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Mais vereadores, mais força para “assumir responsabilidades”, muita vontade de “construir” Lisboa. Foi assim, com um discurso cheio de ambição, que os comunistas encerraram quinze dias de campanha em que asseguraram querer voltar a participar na governação da cidade — leia-se, assumir pelouros — mas rejeitando assinar acordos formais ao lado de Fernando Medina. Por isso mesmo, fizeram questão de aproveitar este momento final para disparar contra quem assinou esses papéis com o PS há quatro anos — o Bloco de Esquerda –… mesmo sem nunca nomear o partido rival.

A ambição foi trazida à Voz do Operário, que graças à “imprevisibilidade meteorológica” serviu de palco fechado ao comício final da campanha, por Jerónimo de Sousa. Pouco presente na corrida a Lisboa, o líder veio à capital oferecer o seu apoio a João Ferreira e pedir mais. “Eis o que verdadeiramente conta: eleger mais vereadores, passar a ter mais força para intervir. Se aos dois vereadores a população acrescentar mandatos, é a cidade que fica a ganhar. E ganhará tanto mais quanto mais longe for expresso esse apoio”.

É uma fasquia alta, que não é prevista até agora pelas sondagens — e que poderia assegurar ao PCP a tão desejada nova “relação de forças” que o torne determinante para a governação da cidade. Caso falhe, poderá o PCP dizer que sendo assim não tem as “condições” que tanto pede para influenciar Fernando Medina, caso seja reeleito? Ou será a chave uma perda de vereadores do PS que dê aos comunistas mais margem de manobra do que o Bloco teve neste mandato?

O voto que “não vai para mãos erradas”. Bloco, strike one

Análise política à parte, Jerónimo vinha para passar uma mensagem otimista. Começou logo por “destacar” um aspeto que, assegura, terá caracterizado esta campanha: muita participação da juventude — um dos perigos muitas vezes apontados ao PCP é o desaparecimento de uma geração mais velha de eleitores fiéis, mas Jerónimo garantiu que tem visto muitos jovens a ajudar.

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Depois, passou a enumerar as razões pelas quais a CDU é um voto seguro — os tradicionais fatores da “credibilidade, rigor e confiança”, além das “décadas” de trabalho na cidade onde chegou a ter mais vereadores do que o PS — e a desvalorizar as “velhas e novas candidaturas que por aí se desdobram, suportados em slogans e promessas recorrentes, divorciados dos interesses da cidade”.

Conclusão? A CDU está “preparada para assumir todas as responsabilidades” e “respeitar a palavra dada e os seus compromissos”. Tiro ao Bloco de Esquerda? “Na CDU, o voto é respeitado, não vai para mãos erradas nem para dar força a terceiros”.

No meio de toda a ambição e aparente otimismo, fosse ele real ou para adepto comunista ver, houve ainda tempo para furar o costume de falar apenas do coletivo e dirigir um elogio concreto, e individual, ao candidato, que valeu gargalhadas, além de aplausos, na audiência: “Às vezes via aqueles debates na televisão e ouvia os outros candidatos a dizer: o João é capaz de explicar isto é melhor. Ou seja, camaradas: ainda tínhamos de ensinar os outros!”.

A “exigência” que faltou ao Bloco, segundo João Ferreira

O candidato elogiado riu-se e, quando foi a sua vez de subir ao palco, entusiasmou a plateia. Os atributos que escolheu, neste discurso final, para distinguir a sua candidatura não foram ao acaso: “vontade de construção” e “exigência”. Por um lado, a construção implica a vontade de participar no governo da cidade — e a CDU está “mais forte para concretizar as transformações necessárias”, garantiu; por outro, a exigência é o que tem garantido que faltou à atual maioria que governa na cidade, e em particular ao Bloco de Esquerda — o seu concorrente que terá ficado com as orelhas a arder depois deste comício.

“Esta candidatura transporta consigo essa exigência que não esteve presente no governo. Onde faltou vontade, ou capacidade, ou vontade e capacidade”, disparou, decidido a marcar as diferenças em relação ao resto da esquerda e em particular ao papel do Bloco, que apoiou Medina nestes quatro anos.

“Lisboa não está condenada a uma de duas opções: ou a permanecer incapaz de vencer estes bloqueios” — é o que entende ter acontecido com a maioria PS/BE — “ou a retroceder em todas essas áreas” — cenário que traça para uma vitória da direita. A CDU, por outro lado, será “uma alternativa que recusa andar para trás mas recusa igualmente este repetir de quatro em quatro anos um rol de promessas não concretizadas, como aconteceu com os dois partidos que repartiram entre si as responsabilidades”. Mais um ronda em que fez questão de não perder PS e BE — que não chama pelo nome — de vista.

A seguir, puxou do seu argumento de sempre: a experiência. “Dizemo-lo com a confiança de quem conhece a cidade, de quem sempre esteve ao lado do povo, contra os condomínios de luxo, os hotéis de charme, os apartamentos privados, pela habitação acessível”, enumerou.

“Domingo abre-se uma oportunidade que não podemos desaproveitar”, concretizou. E deixou a sua declaração de intenções — bem colada às intenções que a maioria PS/BE anunciou mas não concretizou, pelo menos na totalidade: “Para a CDU, o programa de arrendamento a custos acessíveis é para concretizar. A requalificação dos bairros municipais terá de ser uma realidade, não ficando a marcar passo como aconteceu no governo da cidade das duas forças que tiveram responsabilidades”.

Curiosamente, é exatamente esta expressão — as “responsabilidades” — que diz agora querer puxar para si neste novo mandato. “Tudo o que puder ser corrigido é para ser corrigido”, Ferreira dixit. A partir de domingo se verá se consegue fazer essa “construção” mais diretamente, assumindo pelouros na câmara, ou não. Na sala quente, acabados os dicursos e a campanha, ficaram jovens a dançar a Carvalhesa… e a pedir selfies ao candidato.