Portugal continua preso a uma política obcecada pelo imediato, uma política que trata o futuro como um luxo dispensável. A cada ciclo eleitoral repete-se o ritual previsível da nossa vida pública, uma espécie de bolsa de valores de egos onde tudo se discute menos o país: quem lidera, quem sobe, quem desce, quem regressa, quem desaparece, etc. O que quase nunca se discute é a pergunta essencial que qualquer democracia madura deveria colocar, nomeadamente, onde queremos que Portugal esteja daqui a dez, quinze ou vinte anos. A ausência desta pergunta tem empobrecido o debate público e reduzido a política a um exercício de curto prazo, incapaz de formular um projeto nacional.
É neste contexto que as intervenções de Pedro Passos Coelho têm provocado desconforto. Desde que regressou a uma cidadania mais ativa, tem insistido na necessidade de pensar o país para lá do calendário eleitoral. Passos Coelho tem procurado recolocar o debate no plano das ideias e não das pessoas, daí que recorrentemente refira “reformas estruturais” e “que plano”, e que fale de competitividade, crescimento, sustentabilidade das finanças públicas, qualidade institucional e reformas estruturais que exigem tempo, continuidade e visão.
Sempre que aborda estes temas, lança um desafio que não se dirige apenas ao Governo, mas ao sistema partidário no seu conjunto. O objetivo é forçar os partidos a se confrontarem as perguntas que evitam há demasiado tempo, a saber:
Onde queremos que Portugal esteja no futuro e que caminho devemos seguir para lá chegar?
Que modelo de desenvolvimento queremos seguir e que reformas estamos dispostos a assumir para garantir prosperidade futura?
A insistência num plano para Portugal a longo prazo revela a convicção de que o país sofre de um défice de estratégia e de que este défice não se resolvem com remendos políticos que duram o tempo de um ciclo de notícias não resolvem nada. Passos Coelho não é o único a pensar assim.
Invariavelmente, o problema surge no momento seguinte. Em vez de se discutir o conteúdo das propostas, o debate mediático faz aquilo que já se tornou vício: foge das ideias como quem foge de trabalho sério e refugia-se na especulação sobre protagonistas. As manchetes, comentários e notícias passam a girar em torno da possibilidade de regressar à liderança do PSD, da eventual candidatura a Primeiro-Ministro ou da relação com a atual direção do partido. A discussão deixa de ser sobre ideias para Portugal e passa a ser sobre a pessoa de Passos Coelho.
Esta reação não é inocente. Resulta da dificuldade dos partidos em responder às questões de fundo e da incapacidade de apresentar projetos consistentes que possam ser escrutinados pelos eleitores.
A verdade é que o sistema partidário português se tornou um deserto intelectual onde a única coisa que cresce é a ansiedade eleitoral. Multiplicam-se medidas avulsas e respostas improvisadas – os tais remendos políticos que nunca chegam a transformar o país – sem qualquer projeto nacional que articule objetivos, prioridades, recursos e prazos. Questões decisivas como a demografia, a produtividade, a reforma do Estado, a educação, a justiça ou a sustentabilidade da Segurança Social permanecem subordinadas à lógica do ciclo eleitoral. E a desculpa do mandato de quatro anos já não convence ninguém. Nada impede que se definam planos faseados, com metas claras e continuidade entre governos.
Neste cenário, as intervenções de Passos Coelho tornam-se incómodas porque expõem o vazio estratégico que atravessa grande parte da política portuguesa. Quando alguém pergunta que país queremos construir nas próximas décadas, obriga os partidos a responder. E quando não existem respostas, a solução mais cómoda é deslocar o debate para o plano pessoal. O paradoxo é evidente. Um cidadão intervém para discutir ideias e reformas, mas a conversa pública transforma-se num exercício de especulação sobre o seu futuro político.
O resultado é um empobrecimento do debate democrático. Em vez de confrontar projetos para o país, confrontam-se personalidades. Em vez de discutir Portugal daqui a vinte anos, discute-se quem liderará um partido nas próximas eleições. Enquanto isto acontece, as questões estruturais que determinam o futuro permanecem sem resposta. O país continua a navegar sem rumo, preso ao imediato e incapaz de formular uma visão que mobilize cidadãos e instituições. Não admira que o populismo cresça. Quando a política abdica de pensar o futuro, aparecem sempre os vendilhões de ilusões embaladas em slogans.
Se queremos um Portugal mais próspero, mais competitivo e mais justo, é tempo de abandonar a obsessão pelas pessoas (uma verdadeira política de sombras) e regressar ao que realmente importa: ideias, projetos e planos que definam o país que desejamos concretizar nas próximas décadas.
Post-Scriptum:
Invariavelmente, assim que Passos Coelho menciona «reformas, ideias e planos» aparece, qual reflexo pavloviano, esta pergunta: «Mas quais são as reformas que ele propõe?»
Esta inversão da responsabilidade política é uma crítica com uma lógica imbatível! Passos Coelho não é candidato, não governa, nem está no parlamento. Todavia, aparentemente, é a ele que compete desenhar o programa de governo, definir o Portugal de daqui a 10, 15 ou 20 anos e entregar o respetivo plano de execução.
Desculpem lá, mas quem tem a obrigação de dizer que Portugal querem ter daqui a 10, 15 ou 20 anos? Quem deve indicar as reformas, as ideias e os planos que permitirão alcançar o país que imaginam? É o cidadão Passos Coelho – ou os partidos que estão no Governo e na oposição?
Passos Coelho pergunta por «reformas estruturais, plano e ideais» – e tem toda a razão.
Qualquer cidadão consciente devia querer saber o que os nossos políticos pensam para o futuro do país. Não basta lamentar o atraso, denunciar a paralisia ou invocar a urgência de reformar; é preciso dizer o que se pretende mudar, como, quando e com que meios.
Se fosse candidato, Passos Coelho certamente apresentaria as suas ideias e indicaria as reformas que defende. Não o sendo, quer, como cidadão, ouvir os partidos e os seus líderes sobre o que pretendem fazer pelo país. Eu também quero!
De uma coisa tenho a certeza: a atual composição da Assembleia da República não impediria Passos Coelho de tentar fazer reformas.
O que impede reformas raramente é a falta de deputados; é a abundância de desculpas.