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A gigante chinesa Evergrande, que tem estado em foco nos últimos dias nos mercados financeiros mundiais, anunciou esta quarta-feira que chegou a um acordo com os detentores de uma parte da sua dívida (chineses) para evitar que se materialize o incumprimento das suas obrigações já nesta quinta-feira. O anúncio, a par de uma injeção de liquidez feita pelo banco central chinês, está a atenuar – pelo menos para já – os receios de que um eventual colapso desta empresa chinesa pode representar um “momento Lehman” para os mercados mundiais, já que não é fácil avaliar até onde pode chegar a cadeia das perdas caso o governo chinês deixe a empresa cair.

Apesar de só esta semana a Evergrande ter saltado para o topo das preocupações dos investidores, levando a uma queda histórica nas bolsas mundiais na segunda-feira, este já é um dossiê seguido de perto pelos analistas, conhecedores da “montanha” de dívida sobre a qual está sentado este promotor imobiliário chinês. Trata-se de uma empresa pouco conhecida no Ocidente mas que chegou a ser a maior promotora imobiliária chinesa – nos últimos anos, porém, embarcou numa rota de endividamento que a tornou a maior emissora de dívida de alto risco em toda a Ásia.

Ainda não são totalmente claros os termos do acordo que foi celebrado com os obrigacionistas, embora o vago comunicado leve a crer que pelo menos uma parte (os juros) serão pagos aos investidores. Mas a notícia está a ser suficiente para atenuar um nervosismo que já diminuiu nesta terça-feira, nas bolsas de valores mundiais. Nesta fase, a vasta maioria dos investidores está a dar sinais de estar relativamente tranquila – sobretudo porque se estima que só o equivalente a 20 mil milhões de dólares da dívida da Evergrande estará colocada em investidores internacionais (um valor significativo mas, na verdade, uma pequena parte dos 305 mil milhões de dólares em dívida total que a empresa tem – o equivalente a 260 mil milhões de euros).

Uma sondagem feita pelo Deutsche Bank junto dos seus clientes, investidores institucionais, revelou na terça-feira que “apenas 8% dos inquiridos acreditam que a Evergrande poderá ter um impacto significativamente negativo para os mercados financeiros globais, com 68% a anteciparem “nenhum impacto ou um impacto limitado”. Essa relativa serenidade em relação a este tema contrasta com a ansiedade de alguns analistas que apontam para o facto de o governo chinês não ter, para já, dado qualquer sinal de que irá colocar a mão por baixo e evitar um colapso desordenado deste importante grupo económico.

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BlackRock, HSBC e UBS entre os mais expostos

Mesmo com o alívio relativo trazido pelas últimas notícias, há quem esteja a fazer contas a quem são as instituições financeiras ocidentais mais expostas, caso aconteça o pior. E, segundo uma análise da Morningstar, divulgada já esta quarta-feira, o gigante dos fundos de investimento BlackRock, o maior banco do mundo HSBC e o suíço UBS estão entre os mais expostos a títulos de dívida da Evergrande.

Essa exposição aumentou nos últimos meses mas existe confiança de que não são valores perigosos para instituições com essa dimensão – pelo menos quando se fala em exposição direta. Numa situação de grande gravidade como esta, envolvendo uma empresa com tanta dívida, o risco é que possam existir exposições indiretas ou impactos de segunda ordem como aqueles que podem surgir se um eventual colapso leve a um congelamento dos mercados monetários – como aconteceu na falência do banco de investimento Lehman Brothers.

Para já, não é essa a visão partilhada pelos bancos de investimento, porém. “São limitados os riscos de um contágio financeiro com impacto para os mercados globais”, assinalou Paul Lukaszewski, responsável pela pesquisa em dívida empresarial asiática do Aberdeen Standard Investments. “A exposição à Evergrande é predominantemente detida dentro do país, a China, e mesmo o mercado obrigacionista estrangeiro é muito especial porque os investidores domésticos representam 80% ou mais dos títulos denominados em dólares norte-americanos, emitidos por empresas chinesas”, acrescenta o especialista.

“Para que o contágio atingisse os mercados financeiros globais, seria necessário que houvesse efeitos de segunda e terceira ordem, em que a situação da Evergrande levasse a uma crise mais vasta no país – e acreditamos que isso é improvável“, termina Paul Lukaszewski.