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Em Tóquio, no Estádio Olímpico, entrevistar Krystsina Tsimanouskaya poderia não ser a tarefa mais difícil do mundo. Aliás, era uma tarefa: se a atleta quisesse, acontecia; se não quisesse, não iria acontecer. Era só uma questão de perguntar, junto das grades de segurança que dividiam aquela que era a maior zona mista nos Jogos, não por motivos de segurança mas por respeito aos protocolos sanitários. Hoje, muitos capítulos depois numa história que levou a bielorrussa a exilar-se na Polónia, as coisas não são assim tão fáceis e o jornal ynetnews, de Israel, funcionou como um bom exemplo disso até conseguir uma entrevista.

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Primeiro, fazer o pedido. Um email em nome de outra publicação do grupo, o Yedioth Ahronoth também de Telavive, imagens dos passaportes dos requerentes, uma carta de recomendação do ministro dos Negócios Estrangeiros polaco. Depois de ser aprovada a entrevista, a viagem até Mokotów, em Varsóvia, onde havia como ponto de encontro um prédio novo de escritórios com quatro andares entre um supermercado que estava abandonado e uma loja que tanto vendia pregos como banheiras de hidromassagem. A seguir, a receção por uma pessoa responsável pela Fundação Solidária do Desporto da Bielorrússia (BSSF). Código na porta, a condução até a um terceiro andar com muitas plantas e pequenas salas, a espera pelo início.

Podia ser apenas mais um prédio, mais um andar, mais uma sala. Não era. De acordo com o ynetnews, ali ficava uma espécie de base de operações do governo sombra da Bielorrússia. Ali trabalhou Pavel Latushko, antigo ministro e diplomata do governo de Alexander Lukashenko, que é acusado de terrorismo pelo seu país e já terá sido vítima de um atentado por envenenamento. No entanto, é por Krystsina que a segurança naquele terceiro piso é tão apertada, bem mais do que os jornalistas que entravam em qualquer recinto dos Jogos, em Tóquio: tirar casaco, despejar tudo o que está na mala, passar ao pormenor o detetor de metais. Lá ao fundo passa o marido da atleta, Arseni Zhdanevich, que é também o treinador, fugido da Bielorrússia quando percebeu o que poderia acontecer e com a data do casamento tatuada no seu braço.

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É neste contexto que chega Krystsina Tsimanouskaya, descrita como alguém que já tem 24 anos mas que não perde o ar de criança depois de ter sido manchete em jornais em todo o mundo e de, poucos dias antes, voltar a ser notícia pela oficialização da venda da medalha que tinha ganho nos Jogos Europeus de 2019, na estafeta de 4×100, por 17.700 euros para ajudar outros desportistas perseguidos pelos seus países. Evgeny, um cidadão ucraniano há 30 anos em EUA, avançou com o dinheiro mas acordou também doar o troféu ao “Museu da Bielorrússia Livre”, uma exposição itinerante que se vai realizar na Polónia.

“Tudo começou quando voltei à Aldeia Olímpica depois da prova dos 100 metros e estava uma mensagem para marcar presença na prova dos 4×400 metros. Foi algo que nunca corri, para atletas com características diferentes das minhas. Eu fico cansada ao fim de 200 metros… Recordo-me do aviso de Lukashenko antes dos Jogos , dizendo que se não ganhássemos medalhas, escusávamos de voltar. Sabia que se participasse naquela corrida estava a destruir as minhas hipóteses nos 200 metros. Tudo porque os oficiais se esqueceram de enviar os testes das atletas originais da estafeta… Mandei mensagem aos responsáveis, ninguém me respondeu e estava zangada com essa falta de respeito”, começou por recordar.

“Coloquei toda a história no meu Instagram e disse que estava a ser forçada a correr apesar de não ter sido consultada, dizendo os nomes dos oficiais e queixando-me que estavam a usar-me para esconder os seus próprios erros. Foi uma reação emocional da minha parte e escrevi sem pensar no que se seguiria. Pouco depois, o chefe de missão e um responsável do Comité Olímpico da Bielorrússia foram ao meu quarto, exigiram que retirasse a publicação e assim fiz”, prosseguiu, falando também da conversa gravada onde foi ameaçada de morte e uma entrevista editada pela TV nacional onde ficava a ideia de que teria sofrido de um período temporário de insanidade quando decidiu contar tudo o que se passara nas redes sociais.

“Achava que estava tudo arrumado mas no dia seguinte recebi a visita de outro responsável e também de uma psicóloga que trabalha numa instituição em Minsk. Disseram-me que tinha meia hora para fazer as minhas malas e que seria colocada num hospital psiquiátrico com violadores, homicidas e pessoas que se tentaram matar. Tentaram-me intimidar mas não lhes dei esse prazer. Percebi que dizer mal do governo é sinal de que somos loucos, percebi que tinha deixado de ter país. Fiquei chocada, em pânico, com fome por não comer há dez horas. Tinha deitado fora cinco anos da minha vida na preparação para ser expulsa da Aldeia Olímpica. Avisei o meu marido que teria de estar preparado para sair do país, a seguir liguei à minha avó e à BSSF, que me disseram que a decisão seria sempre minha mas que se pensasse em voltar corria o risco de ser presa ou ir para um hospício”, contou a atleta bielorrussa.

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“Fui para o carro com a psicóloga atrás de mim. Disse ao meu marido que era altura de fugir. Depois, liguei de novo à minha avó”, continuou, assumindo a viragem de discurso que ouviu: “Todos os pensionistas são apoiantes do governo e trocámos muitos argumentos no passado sobre isso mas ela disse-me ‘Amo-te muito mas não te atrevas a voltar à Bielorrússia, estão há horas a dizer que és louca'”. 40 minutos depois, Krystsina Tsimanouskaya estava no aeroporto. Pensou chorar para cima do passaporte, percebeu que não ganharia nada com isso. Aí, num movimento imprevisto, pegou no telefone, escreveu no Google Translate “Ajudem-me, estão a levar-me contra a minha vontade” para japonês e esperou. “Como me lembrei isso? Com o Brad Pitt, no Ocean’s Eleven. Não há nenhuma cena assim no filme? Pois não mas aprendi a enganar o sistema com ele”, contou. Ainda assim, continuava sem saber o futuro.

A bateria do telemóvel estava quase no fim, a entrada para o embarque com destino a Istambul estava ali à frente e o facto de mostrar a mensagem não estava a surtir efeito. “Havia um polícia japonês numa outra porta e mostrei-lhe também o telefone. Estava com dificuldades em comunicar comigo e foi-se embora mas então voltou com outro polícia que ficou com o meu passaporte e a minha bagagem. Fui protegida por eles enquanto chamavam o Comité Olímpico Internacional. Acabou por ser conduzida a um hotel onde ficou debaixo de vigilância, enquanto o marido fazia a viagem de carro entre Rússia e Ucrânia. Ambos tiveram visto da Polónia, onde ainda hoje se encontram exilados num pequeno apartamento. “Quando passei pelo espaço aéreo da Rússia senti um verdadeiro alívio”, contou, após ter estado na embaixada polaca.

Aos 24 anos, Krystsina continua a competir, com a curiosidade de ter erguido uma bandeira da Polónia na primeira prova internacional que fez depois dos Jogos Olímpicos. Ainda assim, e entre as considerações sobre a Bielorrússia que tecera na altura, afirma que “a liberdade é um termo relativo”.

“Hoje consigo reconhecer a enorme pressão que tive de enfrentar, as exigências físicas e emocionais que tinha de fazer para mostrar adoração e lealdade a um líder quando às vezes não tinha nem água quente nem um duche privado. Não é fácil tornar-me um símbolo de liberdade. É uma transformação difícil. Gostava de ser recordada pelos meus feitos como atleta mas acabei por tornar-me a pessoa mais conhecida entre todos os participantes nos Jogos Olímpicos por algo diferente. Treinei toda a minha vida para ser mais rápida mas não estava preparada para isto. Sei que se participar nos Jogos de Paris e se ganhar quatro medalhas, vou ser sempre recordada por Tóquio, apesar de mal ter competido”, concluiu.