Numa nova ronda pelas propostas de moda masculina para o verão de 2022, Paris voltou a ser o culminar do calendário internacional. Durante seis dias, casas históricas como Christian Dior, Birberry, Hermès e Louis Vuitton desfilaram ao lado de criadores já consolidados — Isabel Marant, Dries Van Noten ou Thom Browne. No alinhamento de apresentações, que chegou ao fim no último domingo, houve espaço para a moda portuguesa. Ernest W. Baker, a marca de Reid Baker e Inês Amorim, voltou a picar o ponto em Paris e a chamar as atenções da imprensa internacional.

Destaque para os criativos ao leme dos grandes impérios de moda. De contextos tão diversos como Itália ou Estados Unidos, impõem a sua própria linguagem enquanto diretores criativos dão um cunho pessoal ao ADN de marcas há décadas implementadas no mercado. Acontece com a Burberry de Tisci, com a Vuitton de Virgil Abloh e com a Dior do britânico Kim Jones, que desta vez contou com um célebre braço direito, o rapper Travis Scott.

Burberry

Há três anos que Riccardo Tisci parece estar a dosear aqueles que são os seus traços e o seu estilo particular numa matriz repleta de história e elementos bandeira. Com uma herança que se entende por mais de um século e meio, a Burberry tem visto a sua silhueta, bem como os seus grande clássicos, reatualizada à luz das referências estéticas do criador italiano. Mas Tisci, que antes de aterrar na marca britânica deixou uma marca indelével na história da Givenchy, nunca tinha deixado que a sua própria linguagem falasse tão alto como na coleção apresentada na última semana. Com um deserto árido como cenário, o criador começou por propor desconstruções de peças tão emblemáticas como o trench e o carcoat, para depois de descolar quase por completo das referências do pronto-a-vestir britânico e mergulhar num registo mais underground e minimal, misturando influências do streetwear e do workwear.

Louis Vuitton

Já a marca deixada por Virgil Abloh na linha masculina da Louis Vuitton parece ser cada vez mais vincada. Nos últimos três anos, o norte-americano não adicionou apenas novas cores ao pronto-a-vestir desta maison centenária — existe hoje um novo léxico, onde a diversidade cultural e a inclusão de estéticas e subculturas foram substituindo uma silhueta enraizada na alfaiataria clássica. Tie-dye, motivos florais, color block, saias volumosas, tons néon e uma mescla de sportswear e streetwear. Um desfile que Abloh complementou com um curta-metragem de 16 minutos realizada por Mahfuz Sultan e onde voltou a cruzar as referências mais improváveis — do soul e do funk do final dos anos 60 ao kendo, uma arte marcial japonesa.

Christian Dior

Para a Dior de Kim Jones (outro forasteiro em Paris, desta vez vindo do Reino Unido), a última sexta-feira foi especial. Não só o criador conseguiu organizar o seu primeiro desfile com público desde que a pandemia despontou na Europa, como uniu esforços com Travis Scott para antecipar a próxima estação quente. O resultado foi um cruzamento dos arquivos Dior, aos quais o rapper de 29 anos acedeu no âmbito deste trabalho a quatro mãos, com uma inspiração claramente americana trazida para a equação por alguém que nasceu e cresceu em Houston, no Texas. O imaginário contaminou a coleção de Jones, a começar pela paleta, onde se destacaram os verdes e os rosas, numa base composta por tons terra, referência inequívoca à paisagem daquela região. A colaboração foi além da roupa. Camisas pintadas à mão pelo artista George Condo vão ser leiloadas para financiar um novo programa de bolsas criado por Travis Scott, com o objetivo de proporcionar a jovens estudantes nos Estados Unidos o acesso a formação na Parsons School of Design, em Nova Iorque.

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