O último Campeonato da Europa voltou a ser um espelho da dura realidade da Geração de Ouro do futebol belga: grande qualidade, um futebol que salta à vista, jogadores das melhores equipas europeias, a mesma desilusão de sempre, neste caso contra a Itália nos quartos. A Liga das Nações, a par do Mundial de 2022, seria uma das derradeiras oportunidades para ter ainda quase todos os símbolos no ativo e lutar por um grande título. E essa podia ter sido mesmo a realidade, após uma primeira parte de sonho a “secar” o tridente ofensivo da França, a marcar dois golos e a ameaçar ainda mais. Mais uma vez, não chegou.

Não chegou porque os Diabos Vermelhos foram anjinhos. Não chegou porque a formação de Roberto Martínez traiu tudo o que tinha feito de bem ao longo de 45 minutos para ficar à espera que a vitória lhe caísse no colo numa toada de gestão. Não chegou porque a Bélgica esqueceu-se que o conjunto francês, que é campeão mundial em título, pode ser uma equipa de egos com problemas internos e divergências quase enraizadas há muito mas que também tem orgulho e que conseguiu no segundo tempo limpar a face.

O encontro começou com as duas equipas a apresentarem linhas de três na defesa (ou cinco sem bola, com os falsos laterais a fecharem) e um ou outro buraco bem aproveitado pelo adversário para ameaçar a baliza logo a abrir: Lloris fez uma defesa fabulosa a um remate na área de Kevin de Bruyne que parecia um golo garantido, Mbappé conseguiu ganhar a profundidade, entrar na área mas sem capacidade para atirar de seguida à baliza e Pavard desviou também com perigo. Tudo nos dez minutos iniciais de jogo, que estavam a prometer muito mas que tiveram depois uma fase de maior acalmia com as equipas a terem um maior encaixe. Ainda assim, e sempre que o jogo passava pelos pés de Kevin de Bruyne, havia sempre qualquer coisa de perigo pelo meio. E foi isso que virou em definitivo o encontro antes do intervalo.

Num primeiro lance, o médio do Manchester City recebeu no meio, viu bem a situação favorável de Yannick Carrasco a subir pela esquerda, assistiu o jogador do Atl. Madrid e, depois da diagonal que deixou Pavard fora do lance e Koundé atrasado, rematou colocado ao primeiro poste com a bola a desviar ainda de forma ligeira no central do Sevilha (37′). Pouco depois, De Bruyne colocou em Lukaku na área, o avançado rodou deixando a bola passar por entre as pernas e fuzilou Lloris para o 2-0 (40′). E a conta podia não ter ficado por aqui, com Eden Hazard a tentar também a sua sorte mas a ver Lloris a defender (45′).

O melhor que a França fez para reagir foi conseguir uma combinação entre Koundé e Mbappé, que teve um remate às malhas laterais do avançado do PSG. De resto, pouco ou nada. Com erros defensivos, com um vazio ao meio entre Pogba e Rabiot, com Griezmann demasiado longe da dupla da frente. No entanto, no futebol como em tudo, existe algo que se chama orgulho e que quando é beliscado pode iniciar redenções menos prováveis como a que aconteceu nos 15 minutos após o intervalo, que teve Griezmann a falhar sozinho na área e Benzema a reduzir de pé esquerdo após mais uma assistência de Mbappé (62′).

O jogo voltava a ficar em aberto, com a Bélgica a ter de fazer mais do que segurar a vantagem procurando sempre que possível as transições – o que não estava a acontecer. E a França não demorou a aproveitar esse momento de galvanização, chegando ao empate numa grande penalidade ganha por Griezmann (com recursos ao VAR) e transformada por Mbappé, que espantou fantasmas depois de ter falhado o penálti decisivo nos oitavos do último Europeu contra a Suíça (69′). A 20 minutos do final voltava tudo à estaca zero e com as duas equipas balanceadas num encontro que tinha partido com várias oportunidades.

Kevin de Bruyne, na primeira vez que teve a bola com qualidade no segundo tempo, obrigou Lloris a mais uma defesa fantástica para canto que poderia ter mais uma vez alterado o rumo do jogo mas a Bélgica, apesar desse lance bem gizado numa transição, tinha perdido o comboio do encontro e sofreu mesmo a estocada final em cima do minuto 90, com Theo Hernández a aproveitar uma segunda bola à entrada da área após corte de Alderweireld para rematar cruzado sem hipóteses para Courtois para o 3-2 final.