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Marques Mendes, comentador e antigo líder do PSD, coloca em cima da mesa vários cenários pós-eleitorais, ao mesmo tempo que admite que “há um risco sério de instabilidade e ingovernabilidade”. Por outro lado, e apesar de saber que a maioria absoluta não agrada aos “partidos dos extremos”, aponta para o facto de essa ser uma “solução democrática e legítima” e aquela que “melhor garante” os objetivos.

“A maioria absoluta para o interesse nacional do país é aquela [solução que], tendo defeitos, é a que tem mais vantagens”, assegura.

Essa maioria absoluta, explica no habitual espaço de comentário na SIC, significaria “um governo estável e de quatro anos; um governo com tempo e condições para reformar e um governo sem desculpas para não governar”. E diz mais: “A opção é entre uma maioria absoluta e um governo ‘provisório’.”

O antigo líder do PSD recorda as hipóteses: nova geringonça, bloco central, maioria absoluta do PS ou PSD ou um governo minoritário do PS ou PSD.

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Sobre um novo acordo à esquerda, Marques Mendes lembra que o PCP “matou” a solução com o chumbo do Orçamento do Estado e “não ressuscita em 2022”. Trata-se, aos olhos do social-democrata, de um “cenário altamente improvável”.

O bloco central seria uma “má solução para o PS” porque “divide o partido”, mas Marques Mendes considera que seria “ainda pior para o PSD”, nomeadamente porque “abre uma autoestrada para o Chega”.

Já o cenário de maioria absoluta, sendo aquele que Marques Mendes diz garantir “mais estabilidade e governabilidade”, é “difícil de alcançar pelo PS” e “ainda mais difícil para o PSD”. Contudo, volta a alertar, “a bipolarização eleitoral entre PS e PSD favorece este cenário”.

Marques Mendes diz que eleições vão trazer “forte bipolarização” entre PS e PSD e vê “virtualidades” numa maioria absoluta

Por fim, a opção de um governo minoritário, em que o Governo “faz acordos na Assembleia da República caso a caso”. Marques Mendes reitera que esta é uma “solução instável” e “tem o risco de eleições de dois em dois anos”. Ainda assim, “é o cenário mais provável” segundo o comentador.

As entrevistas de Costa e Rio

Com uma crise política instalada, Marques Mendes analisou uma semana em que os dois líderes de PS e PSD deram entrevistas. O antigo líder social-democrata considera que António Costa deu uma “entrevista inteligente, bem pensada e bem concretizada”, como um “profissional da política”.

“Mas esta entrevista tem uma grande fragilidade: não é a entrevista de um primeiro-ministro com um projeto para o país; é a entrevista de um líder que só tem um objetivo: sobreviver no poder”, critica o comentador.

Enquanto faz um rol de críticas: “Primeiro, quer uma maioria absoluta, mas também aceita governar sem ela; Segundo, governou seis anos à esquerda, mas, agora que a geringonça acabou e não ressuscita, não tem pejo de governar ao centro com o PSD; Terceiro, há um ano dizia que o PSD era descartável – até para viabilizar o OE – mas agora o PSD já é um aliado credível.”

Mudar de convicções só para manter o poder não é muito edificante”, acusa Marques Mendes.

O comentador considera que também a entrevista de Rio foi “bem pensada e preparada”, mas enaltece duas “fragilidades“: o presidente do PSD não querer debates e “não querer fazer campanha interna”.

Apesar disso, atira uma farpa ao líder social-democrata: “Rui Rio diz que não quer fazer campanha interna nem fazer debates com Paulo Rangel porque quer concentrar-se em fazer oposição a Costa e não entrar em tricas internas. Mas, numa hora de entrevista, não fez uma única crítica ao primeiro-ministro e fez várias a Paulo Rangel.”

Cravinho “só tem uma saída: demitir-se ou ser demitido”

Durante o habitual comentário, Marques Mendes abordou ainda a questão do tráfico de diamantes, que diz ser um “caso gravíssimo para a imagem das Forças Armadas”.

Mais do que um “caso de política”, o antigo líder do PSD considera que este é um “caso político” e diz até que João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, devia demitir-se. Ao mesmo tempo, não compreende como é que o primeiro-ministro e o Presidente da República não tiveram conhecimento dos factos.

“Custa-me muito a acreditar que o ministro não tivesse informado o primeiro-ministro. Por duas razões: pela opinião que tenho do ministro e pela experiência que tenho de ter sido várias vezes ministro. Perante uma situação destas, qualquer ministro reporta de imediato ao primeiro-ministro”, explica.

Contudo, aceitando a versão como “verdadeira”, Marques Mendes diz que se trata de uma situação “igualmente grave”.

“Significa que o ministro falhou ao não informar o primeiro-ministro. Tinha que o fazer. Pior: informou a ONU mas não informou o chefe do Governo. É transparente com as Nações Unidas e opaco com o primeiro-ministro”, refere, frisando que um governante nesta posição “só tem uma saída: demitir-se ou ser demitido”.