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A decisão foi anunciada como sendo definitiva, sem espaço para dúvidas nem adiamentos até à última hora. Depois de horas de dúvidas sobre se o PCP voltaria a empurrar a sua posição final sobre o Orçamento até quarta-feira, dia da votação, Jerónimo de Sousa foi claro: o PCP vota “contra” o documento — e já não acredita em “golpes de magia” que António Costa possa tentar até lá.

Foi uma declaração dura a que Jerónimo, um dia depois de o PCP ter reunido o Comité Central para decidir sobre o OE, fez na sede dos comunistas, em Lisboa. Sem deixar pedra sobre pedra na análise que faz ao Orçamento, fechou a porta a Costa: o tal “golpe de magia” do primeiro-ministro seria “uma imagem simpática e até interessante”… mas o líder comunista não “acredita em bruxas” e não tem mais nenhuma reunião com o Governo agendada.

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A lista de críticas ao Orçamento foi longa, mas Jerónimo focou-se nalguns pontos essenciais: sem um aumento mais expressivo dos salários, incluindo o salário mínimo, encontra-se aqui um “obstáculo intransponível” a separar PS e PCP; a somar a isto, o Governo não quis fazer mexidas significativas nas leis laborais, a começar pelo fim da caducidade da contratação coletiva, nem fazer um reforço maior do SNS.

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Conclusão? Mesmo que haja “medidas pontuais” que são positivas — Costa revelou, na sexta-feira, que o Governo vai aumentar todas as pensões até 1097 euros, alargar a isenção de IRS a mais 170 mil pessoas ou avançar na gratuitidade das creches, por exemplo — o Governo não dá uma “resposta global” aos problemas do país.

Não será uma surpresa para Costa: foi o próprio primeiro-ministro que nesse mesmo dia, à saída da reunião da Comissão Política Nacional do PS, explicou que os partidos já conheciam essas alterações. O voto contra que vinham anunciado não seria, portanto, revertido por causa delas. Mesmo as “longas horas” de reunião entre PS e PCP, no sábado, não surtiram efeito.

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E, perante as críticas de quem diz que isto é uma mudança de postura face aos últimos anos, Jerónimo traduziu o raciocínio dos comunistas: nos tempos da geringonça, era preciso tirar do poder um Governo de “desastre nacional”; depois veio a pandemia, e o PCP considerou que era preciso “dar respostas” às emergências do país; desta vez, já não há caminho futuro que una socialistas e comunistas. “Fomos até ao limite”, assegurou.

Quanto ao cenário de eleições antecipadas, que Marcelo Rebelo de Sousa tem assegurado ser a solução por que vai optar caso não haja Orçamento aprovado, Jerónimo recusou, uma e outra vez, que o PCP seja o responsável por essa consequência — “o PS terá de saber o que quer fazer”, comentou, questionado sobre se um novo Orçamento poderia resolver o bloqueio. E rematou: “Nós não batalhámos por eleições, procurámos resolver os problemas”. Mas “ainda bem que existe esse direito inalienável do povo português de exercer o seu direito de voto”.