“Podemos continuar a fazer isto nos próximos 10, 15 anos?”. A frase de Max Verstappen, proferida com a voz já esforçada depois de segundos de gritos ininterruptos, deixa certezas sobre aquilo que já todos sabíamos: a vitória do neerlandês em Abu Dhabi, a conquista do primeiro título mundial e a subida ao lugar mais alto do pódio são páginas do primeiro capítulo de uma história que ainda agora começou.

Este domingo, no circuito de Yas Marina, Verstappen aproveitou uma última volta de loucos depois do fim do safety-car e superiorizou-se a Lewis Hamilton, vencendo o Grande Prémio e tornando-se campeão do mundo de Fórmula 1 pela primeira vez. Com 24 anos, o neerlandês é o quarto mais jovem de sempre a conquistar o título — atrás de Vettel, do próprio Hamilton e de Alonso –, é o 34.º campeão da história do Campeonato do Mundo e é definitivamente o nome que se segue no presente e no futuro da modalidade.

Um final épico, uma volta para a história, a corrida que todos merecíamos: a primeira página de Verstappen apagou a oitava de Hamilton

“É inacreditável. Continuei a lutar ao longo de toda a corrida e depois existiu esta oportunidade na última volta, é incrível. Não sei o que dizer. A minha equipa e a Honda merecem. Finalmente, apareceu um bocadinho de sorte para mim. Também quero agradecer ao Checo [Pérez], tem sido um colega de equipa brilhante. A minha equipa sabe que eu os adoro e espero que possamos continuar a fazer isto juntos por mais 10, 15 anos. Não quero mudar nunca. Quero ficar com eles para o resto da minha vida, se me quiserem. Estou tão feliz. O nosso objetivo quando nos juntámos era ganhar este Campeonato e agora conseguimos”, disse o piloto pouco depois de sair do carro, numa declaração de exclusividade e compromisso que não deixa de ser rara no desporto. Antes ainda, cumprimentou Lewis Hamilton, que se aproximou para lhe dar os parabéns.

Depois dos gritos, dos socos no volante e da emoção desmedida, Verstappen parou o carro, saiu e ajoelhou-se em lágrimas junto a um dos pneus. Depressa foi rodeado por elementos da Red Bull que o lançaram ao ar, comungando com a enorme mancha laranja que enchia as bancadas do circuito de Abu Dhabi, mas teve de esperar mais um pouco até chegar ao abraço que mais procurava: o do pai. Jos Verstappen, que fez o percurso pelo pit lane apoiado noutra pessoa porque parecia já nem ter forças para andar, não escondeu a emoção e partilhou um momento de pura cumplicidade com o filho já mais longe dos holofotes. Afinal, este domingo é o dia de Max mas é também o culminar de um projeto de Jos — tornar o filho num campeão do mundo.

O piloto neerlandês cresceu, viveu e fez-se homem nas garagens da Fórmula 1, enquanto o pai competia pela Benetton, pela Arrows e pela Minardi, e nunca teve qualquer outro desígnio que não chegar à prova rainha do automobilismo e ser campeão do mundo. Aterrou no Campeonato em 2015, ainda através da então Toro Rosso, e as prestações surpreendentes e acima da média garantiram-lhe o salto para a Red Bull logo no ano seguinte, aproveitando a despromoção de Daniil Kvyat. No primeiro Grande Prémio na equipa dos crescidos, na Catalunha, venceu e tornou-se o mais jovem de sempre a ganhar uma corrida, com apenas 17 anos. Seguiram-se quatro temporadas de consolidação e afirmação em que passou a ser o piloto principal depois da saída de Daniel Ricciardo e o ano de 2021 consagrou-o como o único capaz de fazer frente à hegemonia de Lewis Hamilton.

“Estou muito orgulhoso. O Max foi o piloto deste ano e merece realmente este Campeonato. Toda a equipa estava preocupada porque conhecemos a velocidade da Mercedes. Mas mesmo assim ele continuou a lutar, luta sempre. Isso está no ADN dele e foi o que fez hoje. Disse que estava a conduzir ao máximo a cada volta. Ele só teve uma oportunidade, uma volta, e aproveitou. Durante a corrida afastei-me porque já não acreditava mas voltei para a última volta”, reconheceu Jos Verstappen, que em Abu Dhabi viveu o dia que sempre quis para si e que teve de aprender a querer para o filho.

Em Verstappen, no novo campeão do mundo, juntaram-se a vontade de um pai, o talento de um filho e uma capacidade admirável para tornar possível o que parecia inalcançável. O neerlandês chegou à Fórmula 1 em pleno pico de carreira de Lewis Hamilton, com fama de antipático e sem grandes amigos no paddock mas soube conquistar dentro de pista uma autêntica legião de fãs que o acompanhou em praticamente todos as corridas da temporada. A “mancha laranja”, como ficou conhecida, é uma contradição em si mesma que só torna o percurso de Verstappen ainda mais singular: ele nunca quis conquistar ninguém, nunca se esforçou para que gostassem dele e nunca foi o protótipo do ídolo. Ainda assim, é campeão do mundo.