A abertura de novos cursos de medicina em Aveiro, Vila Real e Évora está no horizonte. A previsão foi feita esta terça-feira à tarde pelo primeiro-ministro durante a inauguração da primeira faculdade privada de Medicina em Portugal. No discurso proferido na Universidade Católica, António Costa reforçou uma ideia que o ministro Manuel Heitor já tinha defendido numa entrevista recente ao Diário de Notícias de que novos cursos de medicina estão para surgir. Pelo caminho, apontou o dedo ao corporativismo — médico, neste caso — e aos bloqueios que terão atrasado a abertura do curso da Católica. 

“Em 2015 havia 40 localidades com oferta de Ensino Superior”, agora há 134, afirmou o primeiro-ministro, sublinhando a aposta que tem sido feita para aumentar a oferta educativa. “Esse esforço tem sido notório no que diz respeito à formação em medicina. Em Aveiro, Vila Real e Évora perspetivam-se a abertura de novos ciclos de formação e reforços de formação no Algarve, Covilhã e Braga, para além de Lisboa, Porto e Coimbra.”

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No entanto, Costa deixou claro que a oferta não tem de nascer necessariamente nas universidades públicas, sugerindo que outras instituições privadas possam seguir o exemplo da Católica que há vários anos tentava abrir o curso que agora inaugurou.

“Este esforço não tem de ser exclusivo do Estado, este esforço pode e deve ser também partilhado por outras instituições universitárias de outra natureza. Não me surpreende que tenha sido a Universidade Católica Portuguesa a primeira instituição universitária não pública a concretizar a formação num curso de medicina”, sublinhou o primeiro-ministro, deixando os parabéns à universidade pelo sucesso do resultado.

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António Costa frisou ainda que neste momento final, depois de vários anos a tentar credenciar o curso de Medicina, é importante não esquecer as lições aprendidas.

“A maior lição que todos temos de retirar é que temos de ter a máxima exigência científica mas a nula capacidade de bloqueio corporativo”, frisou o primeiro-ministro, numa crítica velada à Ordem dos Médicos, Associação de Estudantes de Medicina e reitores de faculdades públicas de Medicina que foram frontalmente contra a abertura deste novo curso.

António Costa disse ver, por isso, “com satisfação esta capacidade que a Universidade Católica teve de vencer a burocracia do Estado, os poderes corporativos”, enquanto se associou a diversas instituições, como o Instituto Gulbenkian Ciência e o Grupo Luz Saúde. “Unindo esforços encontram-se soluções para os problemas”, rematou Costa, deixando uma última palavra antes de dar os parabéns aos alunos que conseguiram uma das 50 vagas disponíveis no novo curso superior.

“Para aqueles os que têm o privilégio da fé mais fácil será ainda superar as dificuldades do que aqueles que não tem esse privilégio, tem de se limitar a contar com aquilo que é a capacidade limitada do ser humano, mas essa já é de si e por si, muito, muito grande”, terminou o primeiro-ministro.

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Primeira faculdade privada de Medicina arranca com 50 vagas

A primeira faculdade privada de Medicina foi inaugurada esta terça-feira pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) numa cerimónia em que participaram, entre outras figuras, o Presidente da República e o primeiro-ministro. A inauguração da nova Faculdade, no campus de Sintra da UCP, estava agendada para segunda-feira, mas foi adiada devido à morte do antigo Presidente da República Jorge Sampaio.

A Universidade Católica passa a ser a primeira instituição de ensino superior privada em Portugal a ministrar um curso de Medicina, que foi aprovado pela Agência de Avaliação e Acreditação Do Ensino Superior (A3ES) no ano passado.

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Com apenas 50 vagas para o primeiro ano letivo e mais de 600 alunos que manifestaram interesse em candidatar-se, o processo de seleção incluiu, além das notas do secundário e exames, um teste de competências e oito mini-entrevistas para avaliar a vocação dos jovens.

“Nós queremos ter pessoas que querem ser médicos, mas em todas as suas competências, desde a académica, à científica, à comunicativa, à empatia com os doentes e à integridade. Todas as características que o médico precisa ter, é o que nós queremos recrutar”, justificou o diretor António Medina de Almeida em entrevista à Lusa.

No final, as notas de candidatura dos primeiros 50 alunos do mestrado integrado variaram entre 19,3 e 17,4 valores, uma média que não se distancia muito dos 18,3 valores da Universidade da Beira Interior em 2020 e a média de ingresso mais baixa na primeira fase de candidaturas desse ano.

Quase 100 mil euros para completar o curso

Para se formarem na Católica, os futuros médicos terão de pagar 1.625 euros mensais ao longo dos seis anos do curso. No total, são 97.500 euros a que acrescem ainda outras taxas e emolumentos. Na mesma entrevista, António Medina de Almeida reconheceu que se trata de um curso caro, mas ressalvou que as contas já foram feitas e o custo de formar um médico ao longo de seis anos ultrapassa os 100 mil euros.

Ainda assim, justificou o valor com os custos associados a recursos humanos, a custos específicos dos cursos de Medicina e associados a outros equipamentos para os diferentes laboratórios da faculdade, ou a sala de anatomia preparada para receber corpos que serão depois estudados pelos alunos.

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O diretor da Faculdade destacou também que o novo curso se distingue da oferta existente nas instituições públicas de ensino superior, referindo como exemplo que os alunos começam desde o primeiro ano a aprender técnicas profissionais e que a Católica vai apostar igualmente noutro tipo de competências não académicas, designadamente a comunicação, através de consultas simuladas também desde o início do curso. A Católica recebe agora os seus primeiros 50 estudantes de Medicina, estando previsto que a partir do ano letivo seguinte o número de lugares disponíveis passe para 100.

Na inauguração estiveram também presentes o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, o vice-presidente do Conselho de Administração do Grupo Luz Saúde, Isabel Vaz, e o presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta.

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Inauguração marca “um tempo novo”

A reitora da Universidade Católica Portuguesa sublinhou que a inauguração da nova Faculdade de Medicina marca “um tempo novo”, reafirmando a vontade de contribuir para a inovação da formação médica em Portugal.

“Para tudo há um tempo. Há um tempo para imaginar, para propor, planear, discutir e, finalmente, há um tempo para fazer. Hoje inicia-se um tempo novo”, disse Isabel Capeloa Gil durante a cerimónia de inauguração da nova faculdade.

A reitora da Universidade Católica Portuguesa (UCP) recordou o longo caminho percorrido até aqui, relembrando o lançamento do primeiro projeto de Medicina há cerca de 30 anos, mas olhou sobretudo para o futuro.

Reafirmando a intenção de contribuir para o desenvolvimento e inovação da formação médica em Portugal, Isabel Capeloa Gil sublinhou que o novo curso é mais do que a continuidade daquilo que tem vindo a ser feito em Portugal.

“Iniciar um novo projeto universitário de Medicina em 2021 não significa olhar meramente para o passado, completar a matriz do que constitui o saber estruturante do desenvolvimento das universidades, mas antecipar, preparar e motivar para um futuro melhor”, afirmou.

A responsável assegurou que, de olhos postos nesse futuro, o novo curso vai posicionar-se “num espaço de fronteira em que se colocam as mais interessantes e desafiantes questões para o conhecimento científico”.

“A Universidade Católica deve estar onde se debate o futuro da ciência, onde se redefinem os limites do conhecimento e vai fazê-lo com o sentido de procura, curiosidade e responsabilidade que sempre marcou a sua ação”, acrescentou, afirmando ainda que a instituição quer “caminhar onde outros ainda não pisaram”.

“No século XXI, a formação de um médico não se esgota na Medicina”, justificou Isabel Capeloa Gil durante a cerimónia de inauguração, explicando que a nova oferta pretende também diferenciar-se por apostar em todas as competências que fazem um bom médico.

“Com este novo curso estamos a contribuir para a formação de novos profissionais altamente qualificados, essenciais para o desempenho de funções de elevada complexidade, determinantes para que o país tenha futuro”, insistiu.

Mensagem semelhante foi transmitida pelo diretor da Faculdade, António Medina de Almeida, que elegeu como grandes protagonistas os próprios alunos.

“Do nosso lado, garanto que tudo faremos para que estejam preparados para a vossa vocação de cuidadores, mas também de investigadores e de promotores de saúde pública. Sobretudo, o nosso maior desejo é incutir nos nossos alunos a grande paixão que nós próprios temos pela medicina”, disse.

Isabel Capeloa Gil deixou também uma mensagem dirigida às vozes críticas que se opuseram à formação privada em Medicina, afirmando que “é preciso agir agora, superando o narcisismo das pequenas diferenças que descuram o interesse comum”, isto é, a aposta na formação médica e na sua inovação.

“Há um tempo para imaginar, para planear, para discutir. Há um tempo para combater e há um tempo para realizar. Hoje é tempo de deixar o combate e trabalhar em conjunto para o futuro de Portugal”, concluiu.