão enquanto a grande luta estava focada na terceira posição, por onde passaram Quartararo, Aleix Espargaró e Joan Mir antes da chegada de uma dupla que prometia colocar-se também nessa disputa: Marc Márquez e Johann Zarco. No entanto, esse momento seria sobretudo determinante para estabelecer as principais linhas para o que viria a ser a segunda metade da prova na Catalunha.

Miguel Oliveira chegou a ter mais de um segundo de vantagem mas a partir do momento em que Quartararo voltou ao segundo lugar por troca com Joan Mir esse avanço foi sendo reduzido com o passar das voltas, algo que acabou também por beneficiar o espanhol campeão do mundo em título que aproveitou para se distanciar de Jack Miller e Johann Zarco, enquanto Maverick Viñales, Pecco Bagnaia e Brad Binder colocavam o foco na sexta posição de uma corrida que já não tinha Marc Márquez (mais um erro anormal do antigo campeão espanhol na curva 10, onde forçou em demasia e foi ao chão) e também Aleis Espargaró, que também estava a andar bem. Na frente, Quartararo ultrapassou Miguel Oliveira a 13 voltas do final mas a história estava longe de acabar.

Apenas duas voltas depois, o Falcão voltou a abrir as asas e, já depois de uma ameaça no final da reta da meta, conseguiu passar de novo o líder do Mundial. E arriscou por várias razões: a combinação de pneus duros dava ao português uma outra estabilidade que Quartararo podia não ter, o facto de andar atrás do piloto da Yamaha não favorecia em determinados pontos da pista a KTM e o gaulês nunca conseguiu cravar tempos suficientes para comprovar o domínio nas últimas corridas. Lá atrás, Zarco não só conseguiu superar Jack Miller como passou sem problemas Joan Mir no momento certo, lançando-se em busca dos dois primeiros a partir daí.

Havia apenas uma dúvida para as últimas cinco voltas: estaria Quartararo a gerir a corrida para atacar no final ou o evidente desgaste nos pneus não dava margem para o francês encostar de novo em Miguel Oliveira? Não demorou a chegar a resposta: não dava mais. Tanto que Zarco saltou mesmo para o segundo lugar depois de uma trajetória falhada de Quartararo que estava entretanto com o fato aberto e a ser atacado por Jack Miller na última posição do pódio. Apesar da pressão de Zarco, Miguel Oliveira, qual relógio suíço, carimbou a primeira vitória do ano e a terceira de sempre no MotoGP, ao passo que Quartararo não conseguiu aguentar a pressão de Miller e foi o australiano a fechar o pódio, perdendo assim alguns pontos para as duas Ducati.